domingo, 16 de junho de 2019

João Lourenço alerta que dívida externa angolana financiou enriquecimento ilícito de uma elite

O líder do MPLA e Presidente de Angola, João Lourenço, afirmou que a dívida externa do país atingiu um nível "tão alto" devido a investimentos de reconstrução, mas também por financiar "o enriquecimento ilícito de uma elite restrita".

Na abertura do VII congresso extraordinário do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), João Lourenço começou por manifestar o "imenso" desejo de ter no conclave a presença do antigo líder do partido, José Eduardo dos Santos, "que ao longo de 39 anos conduziu o MPLA nos momentos bons e maus", sendo hoje o presidente emérito do partido.
Na sua intervenção, João Lourenço frisou que o MPLA, maior força política nacional, tem ainda grandes desafios para enfrentar e superar.

O líder do MPLA, partido no poder desde 1975, lembrou que com o fim do conflito armado, em 2002, que destruiu grande parte das infraestruturas, "o país teve necessidade de se endividar bastante para realizar investimento público em estradas e pontes, portos, aeroportos, caminhos de ferro, centrais hidro e termo elétricas e as respetivas linhas de transmissão, centrais de captação e tratamento de água, e outras necessárias ao desenvolvimento económico e social".

Nesse sentido, foi realizado "um grande esforço de reconstrução nacional, que obrigou o país a recorrer ao endividamento externo, situado hoje nos 63% da dívida pública, que por sua vez representa hoje 84% do Produto Interno Bruto".

Contudo, a dívida pública e particularmente a dívida externa atingiram "estes níveis tão altos, comparado ao que realmente se investiu nas infraestruturas, porque ela serviu também para financiar o enriquecimento ilícito de uma elite restrita, muito bem selecionada, na base do parentesco, do amiguismo e do compadrio, que constituíram aglomerados empresariais com esses dinheiros públicos".

João Lourenço disse ainda que, "com esta situação de injustiça", que precisa de ser corrigida, Angola despende, por cada dólar na realização do serviço da dívida, o pagamento desses investimentos "ditos privados, na banca, na telefonia móvel, nos media, nos diamantes, na joalharia, nas grandes superfícies comerciais, na indústria de materiais de construção e outros que uns poucos fizeram com dinheiros públicos".

"Não é aceitável e não podemos nos conformar com o facto de se ter chegado a um ponto de colocar empresas públicas, com destaque para a Sonangol e a Sodiam, a financiar também alguns desses negócios privados como se de instituições de crédito se tratassem", referiu.
A inversão desta situação, que considerou ser uma "batalha ainda não ganha", vai fazer com que estes e outros recursos sirvam para "combater melhor a pobreza, retirar cada vez mais cidadãos do limiar da pobreza e edificar uma verdadeira classe média com um nível de vida aceitável".

O dirigente do maior partido político de Angola recordou que o lema com que ganhou as eleições elege como principal necessidade "melhorar o que está bem e corrigir o que está mal", palavras que considerou "muito nobres, bonitas no papel, mas em certa medida difíceis, mas não impossíveis de as tornar realidade".

"No que diz respeito ao corrigir o que está mal, uma coisa é dizer, é a manifestação de uma intenção, outra coisa, é ter a verticalidade moral, a coragem de o fazer realmente sem ceder à pressões, chantagens ou mesmo ameaças", sublinhou.

João Lourenço realçou que o partido que governa em Angola precisa de dirigentes que façam respeitar a Constituição e a lei, que através do seu exemplo "eduquem toda a sociedade, na necessidade de respeito pelo bem público, da necessidade de todos prestarem contas da forma como gerem o erário público, que é propriedade de todos os contribuintes".

"É de dirigentes com este perfil, que não esperam encontrar regalias, facilidades e privilégios, que têm a consciência que ser membro do Comité Central exige mais trabalho, mais responsabilidade, melhor conduta social, que o partido precisa de descobrir e de promover", salientou.

O VII Congresso extraordinário do MPLA realiza-se com o foco virado para a estratégia para as primeiras eleições autárquicas, previstas para 2020, e com o aumento do Comité Central para 497 membros e "ajustes pontuais" aos estatutos. Expresso

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Dívidas ocultas: Privinvest contra-ataca para fugir à responsabilidade?

Uma guerra judicial está declarada no contexto das dívidas ocultas moçambicanas. Os envolvidas movem-se nos campos de batalha internacionais onde se degladiam para não sair no prejuízo. Agora entra em cena a Privinvest. 


A 14 de março de 2019, a construtora naval Privinvest processou na Suíça o Estado moçambicano e as empresas estatais Ematum, MAM e Proindicus, envolvidas no escândalo das dívidas ocultas avaliadas em dois mil milhões de euros.
Segundo o jornal Bloomberg, a empresa com sede nos Emiratos Árabes Unidos quer ser indemnizada em cerca de 177 milhões de euros pelas perdas que supostamente teve por incumprimento contratual por parte das empresas em causa.
O jurista moçambicano Eduardo Elias entende que "a Privinvest está a fazer isso como forma de fugir a sua responsabilidade. Não é agora que vai dizer ou tentar convencer a quem quer que seja que as empresas moçambicanas é que ludibriaram para tirar dividendos."
Entretanto, um mediador da construtora naval já foi detido no começo de 2019 no âmbito de um processo judicial iniciado pela justiça norte-americana. Jean Boustani é acusado de ter cometido crimes financeiros e de se ter envolvido em esquemas de corrupção, num caso ligado às dívidas ocultas.

Privinvest sai do silêncio

A Privinvest disse à Bloomberg que "durante cerca de três meses tem sido muito silenciosa face à falsa narrativa sobre as suas atividades em Moçambique, e não pretende mais continuar em silêncio".
Esta ação da Privinvest acontece depois de o Estado moçambicano ter processado o banco Credit Suisse e a Privinvest no Tribunal Comercial de Londres, isso no começo de 2019, exigindo uma indemnização por fraude e outros ilícitos.
"Cada um procura fazer valer os seus direitos, às vezes pensamos que temos um direito quando na verdade chegamos a conclusão através dos tribunais que afinal não temos aquele direito que arreigamos ter. Pensamos que o que estamos a assistir agora é cada um a tentar exibir os seus argumentos tentando mostrar aos tribunais se deve ou não pagar", entende o jurista Elias.

E as responsabilidades de Filipe Nyusi?

O aviso de arbitragem da instituição suiça foi endereçado ao Presidente de Moçambique. De lembrar que na altura da contração das dívidas ilegais, da criação das referidas empresas e dos negócios a elas relacionados, Filipe Nyusi era ministro da Defesa que tutelava parte das empresas.
Pela sua participação muitos defendem que o Presidente moçambicano tem algo a dizer sobre este escândalo. E Andre Thomashausen, especialista em direito internacional, é um deles: "Ficará bem claro que a responsabilidade máxima pelo desvio de dois mil milhões de euros está nas mãos do ex-Presidente Guebuza e nas mãos do Presidente Nyusi, que numa carta que recentemente foi publicada pela imprensa moçambicana, instruiu os responsáveis pelas empresas do Estado, Ematum, MAM e Proindicus, a fazerem o empréstimo. Portanto, não pode negar que não tinha conhecimento, pelo contrário, como ministro da Defesa na altura encaminhou esse processo todo e tem uma plena responsabilidade nele." DW

terça-feira, 16 de abril de 2019

Comité central da FRELIMO: "Eu acho que há-de haver discussão acesa", antevê Samito Machel

Fazer-se ouvir dentro do partido que governa Moçambique é uma forma de trazer mudanças na FRELIMO, entende Samora Machel Jr. Independentemente do que lhe possa vir a acontecer Samito diz que não desiste das suas ideias. 

Samora Machel Jr é visto como o homem que desafiou o status quo da FRELIMO, o partido que governa Moçambique. Desafiou a tudo e todos quando em 2018 avançou sem o seu partido para uma candidatura a edil da cidade de Maputo, embora abortada no final. Isso foi entendido como um marco de mudanças há muito exigidas na formação. Entrevistamos o filho do primeiro Presidente de Moçambique independente, Samora Machel, que enfrenta agora um processo disciplinar pela ousadia.

DW África: Vai continuar a vestir a camisola da FRELIMO apesar do antagonismo que marcou as vossas relações nos últimos tempos?
Samora Machel Jr. (SM): Eu estou na FRELIMO, eu sou FRELIMO ainda.

DW África: Defende mudanças no seio do seu partido. Pode especificar de que natureza?
SM: Acho que o partido tem de ser muito mais aberto e [deve] aceitar as diferenças de opiniões com naturalidade. Nem todos nós pensamos da mesma maneira e a [postura] é de um partido dinâmico, um partido do povo que acompanha as dinmicas da sociedade e daí que vão surgir diferentes opiniões e ideias.

DW África: Vai candidatar as eleições de outubro próximo?
SM: Nunca anunciei que iria fazer isso, o meu objetivo era candidatar-se para o município [de Maputo].

DW África: Quando pretendeu candidatar-se as municipais teve apoio de algum correlegionário seu?
SM: Vários, a lista da AJUDEM é dos membros do partido. E vários membros do partido ao nível da cidade apoiaram-me.

DW África: A sua madrasta, a sra Graça Machel, na altura manifestou publicamente apoio a sua pessoa. Continua a ser assim até hoje que vive um momento de tensão com o seu partido?
SM: Se há tensão deve ser do lado do partido, eu estou muito tranquilo, eu não estou sob pressão nenhuma. Tenho uma boa relação com a minha mãe, continuamos a apoiar-nos um ao outro, e ela dá-me todo o suporte.

DW África: A decisão que tomou de se candidatar as autárquicas custou-lhe um preço alto na FRELIMO?
SM: Depende do ponto de vista, o que é custar um preço alto, é o meu nome estar a ser propalado a nível nacional? Ser discutido? Não considero isso um peço alto. Mas por exemplo, se for expulso o preço pode ser alto, [mas] continuo convicto das minhas ideias.

DW África: Tem um nome de peso no mundo da política em Moçambique e há quem entenda que esse seja o seu maior trunfo. É realmente só isso ou acha que tem na verdade algo há mais para oferecer aos moçambicanos?
SM: Eu havida de lhe convidar para vir cá a Maputo e fazermos uma passeata pela cidade e aí havia de perceber se o peso que tenho na política é só por causa do nome ou por causa daquilo que eu defendo e o que são as minhas ideias. Acho que tenho muito mais valias para dar.

DW África: O senhor tornou-se uma espécie de símbolo de revolução numa FRELIMO que ainda é dominada por dinossauros e que dá sinais de estar a precisar de ser revitalizada. Como pretende continuar a implementar mudanças no seu partido?
SM: Fazendo a minha voz ouvir-se dentro do partido, criticando o que não está certo e aplaudindo o que está certo. Neste momento, o povo é constituído por 70% de jovens, eu faço parte dos jovens deste país. Então, nós temos de trazer novidades, trazer uma maneira de pensar diferente para dentro do partido.

DW África: Inicialmente acreditava-se que poderia vir a ser penalizado ou expulso da FRELIMO no contexto do comité central, que deve acontecer no começo de maio, por ter concorrido as autárquicas. Mas depois o processo disciplinar foi antecipado e isso foi entendido como uma estratégia para o manter em "banho-maria" travando assim alguma ambição política sua. Entende as coisas da mesma forma?
SM: Primeiro, a minha ambição é trabalhar para o povo, venho do povo e tenho de trabalhar para o povo e nunca vou deixar de trabalhar para o povo, estando sempre do lado do povo. Agora, o processo disciplinar teve um início e deve ter um desfecho e até este momento não há desfecho. Eu recebi a carta de acusação e tinha um período para responder e respondi dentro dos prazos. O comité de verificação do comité central está a analisar a minha defesa e neste momento aguardo desfecho e isso acho que só pode ser ao nível do comité central, sendo eu membro do comité central.

DW África: E o que espera que venha a acontecer no comité central em relação ao seu caso?
SM: Eu acho que há-de haver discussão acesa. Há-de haver várias opiniões em termos de desfecho: se tenho de ser expulso, se tenho de continuar dentro do comité central ou se tenho de sofrer uma sanção... Não sei.

DW África: E uma tentativa de postergar o seu caso para depois do comité central pode ser tomada em consideração?
SM: Isso depende tudo do partido, não depende de mim. O que me competia fazer eu fiz.

DW África: E em relação ao próprio partido, o que deverá dominar o comité central? A FRELIMO não vive um momento particularmente bom...
SM: Acho que o partido vai se debruçar sobre a vida a sua vida interna e preparar-se para as eleições que se avizinham. Tivemos este infortúnio ao nível da zona centro, o ciclone Idai, vamos discutir o impacto que esta intempérie teve sobre a zona e como o partido pode melhorar a sua atuação dentro dos esforços que tinham sido feitos para recuperar ou trazer as pessoas de volta para a sua vida normal, temos a questão da instabilidade dos insurgentes no norte do país, temos de encontrar uma saída que traga paz e calma naquela região para que haja desenvolvimento.

DW África: E em relação às dívidas ocultas?
SM: Acho que não preciso mencionar, acho que é um assunto que é nosso pão de cada dia e tem de ser discutido.

DW África: E em que medida, na sua opinião, isso desestabiliza a imagem da FRELIMO neste momento, a beira de eleições principalmente?
SM: Não é bom, nenhum partido gostaria de estar numa situação destas, principalmente quando somos partidos que estamos a governar. Temos de encontra uma saída para que o país possa voltar de novo aos carris ter níveis de crescimento como tínhamos há alguns anos atrás.

DW África: Há certas correntes que defendem que o partido FRELIMO está a necessitar de uma espécie de purificação. Partilha dessa opinião?
SM: Depende de como entende por purificação...

DW África: De excluir ou se livar, de alguma maneira, de membros que não dignificam em nada a imagem do partido...
SM: Eu concordo, sim. Não não dignifica não merece representar o partido.

DW África: E acha que o número desse tipo de gente dentro da FRELIMO cresce ou tende a reduzir?
SM: Eu acho que tende a crescer, querem aproveitar-se do facto do partido ser uma posição que não se pode dissociar da história deste país, então ser membro de um partido grande como a FRELIMO é vantajoso para quem tem objetivos obscuros e aproveitam-se.

DW África: A FRELIMO que o seu pai sonhou e a FRELIMO de hoje ainda tem alguma coisa em comum?
SM: Há uma diferença entre a FRELIMO que temos hoje e a que tínhamos em 1975 até aos anos oitenta, as dificuldades eram diferentes, a maneira de olharmos para os objetivos finais que queremos atingir no país é diferente, agora, temos aqui problemas sérios, problemas de falta de valores, é preciso trazermos os valores de volta, há problemas sérios de corrupção e isso não era uma situação corrente nos anos de que está a falar. DW

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Idai. Mulheres abusadas sexualmente a troco de comida

Reportagem publicada este domingo do Jornal de Notícias denuncia casos de mulheres forçadas a atos sexuais a troco de ajuda humanitária depois do ciclone Idai.

"É a terceira vez que sou violada pelo mesmo homem, ele marcou, não me dá comida". LIG (o nome que o Jornal de Notícias dá a esta mulher para proteger a sua identidade) estaria à espera de alimentos junto ao posto do chefe de Lamego, distrito de Nhamatanda, Moçambique quando foi mandada para casa. O chefe da localidade disse que lhe levaria um saco de arroz mais tarde.
Naquela noite tinha apenas uma mão com arroz que cozeu para dar aos três filhos com dois, oito e 12 anos. Ela não comeu. Dali a umas horas, depois dos filhos já estarem deitados num colchão no chão, terá aparecido o mesmo homem que lhe prometera comida. Trazia consigo um saco de arroz com dez quilos, mas não lho deu. Perguntou-lhe se tinha dinheiro. Ela disse que não. LIG deitou-se com ele a troco de comida.
Não é caso único, relata o jornal. "Há dezenas, centenas de mulheres nessa condição. Não é só aqui. Esse homens maus são vários e trabalham como chefes da localidade. É o chefe quem faz as listas das pessoas e depois decide quem recebe, ou não, os alimentos doados, eles têm esse poder", denuncia Rui Miguel Lamarques que tem estado envolvido na ajuda à população da Beira.
Confrontado com esta situação o chefe da localidade de Lamego, José Simão Size, ele próprio acusado de abusar sexualmente as vítimas do ciclone Idai, nega tudo. "Mas que violações? O senhor viu alguma coisa? Não viu porque não há. Negro africano gosta muito de difamar, É tudo mentira", diz.
O ciclone Idai fez mais de 600 mortos, cerca de 1600 feridos e afetou mais de 1,5 milhões de pessoas, segundo o mais recente balanço. DN

sábado, 6 de abril de 2019

Doações em Nampula pelo ciclone Idai: voluntárias ou forçadas?

Um dia de salário descontado a todos os membros do executivo de Nampula com vista a apoiar as vítimas do ciclone Idai. A decisão do governo provincial é de caráter obrigatório.

Nampula continua a solidarizar-se com as vítimas do ciclone Idai. O governo provincial está a descontar um dia de salário de todos os membros do executivo a todos os níveis, com vista a apoiar as vítimas no centro do país. O cumprimento da medida é praticamente obrigatória, apesar de não se ter fixado um valor.

Contribuição voluntária ou forçada?

Os funcionários públicos desconhecem se a contribuição é voluntária e ou forcada, mas o executivo provincial diz que decidiu tomar esta medida com a finalidade de reduzir o sofrimento das vítimas deste fenómeno da natureza.
O porta-voz do Governo de Nampula, Leo Jamal, disse à DW  que "o governo provincial decidiu que todos os membros do governo, e toda máquina governativa da nossa província, deve contribuir com um dia do seu salário, como forma de aumentar as contribuições colectadas pelo movimento de apoio às vítimas do ciclone Idai, que assolou recentemente a região centro do país'', disse.
Paralelamente a esta contribuição, explica Leo Jamal, o governo está a mobilizar mais apoios junto dos empresários locais e a população em geral no sentido de recolher mais doações, através de um movimento de solidariedade já criado.
Mas, o governador provincial de Nampula, Victor Borges, não sabe quando é que o seu governo vai, efectivamente, fazer chegar as ajudas financeiras que estão a ser recolhidas.‘‘Não posso dizer agora quando é que será a entrega [do valor colectado]. Estamos em processo de recolha. O movimento começou há muito tempo. Já estamos a reunir tudo e logo que estiver tudo reunido faremos a entrega'', disse.

Cobranças coercivas

Nas redes sociais circulam várias informações de cobranças coercivas feitas aos funcionários públicos, sobretudo professores e enfermeiros, independente de desempenharem ou não funções de chefia, em diferentes distritos da província.
Entretanto, uma fonte oficial disse que o Governo desconhece a informação.
Em Moçambique, o movimento solidário a favor das vítimas continua a crescer. Diferentes forcas da sociedade estão a aderir às campanhas de solidariedade.
Recentemente, a Mineradora chinesa Haiyu Mozambique Mining, que explora areias pesadas em Angoche, apoiou os sinistrados com produtos alimentares e vestuários.
A Comunidade Muçulmana também se juntou ao movimento de envio de donativos às populações que enfrentam sérios problemas, nomeadamente de saúde.
O grupo segundo o seu representante, Akil Nasser, ofereceu 200 toneladas de bens diversos. "Reunimos e abraçamos esta causa, apoiando todas as famílias afectadas. É neste espirito de solidariedade, que em representação da província de Nampula, vimos por este meio apoiar com 200 toneladas de produtos diversos’’, disse Nasser. DW

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Moçambique admite desvios da ajuda às vítimas do ciclone Idai

Face a relatos de roubo de alimentos e de desvios de donativos para as vítimas do Idai, autoridades moçambicanas prometem fiscalização apertada e punição exemplar. Parlamento de Moçambique aprovou, esta quarta-feira, a criação de um grupo de trabalho para avaliar a transparência na assistência às vítimas do ciclone

As autoridades moçambicanas admitiram que os bens enviados para ajudar as vítimas do ciclone Idai no país estão a ser desviados e prometeram uma fiscalização apertada e uma punição exemplar. Isto depois de vários relatos de roubo de alimentos e de desvios de donativos terem chegado ao gabinete do próprio presidente da República, Filipe Nyusi, que na semana passada esteve na Beira, província de Sofala, principal zona afetada pelo ciclone que fez 598 mortos.

"As reclamações vão continuar sempre enquanto não conseguirmos otimizar aquilo que estamos a fazer. Como podem imaginar, este é um processo absolutamente complexo... temos estado a desdobrar em tudo que é possível para assegurar que estes mecanismos funcionem e que os produtos cheguem aquelas pessoas que precisam . Neste processo naturalmente algumas coisas que não estão ao nosso alcance podem acontecer. O que temos estado a apelar a sociedade é que nos ajudem a monitorar, ajudem-nos a controlar, ajudem-nos a vigiar e deem-nos informação concreta sobre se há elementos de prova que digam que as pessoas estão a roubar, que é para nós agirmos", disse, esta terça-feira, em conferência de imprensa, a diretora-geral do Instituto Nacional de Gestão das Calamidades de Moçambique, Augusta Maita, citada pelo site da rádio alemã Deutsche Welle. Maita foi cabeça de lista da Freljmo pela Beira nas eleições locais de outubro passado, das quais saiu vencedor o rival Daviz Simango, líder do MDM, que é o terceiro maior partido de Moçambique.

No mesmo sentido falou, no mesmo dia, o secretário-geral da Frelimo, Roque Silva. "Aqueles que meterem mão naquilo que as organizações e pessoas de bem estão a doar para mitigar o sofrimento da população serão levados a tribunal e punidos exemplarmente", declarou o responsável, falando aos jornalistas, após desembarcar na cidade de Chimoio, em Manica. O secretário-geral da Frelimo, reportou a Lusa, apelou à sociedade moçambicana e à comunidade internacional para intensificarem a ajuda às vítimas do ciclone Idai e assinalou ter ficado triste com as imagens de destruição e sofrimento.

Em Portugal, na terça-feira à noite, mais de quatro dezenas de artistas juntaram-se num concerto de solidariedade no Capitólio. O evento foi organizado pela cantora moçambicana Selma Uamusse e contou com transmissão na RTP, bem como com a participação do presidente da República português e o embaixador moçambicano em Lisboa. Ao longo de todo o dia, através de uma linha telefónica de valor acrescentado, que vai permanecer ativa até dia 5 de abril, foram reunidos mais de 300 mil euros em donativos. Estes serão entregues a oito organizações no terreno. Todas elas assinaram uma carta de compromisso público em que garantem uma gestão transparente e eficaz de todo o dinheiro que receberem, comprometem-se a realizar uma auditoria e um relatório final a dizer onde todo o dinheiro foi gasto. Ler+

terça-feira, 2 de abril de 2019

José Eduardo Agualusa: "João Lourenço trouxe o fim do medo na sociedade civil"

Já não ia a Angola há mais de três anos, José Eduardo Agualusa. Regressou para lançar o livro Sociedade dos Sonhadores Involuntários e fazer workshops de escrita com Mia Couto - a convite do Instituto Goethe e do coletivo cultural Pés Descalços. O escritor angolano, que vive em Moçambique, ainda não tinha estado no seu país depois das eleições e fala agora, numa entrevista ao Jornal de Angola que o DN publica em exclusivo para Portugal, sobre o país diferente que encontrou.

Está a escrever em Angola? Ou está completamente dedicado à agenda oficial?
 
Estou a escrever. Temos de aproveitar todos os momentos para escrever. Estou a escrever um novo romance que me comprometi em entregar ao meu editor português até finais de maio. Não sei se será possível. Mas estou avançado.

É uma nova abordagem sobre a realidade atual de Angola?
 
É um romance muito particular, que decorre em sete dias na Ilha de Moçambique, onde estou a viver, mas durante um festival de literatura africana. As personagens são quase todas escritores africanos, vários deles são angolanos. É um romance sobre muitas coisas, sobretudo sobre literatura. Mas se tivesse de o definir diria que é um romance sobre o poder da imaginação.

No seu romance Estação das Chuvas pegou em personagens da história, da vida real, e pô-las a falar na primeira pessoa. Isso provocou muita polémica. E agora diz que vai romancear escritores reais...
São todas personagens, mas ficcionais. O Mia Couto aparece com o seu próprio nome e eu também apareço como personagem. É uma brincadeira divertida. Quanto às outras personagens, algumas são inspiradas em figuras reais, mas são ficcionais.

Mesmo sendo ficcionais, são facilmente referenciáveis na vida real?
 
Algumas talvez, outras não. O interessante na literatura é que você pega uma personagem baseada numa figura real mas se ela resulta adquire vida própria, vai-se transformando, vai-se tornando cada vez mais complexa e a partir de um certo momento já é difícil dizer que ela veio dessa ou daquela pessoa.

Chega a Angola num contexto em que a transição política vai bastante adiantada. Essa transição está a corresponder a tudo quanto imaginava?
 
Ninguém imaginava. A verdade é que há pouco tempo vivíamos um período de estagnação, sem grande esperança de mudança. O que o presidente João Lourenço trouxe foi uma nova esperança, acho que se abriu uma janela de esperança num quotidiano muito sombrio. Por exemplo, uma coisa que claramente para mim João Lourenço trouxe foi o fim do medo entre a sociedade civil. Hoje em Angola se respira muito melhor. O medo deslocalizou-se no sentido em que aqueles que tinham medo, que era o conjunto da sociedade civil, deixou de o ter. O medo passou para o partido no poder, quem hoje vive com medo são os militantes históricos, os que ainda não sabem bem o que vai acontecer. Mas essa presidência conseguiu apaziguar o conjunto da sociedade civil. Parece que estamos a caminho de uma democracia mais sólida, mais completa, mas ainda falta muito. Por exemplo o poder local. Não podemos falar em democracia sem o poder local. E hoje, finalmente, parece que estamos a avançar para o poder local, o que é um bom sinal. E há outros desafios: despartidarizar o aparelho do Estado, conseguir que a oposição se torne mais forte e credível. A democracia passa não só por um governo sólido, mas também por uma oposição sólida, qualquer que ela seja e qualquer que seja o governo.

Há quem acredite que o combate à corrupção até às últimas consequências, doa a quem doer, carrega consigo um enorme potencial de implodir o MPLA e com isso pôr em risco a estabilidade de todo o sistema político...
Por isso é que eu disse que o medo se deslocalizou. Hoje quem tem medo não é a sociedade civil. Quem tem medo é o MPLA, o partido no poder. Dentro desse partido há muita gente que esteve ligada a práticas ilícitas de enriquecimento rápido. Essas pessoas estão assustadas. Agora, esse combate à corrupção é dentro do MPLA que tem de começar, porque foi aí que houve mais enriquecimento rápido. Toda a sociedade, no seu conjunto, tem o dever de apoiar o presidente João Lourenço, neste momento, no que diz respeito ao combate à corrupção. Aquilo que sustenta o presidente é o apoio da sociedade civil. A maior parte dos inimigos de João Lourenço não estão fora, estão dentro do seu próprio partido. É preciso apoiá-lo neste combate.

Há algum tempo deu uma entrevista em que dizia que João Lourenço como presidente de transição não teria "força para dirigir um partido tão complexo como é o MPLA". Hoje tem mais fé?
 
Não me lembro de ter dito isso. Mas, de qualquer forma, estamos a assistir a esse combate e João Lourenço tem revelado uma coragem política e uma capacidade de articulação que têm surpreendido. Parece-me que sim, que está a conseguir avanços e algumas situações que parecem ser um recuo, como a recente libertação de Zenu (filho de José Eduardo dos Santos), que tem estado a provocar algum debate, e a saída do país de Jean-Claude [Bastos de Morais] (o gestor do Fundo Soberano). Quando cheguei estava a ouvir a Procuradoria-Geral da República... Nem quero falar muito sobre isso porque, realmente, tenho a sensação de que não conhecemos tudo e custa-me falar de um assunto de que não temos o domínio absoluto. Em termos de perceção, houve ali um recuo. No mínimo, esta pessoa não devia ter sido autorizada a abandonar o país até que tudo ficasse devidamente esclarecido, ainda que, de um ponto de vista estritamente legal, a ação dele estivesse sustentada por contratos, evidentemente equivocados, alguém terá de responder por eles. Até acredito que ele possa não ser responsabilizado, mas...
De tudo o que foi dito sobre isso sobressai a ideia de que a sua libertação e autorização de saída do país foi o preço pago pela recuperação dos ativos do Fundo Soberano...
Até posso compreender que a primeira intenção era reaver o dinheiro. Mas onde fica a justiça aos olhos de um povo tão martirizado, a quem essa ação concretamente prejudicou, porque foram milhões de dólares retirados do país quando poderiam ser utilizados para amenizar a situação da população, que é má? Onde fica a justiça nesse processo? Esse homem sai livremente e não lhe vai acontecer nada? Como é que explicamos aos nossos filhos que há uma justiça?

Alguma vez se imaginou no papel de um agente político?
Não.

Mesmo fora do quadro partidário?
 
Todo o escritor, em qualquer um dos nossos países, tem a obrigação de participar em debates que têm que ver com a melhoria da sociedade. É uma obrigação, um dever de escritor. Mas também acho que um escritor que se entrega à política ativa, pior ainda partidária, acaba por diminuir a sua voz. O Mario Vargas Llosa, quando se envolveu na política ativa concorrendo à presidência do seu país, o Peru, a voz dele diminuiu. A credibilidade dele diminuiu. Em primeiro lugar sou escritor, é o que gosto de fazer, é aquilo que sei fazer. Em segundo lugar a minha voz pode ter mais influência fora do que dentro da política. O escritor pode usar os seus livros para suscitar debate e depois pode aproveitar o facto de ter voz (dar entrevistas, etc...) para participar nas grandes discussões. Quando o escritor se envolve diretamente na política a sua voz, em vez de ser ampliada, reduz-se. Você para ser político, por exemplo, tem de saber submeter-se a uma disciplina partidária. Eu não sei fazer isso, toda a minha vida fui independente. Só de me imaginar a participar em reuniões... não tenho o menor talento para isso.
Tem sido muito associado a polémicas. Pelos vistos gosta de uma boa polémica, de estar contra a corrente...
Gosto do pensamento. A democracia para mim é o confronto de ideias. E não é assumir que a minha ideia é a melhor. É assumir que de todo o confronto de ideias pode emergir uma ideia melhor.

Usa muito a história como material para os seus romances. Isso não implica alguns riscos, sobretudo quando se trata da história recente, que ainda não está sedimentada?
 
Uma coisa que convém esclarecer logo: o território da ficção não é o território real. A Luanda dos meus livros não é a Luanda real. O objetivo da literatura não é replicar o real, é construir outro universo. Cada escritor cria o seu próprio universo. O escritor que tem sucesso é o que consegue criar o seu próprio universo. E, se tiver muito sucesso, consegue que o seu universo se sobreponha à realidade. Por exemplo, Ilhéus e Salvador da Bahia, de Jorge Amado, não eram reais. Mas ele teve tanto sucesso com os seus livros, que essas cidades foram-se adaptando aos livros dele. É um processo inverso.

É o caso dos musseques de Luanda, que para muita gente estarão para sempre associados ao imaginário de Luandino Vieira?
 
O Luandino Vieira infelizmente merecia muito mais sucesso do que aquele que teve até agora. Mesmo aqui em Angola o Luandino não é tão lido. Ultimamente estava a ler o último livro dele, O Livro dos Rios, que já não é tão recente e é um livro excecional. Infelizmente ele é pouco lido, dentro e fora do país. Para você conseguir que a sua ficção se sobreponha à realidade é preciso um grande sucesso. Um bom exemplo disso é o Gabriel García Márquez. Você sabe onde existia a única Macondo antes de García Márquez escrever Cem Anos de Solidão?'

Não.
Aqui em Angola, no leste. Há anos que tenho dito "um dia vou a Macondo, no leste".

Gabriel García Márquez chegou a saber da Macondo angolana?
 
Aparentemente não. Mas depois de escrever o seu livro Macondo ficou tão conhecida que na Colômbia criaram uma cidade chamada Macondo para responder à demanda dos leitores. É o que queria dizer: quando a sua ficção alcança um sucesso muito grande, ela passa a ser real.

O sucesso literário ocorre necessariamente em função da qualidade ou mais da máquina promocional por detrás da obra?
 
Acho que tem muito que ver com a própria obra. Às vezes, por muita promoção que você tenha, não alcança o sucesso. Há escritores com uma obra de grande qualidade, mas essa obra é mais difícil. Em Portugal tem o caso do António Lobo Antunes, que é um grande escritor, que nos seus primeiros livros chegou a vender cem mil exemplares. Hoje é muito difícil, os seus livros alcançam os dez mil exemplares vendidos. Como é que se explica? Acho que tem que ver com a própria dificuldade da obra do Lobo Antunes, que se foi tornando cada vez mais difícil de ler. A obra dele exige leitores muito sofisticados. A mesma coisa acontece com o Luandino Vieira, não é qualquer leitor que tem acesso à sua obra, tem de ser uma pessoa com muita leitura. A obra do Luandino no início era muito simples. Mas aqui em Angola há outras razões. A começar pelo preço do livro, que no tempo de partido único era muito barato e as pessoas compravam livros. Se calhar não os liam, mas compravam. Tudo isso tem que ver com a formação de leitores, precisamos de formar leitores.

Como é que se forma leitores?
 
Fazendo que as pessoas tenham acesso ao livro. Isso deve começar no ensino básico, não só formando professores mas permitindo que a escola tenha a sua biblioteca. No Brasil, antes desse descalabro absoluto com o senhor Bolsonaro, o governo Lula, que terá cometido muitos erros mas também teve muitos acertos, começou a instalar bibliotecas públicas e bibliotecas em escolas. A dada altura, o governo brasileiro era o maior comprador de livros no mundo, depois da China. Comprava livros exatamente para instalar bibliotecas em comunidades carentes, nas escolas, etc. Este é um exemplo que devemos copiar. Não se pode desenvolver um país sem a leitura, sem livros. O essencial é levar o livro às pessoas. Em Angola os livros estão caríssimos. Estão a dizer-me que o livro que vou lançar agora vai custar dez mil kwanzas (à volta de 25 euros). Quem é que vai comprar esse livro? Eu não comprava. Há uma ligação direta entre a leitura e o desenvolvimento.

Lembro-me do romance O Ano em Que Zumbi Tomou o Rio, ambientado em grande parte no Brasil. É esse livro que o fez ganhar fama nesse país?
 
Não sei. Essa obra é muito particular. Quando foi publicada, a sua receção no Brasil foi muito fria, porque é um livro que trata do racismo, denuncia o Brasil como um país submetido, podemos dizer assim, a um regime racista. O brasileiro não gosta disso, que venha alguém de fora dizer-lhe isso. O que aconteceu é que fui convidado para a Flip (Festival Literário de Paraty), em que tive a sorte de partilhar uma mesa com o Caetano Veloso, que tinha lido o livro, gostou muito e passou uma hora e meia a fazer grandes elogios ao livro, a declamar pedaços inteiros do livro. Quando acabou a sessão, fiquei conhecido em todo o Brasil, porque vão àquele festival jornalistas, escritores, editores, toda a gente que trabalha com o livro no Brasil. Sem o Caetano Veloso isso não teria acontecido. Mas esse não é sequer o meu livro mais vendido no Brasil. O que vendeu mais foi As Mulheres do Meu Pai, que chegou aos dez mil exemplares. Mas há livros, como O Vendedor de Passados, que têm tido edições sucessivas.

No seu caso pessoal, os brasileiros reclamam a sua obra como sendo brasileira?
Não.

E os portugueses reclamam a sua obra como sendo portuguesa?
 
Isso já aconteceu. Lembro-me de que o Vasco Graça Moura, num jantar em casa do Miguel Sousa Tavares, fez um grande elogio aos meus livros e dizia: "Mas você tem de se deixar disso de ser angolano, você é um autor português." Eu disse-lhe: "Sou angolano, não consigo ser outra coisa já, todos os meus livros são angolanos." A afirmação dele pode ser vista como um elogio.

Teve uma infância, adolescência e parte da juventude vividas no Huambo. Mas é curioso que isso não se projeta na sua obra...
Tem razão. Nunca usei muito diretamente a minha biografia. Mas no livro Sociedade dos Sonhadores Involuntários uma das personagens principais é do Huambo e muitas memórias dela da juventude no Huambo realmente são as minhas. Este livro tem muita coisa ligada ao Huambo.

Não li este livro.
Aliás, o livro tem dois narradores que são do Huambo, têm memórias do Huambo. É engraçado que ao Mia Couto fazem-lhe a mesma pergunta relativamente à Beira, porque ele é da Beira. Agora ele está a escrever um romance sobre a Beira, num momento em que aconteceu este desastre horrível, a Beira de que ele fala no livro não existe mais, desapareceu nas inundações.

Continua a ser jornalista?
 
Quando você é jornalista, continua a ser jornalista a vida inteira. Tenho saudades de exercer jornalismo. O melhor do jornalismo é descobrir pessoas. De uma certa maneira, o jornalismo ensinou-me a aproximar das pessoas, a descobrir histórias, porque sou uma pessoa tímida.

Torna-se jornalista a partir da literatura ou torna-se escritor a partir do jornalismo?
 
É uma boa pergunta. Acho que as duas coisas. Comecei a fazer jornalismo no jornal África, com o falecido João van Dunem, que era o meu chefe de redação, uma pessoa da qual tenho muitas saudades. Curiosamente, comecei a escrever sobre ambiente, porque eu era estudante de Silvicultura. E depois passei a escrever crítica literária. Só mais tarde comecei a fazer reportagens.

Qual é a leitura que tem do jornalismo que se vai fazendo em Angola?
 
O jornalismo em papel em quase todo o mundo decaiu muito. Regra geral, os jornais hoje têm menos qualidade. Nos EUA, de alguma forma, com estas coisas das notícias falsas e as novas tecnologias que ajudam a disseminar notícias falsas, uma parte do público retornou à imprensa escrita, que assegura uma certa credibilidade. No caso de Angola melhorou e isso tem que ver com as mudanças no regime. Temos em Angola jornalistas muito bons, mas também temos os muito maus, como em todo o lado. DN

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Pela primeira vez, há mais africanos a sair da pobreza extrema do que a entrar

O ritmo da redução da pobreza extrema é ainda muito lento. Um em cada três africanos vive abaixo da linha de pobreza.

O número de africanos que conseguiram sair da pobreza extrema ultrapassou em Março, pela primeira vez desde que foram definidos os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), o número de pessoas que entraram nesta situação.
De acordo com o World Data Lab, uma empresa de estatísticas que trabalha com a UNICEF, entre outras organizações, na compilação de dados e projecção de tendências demográficas, em Março deste ano o número de pessoas que saíram da situação de pobreza extrema por dia suplantou em 367 o número de pessoas que caíram nesta situação.
“O ritmo desta redução líquida da pobreza ainda é, hoje em dia, muito pequeno, apenas 367 pessoas por dia, mas no final deste ano a taxa pode aumentar para mais de três mil pessoas por dia, resultando numa redução de um milhão de pessoas que estão em situação de pobreza extrema em 2020”, lê-se num artigo publicado pelo norte-americano Brookings Institute e assinado por três peritos da World Data Lab.
“África é a última fronteira do mundo na luta contra a pobreza extrema; hoje, um em cada três africanos – 422 milhões de pessoas – vive abaixo da linha de pobreza e [os africanos] representam mais de 70% das pessoas mais pobres do mundo”, acrescenta-se no artigo de Kristofer Hamel, Baldwin Tong e Martin Hofer.
Se esta tendência continuar, em 2030 África vai ter conseguido reduzir o número de pessoas extremamente pobres em 45 milhões e a pobreza relativa vai cair dos 33,5%, hoje, para 24%, lê-se no texto, que dá conta de que, ainda assim, o continente não vai conseguir atingir os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável, erradicando a pobreza até 2030.
Hoje em dia, há aproximadamente 377 milhões de africanos que ainda vivem com menos de 1,90 dólares por dia, lê-se no artigo Pobreza em África está agora a cair – mas ainda não suficientemente depressa.
“Angola está a passar por um curto período em que a pobreza está a aumentar; isto começou em Setembro de 2017, mas as previsões do World Data Lab antecipam que em 2021 a pobreza extrema vai cair novamente e em 2030 a pobreza extrema estará nos 3,5%, o que significa que se esta tendência puder ser revertida mais cedo, então o país terá uma hipótese maior de cumprir os ODS 1”, conclui o artigo. Público

sexta-feira, 29 de março de 2019

Moçambique: Sociedade civil fora do debate para criação de um Fundo Soberano?

Um futuro Fundo Soberano em Moçambique deve incluir membros da sociedade civil e do setor privado para assegurar a independência de influências políticas, defende o Observatório do Meio Rural (OMR).

Em entrevista à DW África, João Mosca, diretor-executivo do Observatório do Meio Rural (OMR), uma organização não-governamental moçambicana, defende a participação da sociedade civil, juntamente com o setor privado, o banco central e o Governo, na gestão de um futuro Fundo Soberano em Moçambique para assegurar maior transparência e independência de influências políticas.

DW África: Como a sociedade civil moçambicana deverá participar na gestão desse futuro Fundo Soberano?

João Mosca (JM): Em Moçambique, são necessários mecanismos de checked and balanced [mecanismos de fiscalização], juntos das instituições de monitorização das instituições públicas e outras acerca da transparência na governação e também na constituição das próprias instituições. Neste caso, o Fundo Soberano poderá vir a ser uma nova instituição junto do Banco Central de Moçambique. É considerando a situação de não-transparência e de má-governação no que diz respeito a fundos, que a sociedade civil moçambicana, particularmente, o Observatório do Meio Rural, sugeriu que os órgãos sociais do Fundo Soberano sejam constituídos por uma variedade de agentes económicos, sociais e da sociedade civil, de forma a evitar, tanto quanto possível, essa possibilidade de acontecer situações de não-transparência em termos de má utilização dos recursos de todo país. Esse é basicamente o nosso ponto de partida para fundamentar a importância do Fundo Soberano ter nos seus órgãos sociais diferentes instituições representativas e de várias segmentações da sociedade.

DW ÁFRICA: Quais são as bases que norteiam a criação do Fundo Soberano em Moçambique?

JM: Por enquanto não existe nada de concreto. A primeira discussão foi feita na terça e naquarta-feira (26/27.03). A sociedade civil foi convidada, parcialmente, apenas para discussões técnicas e nós, o Observatório do Meio Rural e o Centro de Estudos Económicos e Sociais, recusamos esse convite, porque, primeiro, recebemos um convite para dois dias, depois disseram que era só para um dia para discussões técnicas. Recusamos essa mudança no convite. Portanto, não existem ainda coisas concretas. Já fizemos uma proposta na qual justificamos a possibilidade de criação de um Fundo, como poderia ser gerido, quais seriam as hipotéticas possibilidades de uso dos recursos que teriam peso na economia e sociedade moçambicana e permitir uma boa e transparente utilização dos recursos. Também alertamos para alguns riscos que poderão acontecer.

DW ÁFRICA: Quais são medidas que se deve tomar para evitar maus exemplos de outros países na gestão do Fundo Soberano? Há esse risco em Moçambique?

JM:  A Sociedade Civil está a lançar um debate público que começou esta semana. Não sei que dimensão este debate poderá vir a ter. O Centro de Integridade Público (CIP) também está envolvido e cidadãos individuais com conhecimento neste assunto. Para já, sentimos algum encerramento por parte do Banco de Moçambique para abertura do debate às organizações de solidariedade civil, daí termos sido convidados de uma forma restrita. Por outro lado, o Presidente da República, Filipe Nyusi, no seu discurso inaugural de workshops sobre o Fundo Soberano, manifestou a sua preocupação no que refere exatamente a esse ponto dos desvios de fundos e a sua gestão. Referiu-se a isso de uma forma absolutamente clara e direta. Naturalmente, sendo Moçambique e Angola países que têm situações e problemas semelhantes quanto a questões de transparência e de governação, partidarização das instituições etc., esse risco está também em Moçambique. Agora, é importante que antecipadamente os mecanismos de check and balance e de monitorização de diferentes organizações junto do fundo, e particularmente junto do Banco de Moçambique, sejam estruturados para que isso possa ser evitado o quanto antes possível.

DW ÁFRICAQuem está a impedir a participação da sociedade civil, Governo ou Banco de Moçambique?

JM: O Banco de Moçambique impôs está restrição. O Governo é da opinião que o debate seja alargado à sociedade civil. Inicialmente, não havia alguma previsão da participação da sociedade e foi através do ministro da Economia e Finanças que foram conseguidos os convites, embora restritos. Num posicionamento conhecido nesta quarta-feira (27.03.) sobre a matéria, assinada pelo seu diretor-executivo, o economista João Mosca, o Observatório do Meio Rural assinala que um fundo soberano alimentado por receitas dos recursos minerais, nomeadamente gás natural, deverá ser composto por elementos da sociedade civil, setor privado, banco central e Governo. As funções de gestão do fundo devem ser realizadas por entidades subcontratadas e independentes, deixou claro o Observatório do Meio Rural. O fundo deve prestar contas publicamente perante a sociedade, sujeitar-se a um controlo democrático e responder a questões colocadas por instituições públicas, privadas, sociedade civil e pessoas singulares. DW

Ungulani Ba Ka Khosa: “Acho que teremos de ter uma nova Beira, noutro sítio”

Se tivesse que escrever um livro sobre o que o Idai fez a Moçambique, talvez lhe chamasse "Se Deus existe estaria distraído". O escritor diz que esta é a oportunidade para os políticos porem os pés no chão e verem a pobreza do campo e a pobreza urbana. "Quarenta e tal anos depois da independência o que somos? 

O que queremos ser?" Ungulani Ba Ka Khosa é uma referência literária de Moçambique e de África. O seu Ualalapi foi escolhido em 2016 como um dos cem melhores romances da literatura africana do século XX. Em viagem de Maputo para Lisboa, a convite da organização do Travessia de Letras, encontro sobre literatura infanto-juvenil no espaço dos países de língua portuguesa, que se realiza este fim-de-semana em Oeiras, falou ao PÚBLICO, no avião, sobre os efeitos do ciclone Idai e a tragédia que assolou o centro de Moçambique, e em particular a cidade da Beira.

Só faltava um ciclone para acentuar ainda mais as desgraças de Moçambique? 

Não só para acentuar, mas, acima de tudo, para mostrar a todos nós aquilo de que já tínhamos a noção, a da existência de grandes desigualdades, pobreza extrema. Este ciclone creio que foi um grande sinal para vermos que, passados 40 e tal anos da independência, chegou a altura de olharmos para nós porque isto não pode continuar assim. Tudo o que pôde ver no terreno in loco tocou-nos a todos, não deixou ninguém indiferente. É um acontecimento que vai marcar para todo o sempre: terá que haver um Moçambique antes e um Moçambique depois do ciclone.

O Governo e os políticos moçambicanos em geral saberão tirar as ilações desta tragédia? 

É a grande oportunidade para aquilo que a gente chama de sociedade civil começar a vir ao de cima e tomar consciência do que está a acontecer. Gradualmente, os políticos têm de colocar os pés no chão e verem, realmente, não só a pobreza do campo, como a pobreza urbana, naquela faixa a que o Luandino chamava entre o asfalto e a areia, onde as diferenças estão a tornar-se cada vez mais aguçadas. E isso toca-nos a todos. Podia escrever qualquer coisa…

Se fosse escrever um livro ou um conto sobre o que aconteceu na Beira e no centro do país como é que começaria? 

Não sei, mas talvez o título fosse “Se Deus existe estaria distraído”. Mas, para lhe ser sincero, a realidade ultrapassa toda a imaginação.

O que pensou ao ver as imagens de destruição na Beira? 

Fiquei totalmente desolado. Quarenta e tal anos depois da independência o que somos? O que queremos ser? Foram as questões que me vieram logo à cabeça.

 O Governo de Moçambique tem capacidade para lidar com uma catástrofe desta dimensão? 

Esse lado pragmático que assistimos nos últimos tempos, está a levar a que este Governo ponha os pés no chão e eu acredito, naquela nossa maneira moçambicana, que há um quê de esperança de que este Governo possa dar passos positivos nesse sentido.

E a Beira, tem capacidade para recuperar de uma tragédia desta dimensão? 

Acho que teremos de ter uma nova Beira, noutro sítio. Tendo em conta a situação geográfica da Beira, o facto de estar abaixo do nível das águas do mar, face a estas mudanças climáticas que tornarão cíclicos estes fenómenos climáticos, é altura de o Governo programar uma cidade noutros quadrantes, depois do Dondo ou noutro lugar.

A cidade da Beira devia mudar de sítio? 

Acho que sim, acho que a Beira devia mudar, não há capacidade técnica daquela cidade poder aguentar-se com estas mudanças climáticas a que estamos a assistir no mundo.

José Eduardo Agualusa causou polémica ao dizer que esta ajuda humanitária estrangeira que está a chegar dos Estados Unidos, da Europa, não era na verdade ajuda humanitária, mas indemnizações devidas a Moçambique por essas regiões contribuírem para as alterações climáticas que provocam estes fenómenos naturais extremos. Está de acordo?

Não entro muito nesse nível. Perante uma catástrofe humana, todos nós somos chamados a ir ao encontro do nosso íntimo. Sobre todo esse outro nível especulativo estou um pouco fora, estou mais ao nível humano. Acho que toda essa ajuda, toda essa entrega, de todos os quadrantes – o empenho das pessoas – é um reflexo, não só para Moçambique, mas para todo o mundo. Independentemente de encontrarmos culpados, a criação do mundo foi uma criação humana e eu distancio-me dessas especulações teóricas.

Muita gente na Beira, estrangeiros, moçambicanos de fora e beirenses disseram que esta ajuda humanitária não vai chegar a quem precisa, que acabaria a encher os bolsos de alguém, a ser vendida nos mercados. Não é triste para Moçambique que na cabeça das pessoas esteja sempre essa possibilidade? 

Essa presunção existe face a fenómenos recentes que assistimos de desvio de fundos públicos, de utilização de instituições públicas para fins pessoais. Há um certo cepticismo. Mas acredito que, perante esta situação catastrófica nunca vista, o ser humano tem uma parte de si capaz de se impor ao lado negativo e penso que podemos assistir a uma pequena reviravolta. É por isso que eu digo que há um Moçambique antes do ciclone e tem de haver um Moçambique depois do ciclone.

O caso do ex-ministro das Finanças moçambicano, Manuel Chang (detido na África do Sul a pedido dos EUA e a aguardar o fim do processo de extradição), e da dívida pública escondida prejudicou muito a imagem externa de Moçambique? 

Quando se vai lá fora e dizemos que somos de Moçambique, há toda uma imagem negativa que se tem do país, apesar de a corrupção ser uma coisa generalizada, em todos os quadrantes e em todas as latitudes. Mas a morosidade do poder judicial em resolver as questões e termos de assistir ao poder judicial americano a ir à frente e depois irmos atrás, tudo isso levanta esse tipo de suspeição. Mas depois das águas se acalmarem, vamos poder ver que tipo de reflexão o poder público, o poder privado e a sociedade civil irão fazer. Vamos pensar o que queremos para Moçambique.

Faço-lhe a pergunta de forma directa: Moçambique é um país de corruptos? 

Não acredito nisso, Moçambique, como qualquer outro país, tem muita corrupção, a permissividade para que os corruptos possam passear tranquilamente pelas artérias é que desgasta as pessoas. Mas, a partir deste momento, e com essas tentativas ainda meio ténues do poder judicial, todos vamos acordar para a ideia de que já tocámos o fundo, mais do que isto é impossível.

Este ano é ano de eleições, considera que a Frelimo irá aproveitar toda esta coordenação da ajuda humanitária para tirar dividendos políticos? 

As pessoas sabem muito bem onde colocar o seu voto, por mais malabarismos políticos que possam existir. Mesmo no Moçambique profundo, nota-se que já há uma consciência, são 40 e tal e anos de independência, 40 e tal anos de várias experiências. Hoje até uma criança de dez ou 12 anos já se aventura a fazer análises políticas, o que significa que os políticos terão de se acautelar. A partir de agora vamos ver que Moçambique iremos ter. Público