Depois de muito tempo ausente neste espaço, hoje decidi regressar. Algo tocou no fundo do meu coração. Li na comunicação social que os médicos ameaçam paralisar as suas actividades, exigindo aumento salarial, disponibilização de casas para o pessoal que trabalha nos distritos (que é um direito), entre outras regalias.
Concordo plenamente que o salário dos médicos foi sendo corroído pela inflação, que obrigou os comerciantes a agravarem os preços dos principais produtos e bens de consumo.
Na minha modéstia opinião, os médicos exageram nalgumas coisas. Estamos em Moçambique, um país do Terceiro Mundo, com um rácio de cerca de 30 mil habitantes/médico.
Como é sabido, nas zonas rurais, até mesmo nos centros urbanos, quem assegura os serviços básicos são os enfermeiros de nível básico e médio (aqui em pequeno número), quer para o Serviço Materno Infantil, quer para os serviços gerais.
Os enfermeiros são a testa de ferro, lidam diariamente com o maior número de doentes e estão proibidos de atender pacientes em datas específicas e trabalham oito horas por dia. O médico fica pouco tempo numa unidade sanitária e todo o resto do trabalho do dia fica na conta dos enfermeiros.
Aceito que reivindiquem o salário e todas as exigências prescritas no caderno reivindicativo, mas nunca ameaçar paralisar as suas actividades, pois muitos pacientes não conhecem sequer a voz de um médico.
Creio que deviam preocupar-se primeiro em trabalhar mais, estarem perto dos pacientes e terem amor com estes, negociando a melhoria das condições e nunca ameaçar paralisar.
A título ilustrativo, um enfermeiro atende em média 200 pacientes por dia, enquanto o médico recebe dez, alguns dos quais sem atendimento imediato. Sãos obrigados a regressar ao hospital três meses depois, para serem atendidos pelo senhor doutor. O médico adia o atendimento, mas não se adia a doença. Encuba por um longo período e, nalgumas vezes, os pacientes perdem a “paciência” e despedem-se do mundo dos vivos antes de serem recebidos pelo médico.
Regra geral, em todo o país os enfermeiros trabalham sem médico, salvo nas sedes distritais, cidades e alguns postos administrativos que, de quando em vez, têm sido visitados pelos médicos. Quem assegura o atendimento aos doentes são os enfermeiros, que têm como vencimento mínimo pouco mais de três mil meticais.
Segundo informações sopradas por um médico amigo, o vencimento mínimo para a classe médica é de 27 mil meticais, sem contar com os subsídios de que tem direito. Mas há casos em que o salário vai até mais de 35 mil meticais.
O enfermeiro de nível médio tem como salário mínimo seis mil meticais. Como se pode depreender, a classe da enfermagem é que fica mais tempo com o doente e atende mais que o médico. Até ninguém se atreve a mandar voltar o doente para o dia seguinte, mesmo sabendo que a sua capacidade de atendimento vai se esgotando, prefere continuar a trabalhar, mas nem pensa em reivindicar.
Os enfermeiros que trabalham em turnos, quando fazem a noite, muitas vezes são obrigados a participar em reuniões matinais, nas chamadas ocorrências, encontros dirigidos por médicos que estão a entrar, precisamente na altura da reunião.
Cada enfermeiro regista tudo o que fez durante a noite – sozinho, com a ajuda do servente – com o médico em casa a repousar. Conta o material usado e anota, mas é obrigado a ler e a receber críticas daqueles que estão a chegar, que nem sequer viram as dificuldades por que passou a equipa de serviço. Trabalhar de noite é muito difícil. Os médicos deviam saber isso.
Muitos médicos não sabem o que é trabalhar à noite, mas fazem de tudo para espremer a informação fornecida pelos enfermeiros em serviço nos turnos da noite. Porque é que os médicos também não trabalham à noite?
O médico pode ter uma morte sob a sua observação, sai incólume. Mas se a mesma morte acontecer nas mãos de um enfermeiro, é porque foi negligente, não evacuou para o hospital de referência, melhor equipado do que uma simples unidade hospitalar.
Há muitos enfermeiros expulsos, alguns detidos, quando se registam mortes, quer na maternidade, quer nos serviços gerais.
Humanamente falando, aceito que o Estado crie condições de alojamento, não somente para os médicos colocados nos distritos, mas para todo o pessoal que lá for colocado.
Humanamente falando, aceito que o Estado melhore as condições de vida para todo o pessoal de saúde, sobretudo para os enfermeiros, que até nem conseguem aumentar os seus estudos, para melhorar o seu nível salarial.
Mas estou contra a greve dos médicos, pois o facto de marcarem dias de atendimento aos pacientes, provoca a morte de muita gente, antes de serem vistos.
O Estado devia pensar seriamente no enfermeiro. Aliás porquê não dar formação superior aos enfermeiros, cursando a enfermagem, sem restrições?
Estamos juntos! Diário de Moçambique
o senhor devia se informar melhor antes de ousar escrever tamanha mentira q so revela a sua ignorancia, faz-me pensar q o sr vive fora da realidade deste pais, tanto os medicos como os enfermeiros achariam um absurdo o q escreveu! Prepare-se melhor antes de querer se armar em cronista, q nem de 5a categoria deve ser !!
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