quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A infidelidade da Renamo

SR. DIRECTOR

Grato por mandar publicar esta missiva na página dedicada aos leitores, neste vosso prestigiado jornal. A 4 de Outubro de 1992, na cidade de Roma, o Governo e a Renamo assinaram um acordo que colocou fim a uma guerra macabra, que deixou neste país milhares e milhares de órfãos, mutilados e deslocados. Aquela guerra, que durou 16 anos, destruiu o que o colonialismo construiu em quinhentos anos, interrompeu a vida de muitos moçambicanos que hoje em dia estariam a dar o melhor de si para o desenvolvimento deste país. Quem se esqueceu do músico e cantor Armando Mabjaia?
daquela rebeldia, tal como a Renamo sempre defendeu e defende até hoje, estava a necessidade de se abrir o país para um sistema multipartidário, de sufrágio universal, ou seja, adoptar e adaptar-se um sistema democrático para governação baseado no sufrágio universal, estabelecer-se um estado de direito, convivência política com ideias antagónicas, um Estado com liberdade de expressão, entre outros.
Paradoxalmente, vinte anos depois de Roma, altura em que tal entendimento passou a fazer parte do destino dos moçambicanos, em que as armas deixaram de semear pânico e terror movidos por moçambicanos contra moçambicanos, ainda há gente que pensa em recorrer à força das armas para impor a vontade de um grupo de indivíduos. O incrível disto tudo é que estes senhores que semeiam medo e pânico, com discursos inflamatórios, dizem-se obreiros da democracia, mas que no seio deles não existe.
Mesmo que as exigências levantadas pela Renamo possam, eventualmente, ser legítimas, não é, porém, legítimo querer submeter ao seu jugo os mais de 20 milhões de moçambicanos, em nome da democracia.
Alguns pseudodemocratas e pseudopolíticos que pululam nas fileiras da Renamo estão a criar pânico aos moçambicanos, estão a traumatizar o povo que viveu a carnificina, a perda dos seus ente queridos, pela espada, pela bazuca, pela baioneta, pelo pilão nas mãos destes senhores que hoje andam de gravatas e carros de luxo pelas artérias das nossas cidades.
Se alguma vez o povo moçambicano cometeu um erro, foi ter perdoado o Sr. Dhlakama, foi por tê-lo deixado desembarcar no Aeroporto de Maputo, feito um atleta que tinha ganhado “troféus” em nome de Moçambique. Em nome da reconciliação nacional, liderada pelo então e sempre Presidente Chissano, os moçambicanos foram obrigados a “engolir” as mágoas, foram obrigados a comer os seus ressentimentos, foram obrigados a fingir não ter sentido a dor pela perda de um ente querido, e o assassino sentado num dos castelos de Maputo, com todas as mordomias e luxo, em nome da democracia.
Se a Renamo ganhou o espaço que tem e o desperdiça na Assembleia da República, qual é o outro espaço de que precisa para discutir as suas ideias e esboçar um plano alternativo de governação deste país? O que me intriga em tudo isso é ver pessoas de tão respeito e cheios de intelectualidade como o Sr. Eduardo Namburete e alguns a serem levadas a resvalar no precipício da incúria, no precipício da inconstância, no precipício de promessas e não promessas.
Intriga-me também o facto de estes senhores da Renamo dizerem estar a falar em nome do povo moçambicano, o mesmo povo que ameaçam com manifestações sem sentido, o mesmo povo que dizem querer governar. Quem disse que a Renamo representa os moçambicanos? Este grupo representa, sim, os seus interesses, as suas ambições e tudo de maquiavélico para viver à custa do sangue dos moçambicanos. Não podem continuar a abusar dos moçambicanos, porque os moçambicanos são de Moçambique e não da RENAMO, muito menos de Dhlakama ou de quem quer que seja. Devem livrar-nos de suas ideias lorpas, princípios enfadonhos duma revolução sem nexo. Livrem-nos das vossas orgias, de devassidões e deixem-nos seguir. Discutam vossas ideias na Assembleia da República enquanto esperam pela vossa vez para governar, se é que vão a tempo.
A democracia moçambicana tem suas características especiais, mas não foge dos princípios globais dos quais se modela. Esta democracia não é única. Esta democracia não é produto de invenção de Dhlakama e seus sequazes. Esta democracia é produto de um sistema global de convivência do homem com ideias diferentes. Afinal, somos todos filhos de Deus!
A democracia significa estar na fila à espera da sua vez. A democracia implica costurar ideias alternativas a um sistema ao qual se opõe. A democracia significa deixar que o outro pense da sua maneira sem o coagir a pensar tal como nós pensamos. A democracia, senhor Dhlakama e seus discípulos, escutem, significa trabalho, mobilização, projecto político sério, produto de ideias colectivas. Nunca a democracia significou derrubou o sistema democraticamente estabelecido.
O estágio actual de desenvolvimento sociopolítico de Moçambique pode ter suas falhas, pode ter aspectos negativos com os quais os senhores não comungam, mas não é ameaçando com armas que se vai fazer mudar do paradigma. Esbocem vocês o vosso paradigma e apresentem-no com clareza aos moçambicanos, só assim serão alternativa política.
Não sei o que seria doutras democracias se houvesse processos paralelos aos legais para forçar uma ideia, seja ela legítima ou não. Mesmos os americanos, os indianos, os israelitas, todos esperam pela sua vez para governar. Nunca e nunca usam a força. Notícias

  • Eliseu Chiandela

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