Cidadãos residentes na cidade da Beira e que estiveram no comício orientado pelo governador de Sofala, que marcou o término da visita de dois dias de Félix Paulo à urbe, aproveitaram a ocasião para apresentar várias queixas, que vão desde alegada discriminação no acesso ao Fundo de Alívio à Pobreza Urbana, vulgo “sete milhões”, usurpação de terras usadas para a prática de agricultura de subsistência e outras.
Rui Oliveira, residente em Vila Massane, foi ao pódio e começou por dizer que era camponês mas que neste momento não tem nenhuma machamba. “Passaram duas guerras, a de Libertação Nacional contra o colonialismo e a de 16 anos movida pela Renamo, mas hoje não tenho terra para cultivar e o pior é que não tenho nenhuma profissão. Quando fui à guerra foi para libertar Moçambique. Quando sai, pensava que continuaria a ser camponês. Tinha minhas machambas na Vila Massane e sei de outras pessoas que também querem ser camponesas, mas hoje verificamos que os terrenos estão sendo arrancados”, denunciou.
Continuando, indicou não saber escrever e não ter nenhuma profissão, perguntando onde e como iria conseguir sustento para si e sua família. Por isso, “estou a pedir ao Governo da província de Sofala para me ajudar a encontrar outro lugar para poder ter machamba. As pessoas que nos arrancam as machambas dão-nos somente três mil meticais e para nos darem esse dinheiro é uma guerra grande. Quando procuro saber ou exigir justiça, não me dão uma resposta clara”.
“Então, saio daqui para a Munhava e vejo que os maiores valores são dados àqueles que pertencem a um partido que não quero dizer aqui (alusão ao MDM). Levam esse dinheiro que nos deviam dar como indemnização e vão usar para fazer as suas campanhas. Fazem os seus congressos e nós onde é que vamos encontrar forma de nos alimentarmos? Neste momento em que falamos estão a festejar (alusão ao congresso do MDM que encerrou no dia do comício). Por isso, eu peço ao senhor governador que intervenha na resolução deste problema que nos aflige”, acrescentou.
“Outra questão que me preocupa é que eu sou membro da Cooperativa de Camponeses de Vila Massane. Pedimos que nos ajude, senhor governador, na atribuição de terrenos na zona da Póvoa, porque eu sou combatente e não tenho lugar para viver. Pedimos que nos ajude na atribuição dos terrenos para que possamos construir nossas casas lá”, disse ainda Rui Oliveira.
Luís Afonso, residente no 17º bairro (Mungassa), fez-se ao pódio para colocar preocupações dos habitantes daquela zona. Começou por referir que no mês de Outubro de 2012 apareceu na área onde vive um grupo de pessoas que foi fazer um levantamento das casas, mas sem dar nenhuma explicação. “No dia seguinte vieram outras pessoas para efectuar medições nas residências e contagem das árvores de fruta. Tudo isso sem que houvesse uma explicação plausível à população. Os residentes formaram uma comissão para ir pedir uma explicação ao secretário do bairro”, explicou.
Continuando a sua explanação, Afonso avançou que “passados alguns dias o secretário convocou a população para ir ter com o chefe do posto. Este, por sua vez, apresentou uma planta de ocupação da área, tida como zona industrial. A população disse que não se recusava a sair, mas queria que houvesse um esclarecimento. O secretário do bairro prontificou-se em contactar o vereador da área no Conselho Municipal da Beira para depois trazer uma resposta. O chefe do posto solicitou nova informação e o secretário do bairro acabou dizendo que a população deveria ir ao posto administrativo porque ele não era capaz de dar uma informação adequada em relação ao assunto”.
Luís Afonso acrescentou que “naquele momento recebemos a informação de que o presidente do Conselho Municipal estava na zona em visita. Indicamos três pessoas para irem falar com ele e colocar a nossa preocupação. Ele (Daviz Simango) disse que não havia problema e que continuássemos a ficar nas nossas casas em Mungassa. Mas havia uma informação para que aqueles que estavam a construir que parassem de fazê-lo. Os residentes pedem ao senhor governador que interceda junto do município para resolver este problema uma vez que a posição da edilidade suscita dúvidas, pois é facto que os seus talhões foram usurpados sem que houvesse uma clareza sobre as possibilidades de justa indemnização e quanto ao lugar de reassentamento”, explicou.
Segundo Afonso, a população de Mungassa não se recusa a sair da zona para dar lugar a projectos que ajudam no desenvolvimento da cidade da Beira, “mas queremos transparência e, sobretudo, indemnizações justas porque há muitos anos que vivemos na zona e temos nossos bens que conseguimos a muito custo”.
Falou igualmente uma senhora que se identificou apenas como Madalena. Disse ser natural do distrito do Búzi, donde saiu há muito tempo e vive agora no bairro da Munhava. “Tenho uma questão que me preocupa”, começou por dizer, para explicar em seguida que “o meu marido morreu e deixou-me numa casa alugada. Eu tinha a minha machamba, onde fazia alguma coisa. A casa de aluguer desabou e o dono me disse para sair porque quer construir uma nova. Eu não tenho outro lugar para ir e nem condições de erguer uma casa porque sou viúva e nem tenho filhos”, disse.
Acrescentou que foi apresentar o problema às estruturas competentes mas não teve resultado satisfatório. “Até fui ameaçada de agressão! Que vou fazer? Por isso, peço ajuda do Governo”, implorou.
Por fim, subiu ao pódio Fernando Amade Xitende, jovem residente na Munhava. A sua intervenção baseou-se no acesso no Fundo de Alívio à Pobreza Urbana, vulgo “sete milhões”. Ele disse que “nós soubemos que o Governo central deu sete milhões, mas a cidade da Beira teve o privilégio de receber 14 milhões. Eu pergunto: quem é que de vós (jovens presentes no comício) já teve oportunidade de beneficiar desse dinheiro? Onde é que está esse dinheiro? Se nós somos jovens será que esse dinheiro só veio apenas para aquele que está lá? Nós sabemos que o dinheiro está no município. Será que o montante só tem a cor do cocorico?”.
Ao finalizar a sua intervenção, Xitende pediu ao governador Félix Paulo para intervir neste assunto, “porque nós também somos jovens carenciados desta cidade e precisamos do dinheiro para fazer avançar os nossos projectos”. Diário de Moçambique
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