quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Não à exclusão da mulher na violência doméstica

SR. DIRECTOR!

Permita-me agradecer a oportunidade que me foi concedida para a publicação deste artigo no Jornal que V. Excia dirige. Quero através deste partilhar com os meus compatriotas as minhas humildes reflexões acerca deste fenómeno que a todos preocupa: A violência doméstica. Preocupa-me pessoalmente, a forma como tentamos, a vários níveis, tratar desta realidade que é, sem dúvida, transtornante para todos nós.

Dependendo da perspectiva em que nos baseamos para a resolução de um problema, é provável que, na mesma altura que procuramos uma solução estejamos a criar um outro problema, sem nos apercebermos.
As publicidades sobre a violência doméstica que passam nos diferentes canais televisivos são de facto necessárias e podem desempenhar algum papel na criação de uma “consciência masculina” para o combate da violência doméstica contra as “mulheres”. Devo dar parabéns a iniciativa que, de certeza, já deve estar a surtir algum efeito pelo menos nos homens que assistem com alguma regularidade a televisão. No entanto, ainda que a iniciativa seja louvável, julgo que precisa ser um pouco mais repensada, pois, no meu entender, não basta que se trabalhe a consciência masculina sem que nada seja feito, para que se crie uma consciência feminina sobre o fenómeno. De modo mais simples, percebo que todas as publicidades contra a violência doméstica colocam o homem como a causa única da violência e a mulher a única vítima da mesma.
Dito por outras palavras, as publicidades contra a violência colocam a mulher fora do problema (como uma criança indefesa), como se ela não tivesse nada a fazer para evitar cenários que possam levar à violência. Reparem que numa das publicidades diz-se: “eu respeito a minha mulher”; “use o carinho para conquistar amor de uma mulher’. Concordo completamente que devemos respeitar as nossas mulheres e sermos bastante carinhosos. Resta questionar se o único que tem falta de respeito e carinho para com o outro é apenas o homem? Será que toda a mulher tem o respeito e o carinho como suas etiquetas? O carinho e o respeito numa relação conjugal deve ser recíproco, mas, sobretudo, deve ser uma conquista resultante de um exercício diário de respeito e carinho para com o outro.
No meu entender, as publicidades não trazem as causas reais do problema da violência e desse modo, desperdiçam uma excelente oportunidade de utilizá-las para a educação de todos (homem e mulher) no combate à violência doméstica. Se prestarem atenção nessas publicidades observarão que não é possível identificar a figura da mulher como parte do problema: Quantas situações de violência poderiam ser evitadas se as mulheres percebessem que elas jogam um papel fundamental na erradicação desse mal? Será que ainda não nos apercebemos que a violência física pode ser precedida por outros tipos de violência (como a verbal, moral, psicológica, etc. se assim se pode classificar)?
Porquê as publicidades sobre a violência não retratam os possíveis cenários que podem levar à violência física? Se assim fosse, creio que essas publicidades estariam revestidas de um carácter didáctico, educativo tanto para o homem como para a mulher. Até quando continuarão as publicidades encurraladas nas consequências da violência?
Na minha humilde opinião, julgo que as publicidades seriam mais úteis no contexto da educação do cidadão na luta contra a violência, se elas procurassem retratar os cenários que podem levar à violência e como contorná-los com vista a uma convivência harmoniosa.
Não enganemos as mulheres fazendo-lhes acreditar que elas são santas e os homens os únicos diabos. Estas duas posições são ciclicamente assumidas. Não enganemos as mulheres fazendo-lhes crer que elas são correctíssimas e que, em nenhum momento, não incitam através de uso de palavras menos aconselháveis à violência. Não pretendo dizer que palavras mal pronunciadas devem ser retribuídas com actos de violência física. Não há razão nenhuma que justifica a violência, seja de que tipo for, eu acho. Porém, não podemos tapar o sol com a peneira tentando negar uma realidade comum e muito bem conhecida.
As mulheres podem, sem dúvida, fazer alguma coisa, que não seja apenas denunciar, para acabar com a violência. Elas podem se constituir numa força que controla e gere o risco da violência. Não pretendo inocentar os homens de suas acções “belicistas”. Contudo, é importante que se analise o problema de violência de todos os ângulos possíveis, sem conotação de predatismo, no qual o homem é o predador e a mulher a presa. Se a relação conjugal é feita entre o homem e a mulher, há que considerar que cada um deles tem seus problemas, seus limites, suas virtudes, seus defeitos, que mesmo sem justificar actos de violência podem concorrer para que tais actos se verifiquem.
Prezados leitores. Permitam-me dizer que as marchas contra a violência são muito bem vindas e estão de parabéns os seus promotores, Todavia, de nada adiantará se tais marchas forem dicotómicas: Marcha de homens contra a violência e marcha de mulheres contra a violência. Seria mais significativo e visceral se homens e mulheres se juntassem numa única marcha, de mãos dadas, reconhecendo que ambos precisam de uma reflexão diária profunda sobre o respeito que um deve ter em relação ao outro.
Não se ultrapassam barreiras conjugais competindo, mas sim cooperando. A introspecção crítica sobre as atitudes e comportamentos de cada parceiro é uma necessidade constante, para que tanto o homem como a mulher possam juntos gerir o risco da violência (verbal, psicológica, física, etc.), identificando as situações e razões que lhes predispõem à actos de violência, de modo a contorná-las.
Que as publicidades ensinem ao homem e a mulher a gerirem o risco de violência.
Mais não disse. Notícias
 
  • André Machava Manhiça

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