Mas, na medida em que foi vendo os seus colegas, comprometidos com a causa do povo, serem mortos, movido por sua fé no Deus da vida, assumiu também a mesma causa, lutando ao lado dos fracos, pobres e marginalizados.
A partir daí, os grupos que apoiavam o sistema de morte começaram a vê-lo como inimigo e puseram-se a perseguí-lo, vindo a assassiná-lo no dia 24 de Março de 1981.
Dom Oscar Romero estava convicto de que morreria, mas acreditava que iria ressuscitar naqueles homens e naquelas pessoas que continuariam a luta para que o povo tivesse vida.
Carlos Cardoso teve uma história semelhante. Ele presenciou e vivenciou a injustiça praticada pela elite dirigente e as consequências dessa situação na vida do povo. Era sensível à causa dos pobres e exigia que a justiça fosse feita dentro do país, que, um dia, uma sociedade mais humana e mais fraterna havia de ser estabelecida.
O seu livro “Directo ao Assunto” é uma poesia profética porque “responde a uma vocação que é de levar o povo a tomar consciência da sua realidade e lutar para invertê-la para um futuro melhor”.
É um poeta da consciência profética porque lutou para que a vida do povo fosse organizada, novamente, de acordo com os princípios humanos. Não foi um pregador teórico, mas denunciou claramente as injustiças, apontava as causas e as respectivas soluções.
Não teve medo de dizer o que estava errado na organização do país, tanto por parte das pessoas responsáveis como por parte das instituições, e até, do próprio povo moçambicano. Foi a este nível de luta pela justiça, que se travou o confronto entre a elite dominante e o poeta-profeta, ao ponto de ser brutalmente assassinado pelos detentores do poder. Este caso, que ainda continua impune, pois os mandatários do crime e os executores ainda estão entre nós, silenciando todo aquele que ousa falar ou criticar o sistema pelo qual o país está a enveredar.
Só uma pessoa de consciência certa como Carlos Cardoso, é capaz de assumir a responsabilidade dos actos praticados, pois, se o Homem comete o mal, o justo juízo da consciência pode ser, ao mesmo tempo, nele a testemunha da verdade universal do bem e, da maldade da sua opção individual.
A injustiça básica é a consciência roubada aos pobres. A eles, foi-lhes imposta uma consciência de inferioridade. O sistema injusto dos nossos governantes fez do pobre um ser inferior, um preguiçoso que não merecia vida melhor do que aquela que tinha, de facto. Assim, o rico podia continuar tranquilo na posse da sua riqueza, sem ser incomodado pelo grito do pobre, pois este era ele mesmo o único culpado da sua pobreza.
Enquanto perdurasse no pobre esta falsa consciência, qualquer trabalho de mudança, tanto na linha da justiça como na da solidariedade, não passaria de uma ilusão. O rico pode devolver o dinheiro que roubou, mas jamais poderá devolver a consciência roubada. Porque roubando-a, se desumanizou e perdeu a consciência.
É aqui que aparece bem clara a importância do nosso poeta-profeta. Ele não só denunciou as injustiças e os erros, incentivando o povo à solidariedade, mas também, e sobretudo, anunciou a certeza central da fé: “Deus está no nosso meio! Ele ouve nosso grito”.
Desta feita, Carlos Cardoso contribuiu para que aparecesse no povo uma nova consciência, que já não dependia da elite dominadora, mas que nascia directamente da vida.
E, mediante isto, Carlos Cardoso foi um homem decidido, claro em suas posições. Com uma consciência pronta e recta enfrentou os poderosos sem jamais se deixar abater. Um poeta que apontou as mudanças sociais mais radicais, que deviam acontecer no nosso país. Foi extremamente duro com os grupos dominantes, injustos.
Um poeta-profeta – segundo o ensaista – cheio de sensibilidade, breve e preciso nos seus escritos: linguagem directa com imagens simples que tocavam o âmago da questão e atingia profundamente o destinatário. Em forma de poesia Carlos Cardoso reflectiu a dura experiência do nosso país. Apaixonado pelo seu povo, buscando sempre o bem comum, dirigiu-se aos governantes, primeiro como responsáveis pela justiça no país.
Quanto mais espectáculos forem promovidos para matar os profetas deste país, mais gente de consciência profética surgirá, pois Carlos Cardoso ressuscitará naqueles que continuarão a lutar pelo bem comum, pelo conjunto de condições que permitem aos grupos, e a cada um de seus membros, alcançar mais plena e facilmente a perfeição.
Parabéns Cremildo Bahule pela obra – em forma de ensaio – aqui apresentada, pois suscita, nos intelectuais e no povo moçambicano, a audácia de lutarem pela justiça, para que se reconstrua um país mais humano e mais fraterno; para que a pessoa humana seja respeitada e dignificada independentemente da sua condição sócio-política, económico-religiosa, ou partidária.
Digamos pois, com Carlos Cardoso: “no ofício da verdade é proibido pôr algemas nas palavras”. Notícias
- PADRE ALBERTO MAQUIAS
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