Beatriz Ziquele, cuja idade desconhece, cega, mas com a audição muito apurada, é um dos exemplos vivos deste fenómeno. Encontrámo-la, semana passada, no Lar Nossa Senhora dos Desamparados, no bairro da Maxaquene, em Maputo. Apercebendo-se da nossa presença no local e sem hesitar contou-nos o sacrifício que fez para cuidar dos seus dois filhos até se tornarem adultos.
Com os filhos crescidos, a sua esperança de ter suporte social virou um pesadelo, pois contra a sua expectativa os filhos viraram-lhe as costas. Foi vítima de sistemáticas agressões físicas e psicológicas, com o intuito único de se apropriarem da sua casa.
“Ia à machamba, plantava milho e outras culturas para sustentar a minha família. Cuidei dos meus filhos com amor e carinho. Conseguia dar-lhes o básico para se alimentarem e irem à escola. Crescidos, os meus dois filhos decidiram ir à vizinha África do Sul trabalhar. Sempre que viessem a Moçambique batiam-me e expulsavam-me da minha própria casa”, disse Beatriz, acrescentando que, por resistir a satisfazer a sua vontade, os filhos optaram por não lhe prestar assistência.
Beatriz foi salva pelas irmãs da igreja que, ao vê-la sofrer sem ninguém para ajudá-la, optaram por levá-la ao lar dos idosos.
“Quando perdi a vista fiquei impossibilitada de ir tirar água e cultivar. Pedi aos meus filhos para que me arranjassem alguém para, pelo menos, fornecer-me água para beber. Nada disso fizeram. Abandonaram-me deixando-me sozinha sem nenhum recurso para a minha sobrevivência”, refere Beatriz.
Desde que esta idosa foi acolhida no lar dos idosos, há três anos, nenhum familiar dela lhe visitou, muito menos os filhos. Essa é a maior dor de Beatriz.
“Não sei o que fizeram com a minha casa. Era pequena (quatro e sala), mas construí com tanto sacrifício. Desde que estou aqui não recebi visita de familiares. O que mais me indigna é ser rejeitada pelos meus filhos. O meu maior desejo é voltar a pisar a minha casa antes de morrer”, observa a nossa fonte.
Vinte idosos assassinados
As idosas são obrigadas a viver em centros de apoio à velhice. No país existem 49 centros de apoio à pessoa idosa, entre abertos, fechados, públicos e privados. No Lar Nossa Senhora dos Desamparados estão acomodados 92 idosos, entre homens e mulheres.
“Alguns chegam confusos e com medo. A maioria não está aqui por vontade própria. Mas, passado algum tempo, conseguem superar a dor de serem rejeitados pela família e sentem-se bem. É o caso de um senhor de 65 anos que padece de trombose (formação de coágulos sanguíneos no interior dos vasos sanguíneos). A mulher e os filhos deixaram-no aqui. O homem está inconformado. É muito triste vê-lo a sofrer tanto assim”, refere Margarida Costa, voluntária que presta assistência psicológica a idosos naquele lar.
A maioria das pessoas da terceira idade que sofre violência doméstica é viúva ou solteira, pobre e sem nenhuma possibilidade de defesa, sobretudo devido à sua condição física debilitada, aliada ao desconhecimento dos seus direitos.
Reina a imoralidade
Para Fernandes a sociedade está a perder os valores morais e os idosos são violados psicológica e fisicamente sem que os infractores sejam julgados e condenados.
“Já tivemos casos de mulheres que se dirigiram ao Gabinete de Atendimento da Mulher e Criança Vítimas de Violência a queixarem-se de serem vítimas de acusações de feitiçaria. Os polícias nada fizeram se não recomendar as idosas a recorrerem à medicina tradicional, alegando que na legislação moçambicana não existe pena para casos de feitiçaria. A Polícia fica à espera que a idosa seja assassinada para depois correr atrás do acusado”, observa Fernandes.
A violência contra a mulher constitui um dos pontos que mereceu atenção dos ministros responsáveis pela área da mulher e género da Comunidade dos Países de Desenvolvimento da África Austral (SADC) reunidos semana passada na cidade de Maputo. Na ocasião, a ministra da Mulher e Acção Social, Iolanda Cintura, classificou de “preocupante” os crimes praticados contra a mulher. Continue lendo aqui.
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