sábado, 23 de fevereiro de 2013

A dor de uma mãe rejeitada na terceira idade

NAS sociedades africanas a importância de uma mulher é determinada pelo seu dom de gerar filhos, os quais são tidos como riqueza, pois, para além de serem capital humano, são vistos como segurança social dos seus pais na velhice.

O adágio popular diz: “Um filho é como uma piroga: se tens um, um dia far-te-á passar o rio”. Contudo, nos dias que correm esses valores estão se perdendo. Filhos espancam as mães; tiram-lhes os poucos bens adquiridos ao longo dos anos; acusam-nas feiticeiras e expulsam-nas de casa. O refúgio de algumas são os centros de apoio à velhice onde, de algum modo, sentem-se isoladas e abandonadas, apesar da protecção que lhes é oferecida.   
Beatriz Ziquele, cuja idade desconhece, cega, mas com a audição muito apurada, é um dos exemplos vivos deste fenómeno. Encontrámo-la, semana passada, no Lar Nossa Senhora dos Desamparados, no bairro da Maxaquene, em Maputo. Apercebendo-se da nossa presença no local e sem hesitar contou-nos o sacrifício que fez para cuidar dos seus dois filhos até se tornarem adultos.
Com os filhos crescidos, a sua esperança de ter suporte social virou um pesadelo, pois contra a sua expectativa os filhos viraram-lhe as costas. Foi vítima de sistemáticas agressões físicas e psicológicas, com o intuito único de se apropriarem da sua casa.
“Ia à machamba, plantava milho e outras culturas para sustentar a minha família. Cuidei dos meus filhos com amor e carinho. Conseguia dar-lhes o básico para se alimentarem e irem à escola. Crescidos, os meus dois filhos decidiram ir à vizinha África do Sul trabalhar. Sempre que viessem a Moçambique batiam-me e expulsavam-me da minha própria casa”, disse Beatriz, acrescentando que, por resistir a satisfazer a sua vontade, os filhos optaram por não lhe prestar assistência.
Beatriz foi salva pelas irmãs da igreja que, ao vê-la sofrer sem ninguém para ajudá-la, optaram por levá-la ao lar dos idosos.
“Quando perdi a vista fiquei impossibilitada de ir tirar água e cultivar. Pedi aos meus filhos para que me arranjassem alguém para, pelo menos, fornecer-me água para beber. Nada disso fizeram. Abandonaram-me deixando-me sozinha sem nenhum recurso para a minha sobrevivência”, refere Beatriz.
Desde que esta idosa foi acolhida no lar dos idosos, há três anos, nenhum familiar dela lhe visitou, muito menos os filhos. Essa é a maior dor de Beatriz.
“Não sei o que fizeram com a minha casa. Era pequena (quatro e sala), mas construí com tanto sacrifício. Desde que estou aqui não recebi visita de familiares. O que mais me indigna é ser rejeitada pelos meus filhos. O meu maior desejo é voltar a pisar a minha casa antes de morrer”, observa a nossa fonte.

Vinte idosos assassinados

Beatriz é apenas um exemplo de idosas vítimas dos seus próprios filhos e da família, entre vários casos relatados na sociedade. Moçambique tem uma população de cerca de um milhão e duzentos mil idosos. Destes, 50 por cento são vítimas de algum tipo de violência praticada, na maioria das vezes, no seio familiar. Entre 2010 e 2011, pelo menos 20 idosos foram assassinados no país, acusados de feitiçaria e vários outros violentados sexualmente, física e psicologicamente. Estes dados excluem tantos outros casos não registados.
As idosas são obrigadas a viver em centros de apoio à velhice. No país existem 49 centros de apoio à pessoa idosa, entre abertos, fechados, públicos e privados. No Lar Nossa Senhora dos Desamparados estão acomodados 92 idosos, entre homens e mulheres.
“Alguns chegam confusos e com medo. A maioria não está aqui por vontade própria. Mas, passado algum tempo, conseguem superar a dor de serem rejeitados pela família e sentem-se bem. É o caso de um senhor de 65 anos que padece de trombose (formação de coágulos sanguíneos no interior dos vasos sanguíneos). A mulher e os filhos deixaram-no aqui. O homem está inconformado. É muito triste vê-lo a sofrer tanto assim”, refere Margarida Costa, voluntária que presta assistência psicológica a idosos naquele lar.  
A maioria das pessoas da terceira idade que sofre violência doméstica é viúva ou solteira, pobre e sem nenhuma possibilidade de defesa, sobretudo devido à sua condição física debilitada, aliada ao desconhecimento dos seus direitos.

Reina a imoralidade

Cerca de 80 por cento dos idosos vivem na zona rural na extrema pobreza com menos de um terço de dólar por dia. “Estas pessoas que hoje são idosas rejeitadas, espancadas e conotadas com feitiçaria, ajudaram a construir o país, estradas, pontes… Não é justo que a sociedade lhes falte o respeito. É inaceitável que filhos virem costas aos pais”, reage Conde Fernandes, coordenador de programas do Fórum da Terceira Idade, um organismo constituído por várias organizações que juntam esforços pela luta e respeito dos direitos da pessoa idosa.  
Para Fernandes a sociedade está a perder os valores morais e os idosos são violados psicológica e fisicamente sem que os infractores sejam julgados e condenados.
“Já tivemos casos de mulheres que se dirigiram ao Gabinete de Atendimento da Mulher e Criança Vítimas de Violência a queixarem-se de serem vítimas de acusações de feitiçaria. Os polícias nada fizeram se não recomendar as idosas a recorrerem à medicina tradicional, alegando que na legislação moçambicana não existe pena para casos de feitiçaria. A Polícia fica à espera que a idosa seja assassinada para depois correr atrás do acusado”, observa Fernandes.
A violência contra a mulher constitui um dos pontos que mereceu atenção dos ministros responsáveis pela área da mulher e género da Comunidade dos Países de Desenvolvimento da África Austral (SADC) reunidos semana passada na cidade de Maputo. Na ocasião, a ministra da Mulher e Acção Social, Iolanda Cintura, classificou de “preocupante” os crimes praticados contra a mulher. Continue lendo aqui.

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