sábado, 23 de fevereiro de 2013

A IURD não é exactamente 
uma igreja, é uma empresa

Celso Malavoneke

Nesta longa entrevista, Celso Malavoneke afima:"Sabemos todos os dias de pronunciamentos de cidadãos que podem ser ofensivos para as igrejas tradicionais como a católica e as protestantes e não há memória fresca de processos judiciais". Até porque temos que compreender os contornos da liberdade de imprensa, por um lado, e do direito, ou do dever dos jornalistas, de informar, porque do outro lado existe o direito constitucional do público de saber. O direito à informação. O jornalista, na maior parte dos países democráticos tem o direito à denúncia. É a tal coisa da criminalização versus descriminalização da actividade da imprensa. O mais engraçado é que, por exemplo a Igreja Universal, desses cento e setenta e dois processos que interpôs contra o jornalista brasileiro, não ganhou nenhum. Os processos que a Igreja Universal ganhou no Brasil, que eu saiba, são aqueles em que o seu líder, Edir Macedo, é acusado de lavagem de dinheiro, desvio de fundos, charlatanismo… então ganham alguns processos, outros não, outros conseguem que sejam arquivados. E o que me dói é que no Brasil quem move os processos contra a Igreja Universal é o Ministério Público, o equivalente à nossa Procuradoria Geral.
Como é que se sente uma pessoa, numa sociedade laica e tolerante como a nossa, a responder em tribunal num processo interposto por uma igreja?
É uma mistura complexa de sentimentos, principalmente no meu caso. Eu tenho uma educação religiosa, por sinal dada pelo D. Alexandre Cardeal do Nascimento, desde os meus sete anos. Eu sou religioso praticante, até compositor e maestro de música sacra, portanto, tenho uma dimensão religiosa na minha vida bastante profunda. Por causa disso procuro pautar a minha vida não apenas como pessoa de bem, como um cidadão que procura ser útil à sociedade, mas também como um cidadão solidário, que procura, na sua vida, pôr em prática os ensinamentos bíblicos, ou, se preferir, os ensinamentos evangélicos. Eu me considero pessoa de bem. Já escrevi sobre isso. E o facto de as duas únicas vezes que fui a Tribunal ter sido por iniciativa do que prefiro chamar grupo religioso, porque não sei se, pelas características que se vêm se pode classificar de igreja, cria um sentimento muito difícil de descrever. Não é uma coisa agradável. Mas o mais doloroso é sabermos que estamos a defender valores do nosso país, valores da nossa cultura, que estamos a defender gente do nosso povo que sabemos que são pessoas vulneráveis e cuja vulnerabilidade está a ser explorada, e sermos condenados pelas nossas próprias instituições. De uma maneira incompreensível, que até leva uma pessoa a pensar se terá sido condenada mesmo porque foi aplicada a Lei ou porque terá havido outros elementos estranhos. Mas é o país que temos, que estamos a tentar construir e que temos de compreender nas coisas menos boas que tem para que possamos contribuir para a sua solução.
Tem conhecimento de algum outro processo em que alguma igreja tivesse levado um outro cidadão a tribunal por suposta calúnia ou difamação?
Não. O que eu sei é que a Universal é recorrente neste tipo de coisas. Pelas pesquisas que fiz, há um jornalista brasileiro que já vai no centésimo septuagésimo segundo (172º) processo. Por depoimentos e subsídios que recebo, até do próprio Brasil, esta é uma táctica que a Universal usa quando se sente particularmente atacada por um jornalista. E o curioso é que as queixas nunca são apresentadas pela Igreja Universal enquanto instituição. São pessoas da Universal que aparecem a apresentar as queixas. No meu primeiro julgamento o ‘leitmotiv’ foi uma crónica que reagia a uma actividade em que a Igreja Universal estava a distribuir camisinhas a jovens e adolescentes nas praias da Ilha de Luanda. Segundo eles, era para prevenir o SIDA. E nós dizíamos que, neste caso, para resolver um problema estávamos a criar outro, porque estávamos, directa ou indirectamente, a encorajar os jovens para a promiscuidade sexual. Até porque um adolescente não tem, ainda, maturidade, do ponto de vista mental, para compreender estas coisas. E a própria senhora que dirigia aquilo, uma tal pastora Raquel Reis, dizia: ‘o sexo é natural, não tem como dizer aos jovens para não fazerem sexo. Eles têm é que fazer sexo, mas prevenidos’. Ora, não é isso que diz a nossa cultura, não é isso que dizem os nossos valores, nem aqui, nem no Brasil. Entretanto passou, os legisladores e juristas enrolaram, enrolaram, até que acabaram por achar que eu era culpado, etc.
É a tal coisa, às vezes a gente põe-se a reflectir sobre a filosofia do direito e começa a ver o quão frágil é o nosso sistema de justiça. Logo em seguida veio o segundo processo, desta vez por causa de uma outra crónica, intitulada “As Questões Que a IURD Não Responde”, em que eu defendia a tese de que a IURD não é exactamente uma igreja, a IURD é uma empresa. Continue lendo aqui.

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