Nesta entrevista, Felizarda Djedje deixa ficar aquilo que deve ser o papel do enfermeiro, os problemas que este enfrenta, os caminhos para os solucionar, ao mesmo tempo que apela à classe a entender que há esforços feitos pelo Governo e pela Direcção do hospital para resolver os seus problemas.
Noticias (NOT) - O enfermeiro é um dos pilares que asseguram o funcionamento de uma instituição hospitalar, em termos de definição. Qual é a realidade concreta destes profissionais no caso do nosso país?
Felizarda Djedje (FD) - Quando nós dissemos que o enfermeiro é o pilar que assegura o funcionamento do hospital, é que a característica do seu trabalho é de laborar ao lado do doente, não querendo com isto dizer que as outras profissões não trabalham ao lado do doente, mas o enfermeiro é aquele que fica 24 horas com os utentes. As outras profissões têm também as suas características como é o caso do médico, que observa e diz que tipo de medicamento se deve administrar ao doente, o técnico de laboratório que faz as analises, o administrativo, que é aquele que vê o que é que o doente precisa, o farmacêutico, que zela pelos medicamentos. Mas o enfermeiro é quem faz toda a coordenação de actividades, desde a colheita de sangue, administração de medicamentos, executa as orientações do médico, dai que se diz que este profissional é o motor de uma unidade hospitalar. É importante frisar que nalguns casos, se não na maioria, é o enfermeiro que atende o doente em primeira-mão.
NOT - O enfermeiro tinha também para além de medicar, o papel de dar o apoio moral ao doente, mas nos últimos tempos nota-se muito pouco este papel. Queira comentar?
FD – Ainda fazemos isso porque o doente tem também problemas familiares e preocupações pessoais, cabendo a nós o papel de ajudar. Temos que ouvir e darmos o apoio moral necessário. Em tempos idos havia um livro que ostentava o título de “onde não há médico” que tinha como objectivo orientar o enfermeiro como devia lidar com a pessoa humana onde não há médico.
NOT – Durante a recente greve dos médicos nenhum hospital encerrou as portas, tendo o enfermeiro assegurado os trabalhos. Até que ponto este gesto criou um mal-estar entre a classe médica e a enfermagem?
FD – O funcionamento de uma unidade sanitária é assegurado por médicos e enfermeiros, o que significa que somos uma equipa constituída também por técnico de laboratório, de farmácia, a tendente e servente onde cada um é importante naquilo que faz.
NOT - O que é a tendente?
FD – A tendente é uma categoria que o Ministério da Saúde teve que introduzir para minimizar os problemas da enfermagem. Este executa algumas tarefas que antes eram feitas por enfermeiros, como alimentar o doente, cuidar a sua higiene, proporcionar-lhe o conforto e acompanhar outras necessidades.
Na Saúde ninguém é importante que outro
NOT - A greve dos médicos incidiu mais sobre o HCM, tendo em conta que é o maior e principal hospital do país. Como é que os enfermeiros se redobraram para assegurar o atendimento pleno nesta unidade?FD - Eu não gostaria de indicar quem é mais e quem é menos importante. O que posso dizer é que as actividades continuaram durante a greve dos médicos, mas é uma verdade que sentimos muita falta deles. O médico é o chefe da equipa, cabe a ele ver a profundeza das necessidades do doente, sem deixar de reconhecer que os enfermeiros foram heróis e graças ao seu trabalho que a população foi salva.
NOT - No tratamento de um doente, processo que envolve médicos e outros técnicos da Saúde, em especialidades diversas, onde exactamente começa e termina o papel do enfermeiro.
DF - O grande papel do enfermeiro é fazer os cuidados clínicos ao doente. Já imaginou essa recomendação médica sem o enfermeiro. Os cuidados clínicos inclui educar, desenvolver acções para prevenir e até animar o doente no tratamento. O médico prescreve o medicamento para o enfermeiro administrar, mas o doente pode recusar-se a tomar o medicamento e isso faz parte dos seus direitos, cabendo ao enfermeiro o papel de explicar o porquê de ter que tomar aquele curativo. É aqui onde entra a parte moral do trabalho da enfermagem.
NOT - Qual é o rácio considerado normal de doentes/enfermeiro?
FD - O normal seria um enfermeiro para 15 doentes, mas há uma questão muito importante que ao nível do Ministério da Saúde e do próprio HCM está em discussão, que é no sentido de termos que ver que tipo de doentes estão em cada enfermaria, que tipo de cuidados são necessários, porque podemos falar de 1 para 15 doentes e verificarmos que um enfermeiro está para muito mais doentes. Para dizer que o rácio depende da especialidade de cada serviço, dai que um enfermeiro pode estar para dois, para três ou para dez.
NOT - Qual é a real situação do HCM?
FD - A nossa realidade é um de enfermeiro para 40-60 doentes. Na reanimação fazemos um enfermeiro para quatro doentes, mas o ideal seria um para dois doentes.
NOT - Quais as enfermarias mais críticas em termos de registo de número elevado de doentes?
DF – Temos a reanimação, a urgência de pediatria, a sala de partos e se formos a entrar nas enfermarias de internamentos a curto ou a longo prazo temos a Cirurgia 1 e as medicinas, que são enfermarias com muitos doentes acamados e em coma. Temos também o berçário, onde estão os recém-nascidos. Estas enfermarias precisam de mais enfermeiros, temos os blocos operatórios, onde alguns doentes vêm de casa aparentemente bem, mas quando iniciam os procedimentos para a cirurgia apresentam vários problemas. Continue lendo aqui.
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