"Brics, não dividam a África" diz um cartaz no salão de uma igreja no
centro de Durban, onde ativistas da sociedade civil juntaram-se para
lançar um olhar crítico sobre a cúpula dos cinco poderes globais
emergentes. O slogan invoca a conferência do século 19 em Berlim, onde
os países coloniais europeus predominantes repartiram o continente
africano em uma corrida que o historiadores vêem como a personificação
do capitalismo explorador da época. Décadas depois que dos africanos
livrarem-se do jugo colonial, é a vez do grupo dos países emergentes dos
Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) verem os seus
motivos a serem analisados, à medida que eles proclamam em tom altruísta
uma "parceria para o desenvolvimento, integração e industrialização"
com o continente Africano.
Liderados pelo gigante emergente, a
China, os Brics são agora os maiores parceiros comerciais da África e
formam o maior novo grupo de investidores. O comércio entre os Brics e a
África deve superar 500 bilhões de dólares até 2015, com a China
abocanhando consideráveis 60 por cento do total, de acordo com o
Standard Bank. Os líderes dos Brics insistem em apresentar o grupo
--que representa mais do que 40 por cento da população mundial e um
quinto do Produto Interno Bruto (PIB) - numa moldura calorosa de
cooperação benevolente entre Sul-Sul, um contrapeso essencial ao "velho"
Ocidente e um melhor parceiro para as massas pobres do mundo em
desenvolvimento.
"Nós achamos que há muitas palmadinhas nas
costas", afirmou Patrick Bond do centro de Sociedade Civil da
Universidade de KwaZulu-Natal, que ajudou a organizar uma reunião
alternativa "Brics-de-baixo" em Durban para obscurecer a reunião de
cúpula dos Brics na terça e na quarta-feira.
Bond e outros
críticos do lema Sul-Sul dos Brics dizem que os países em
desenvolvimento que recebem investimento e assistência dos novos poderes
emergentes precisam olhar de perto, e com firmeza, os acordos que estão
sendo firmados.
Debaixo da aparência fraternal, Bond vê uma
"competição imperial incoerente" sem diferenças com a corrida do século
19. Segundo ele, os membros dos Brics estão a explorar e a cobiçar de
maneira similar os recursos africanos, sem impulsionar suficientemente a
industrialização e a criação de empregos, muito necessários no
continente.
Esta visão ganhou alguma força na África com cidadãos
desde Guiné e Nigéria a Zâmbia e Moçambique vendo cada vez mais as
companhias brasileiras, russas, indianas, chinesas e sul-africanas
arrematando acordos multibilionários de petróleo e mineração e grandes
projetos de infraestrutura. Muitos destes negócios estão sob escrutínio
de grupos locais e internacionais de direto. Muitos desses acordos tem
enfrentado críticas de que concentram-se fortemente na extração de
matéria-prima, que não são transparentes e que não geram emprego e
benefícios ao desenvolvimento suficientes para os países que os recebem
--mesmas críticas feitas muitas vezes a empresas do mundo desenvolvido
do Ocidente.
NOVA FORMA DE IMPERIALISMO
Ativistas
anti-pobreza afirmam que as grandes empresas dos Brics que atuam na
África buscam o lucro, assim como as empresas do mundo rico. "Questões
de ganância são universais e seus atores vêm tanto do Norte e como do
Sul", disse Wahu Kaara, ativista pela justiça social do Quénia e
coordenador da Rede de Alívio da Dívida do Quénia que participa da
reunião "Brics-de-abaixo".
Essa desconfiança em relação aos novos
investidores na África tem também permeado alguns círculos
governamentais no continente. Alertando que a África está a abrir-se
para "uma nova forma de imperialismo", o presidente do Banco Central da
Nigéria, Lamido Sanusi, acusou a China, agora a segunda maior economia
do mundo, de agravar a desindustrialização e o subdesenvolvimento da
África. "A China leva nossos bens primários e nos vende manufaturados.
Esta foi também a essência do colonialismo", escreveu Sanusi numa coluna
de opinião no dia 11 de março, no jornal Financial Times. "África deve
reconhecer que a China - como os EUA, a Rússia, a Grã-Bretanha, o
Brasil e o resto - está na África não no interesse africano, mas no seu
próprio interesse", acrescentou Sanusi.
Os chineses e outros
líderes dos Brics rejeitam indignados as críticas de que o grupo
representa um tipo de "sub-imperialismo" no engajamento político e
económico crescente com a África.
Zhong Jianhua, o enviado
especial da China para a África, disse à Reuters que a história comum da
China e da África de resistência ao colonialismo coloca o seu
relacionamento em um nível diferente. "A China foi intimidada por
outros no passado, e assim foi a África. Esta experiência compartilhada
significa que eles têm muito em comum. Esta é a vantagem da China e a
razão pela qual muitos países ocidentais estão em desvantagem", disse
ele em entrevista à Reuters.
Zhong acrescentou que a China deve
incentivar suas empresas a formar e contratar mais trabalhadores
africanos, respondendo a queixas de que investidores chineses muitas
vezes usam suas próprias forças de trabalho. Catherine Grant-Makokera,
do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (SAIIA), disse que
os governos dos Brics operam visivelmente de modo diferente do Ocidente
na forma como oferecem financiamento e auxílio para as nações da África.
"Você tem visto uma maior disposição dos agentes mais novos para
investir em coisas como infraestrutura pesada, seja por meio do
financiamento ou simplesmente subvenções ou doações", disse
Grant-Makokera, chefe do programa para a diplomacia económica do SAIIA.
Ela
reconheceu, contudo, que a abordagem dos Brics no auxílio ao
desenvolvimento, ao mesmo tempo que oferece respostas mais rápidas dos
projetos, muitas vezes é menos contida por questões ambientais e
trabalhistas. Isso levou a acusação de que empresas dos Brics, em sua
pressa para desenvolver projetos de recursos naturais, desrespeitam os
direitos das comunidades locais e o meio ambiente.
A gigante
brasileira da mineração Vale, nomeada em 2012 pelo grupo suíço sem fins
lucrativos Public Eye como a empresa com o maior "desprezo para o meio
ambiente e os direitos humanos" no mundo, defende a sua ação em
Moçambique, onde está a investir bilhões de dólares na exploração de
carvão e infraestrutura. A Vale tem enfrentado manifestações violentas
de moçambicanos que exigem maiores benefícios e são contra os
deslocamentos forçados das populações locais.
O chefe das
operações da Vale na África, Ricardo Saad, disse que o fato de a empresa
ter experimentado "problemas" não significa que poderia ser acusada de
comportamento "neocolonialista" na África. Ele disse que as potências
coloniais só vieram e tomaram os recursos do continente, sem consultar o
povo, e que os contratos atuais são negociados com governos e
comunidades. "A partir do momento que eu procuro uma licença para
operar, onde você fala com a comunidade, onde tudo que você faz tem
autorização e planeiamento prévio do governo, eu não posso dizer que é
neocolonialismo", disse Saad à Reuters.
Analistas de
desenvolvimento dizem que os Brics, com as suas economias, governos e
prioridades competitivas radicalmente diferentes, ainda precisam
demonstrar que podem mudar as estruturas de poder global para o
benefício dos pobres e desprivilegiados do mundo. "O fato de que eles
estão a pressionar por um novo equilíbrio de poder no mundo tem de ser
salientado como uma coisa positiva ... eles têm novas vozes", disse
Nathalie Beghin da organização brasileira pró-democracia INESC.
Catherine
Grant-Makokera, do SAIIA, diz que os Brics oferecem aos países em
desenvolvimento outras opções de ajuda e investimento como alternativa
aos velhos parceiros ocidentais. "Pelo menos você tem uma diversidade
agora, eu não acho que isso pode ser subestimado", disse ela. @Verdade
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