quinta-feira, 7 de março de 2013

REPORTAGEM - Marrabenta “desaparece” em Nampula e Cabo Delgado

DE repente, na região norte de Moçambique, nas províncias de Nampula e Cabo Delgado em particular, não é fácil encontrar alguém a tocar música com o ritmo marrabenta, da região sul, que em algum momento se quis discutir se se poderia considerar nacional ou não. A razão está no facto de que os músicos da região, assim que as oportunidades se abriram, desataram à gravação das suas próprias músicas, que hoje inundam tudo o que é canto nesta parte de Moçambique.

Barracas, casas de pasto, residências e viaturas em movimento, através dos seus reprodutores, substituíram, sem qualquer decreto, os discos e cassetes ou “flashes” da marrabenta por ritmos locais, por “culpa” dos músicos de Nampula, Namialo e Nacala, casos do conjunto “Onze Balas” e companhia. Em Cabo Delgado regressou-se à rumba (kwashala), por meio do artista Juma Kombola, de Montepuez. A radicação de Carlos de Lina, com os seus estúdios, Super-som, veio dar mais alento às iniciativas locais e, principalmente, lá no planalto dos macondes, devido ao enraizamento do grupo Chimbunga (vento forte, que varre os males).
Chimbunga, buscando ritmos tradicionais, predominantemente o mapiko, enveredou pela música ligeira que hoje é o prato forte de Cabo Delgado e em alguns residentes nas outras paragens, incluindo a capital do país, que encomendam a partir do planalto, em Mueda. Muita boa música ecoa desde o cimo, lá, dos 700 metros der altitude, em relação ao nível médio das águas do mar, para se espalhar à nação.
Tio Russo, é como é chamado, carinhosamente José Martins Mulunga, líder do grupo, constituído em 2007, com 21 elementos, maior parte dos quais bailarinos, para além dos cantores e assistentes técnicos, reconhece ter provocado a audiência e a sociedade em geral pela nova abordagem musical que escolheu.
“As pessoas gostam porque esse tipo de música lhes identifica, a mensagem é sobre os seus anseios, as suas fraquezas, as suas vitórias, enfim, a sua vida e o ritmo é o mapiko. Por isso, não há quem se alheie perante o que ouve ou assiste saído do nosso grupo. Cada um encontra-se dentro da música, provavelmente terá sido por isso que, em relativamente pouco tempo, o Chimbunga cresceu e ficou popular” explica Tio Russo.
Neste período, Chimbunga produziu e publicou 12 álbuns, um total de 118 músicas que encheram a região, agressividade que terá mandado calar os outros ritmos, entre os quais, a marrabenta e algumas tendências musicais tanzanianas, que já tinha dominado o mercado. Hoje a marrabenta só se pode encontrar em algumas discotecas, normalmente frequentadas por moçambicanos provenientes da (ou que tenham vivido) no sul do país.
“Depois do que aconteceu, só podemos concluir que as pessoas não se sentiam identificadas com a marrabenta, por isso não foi difícil abraçarem o que bem lhes identifica. Assumimos, como grupo, a responsabilidade de termos contribuído para o aparente, não é bem desaparecimento, mas secundarização desse ritmo. Pessoalmente, gosto da marrabenta, até porque estou a preparar algumas músicas locais com aquele ritmo. Mas a realidade para os destinatários é essa”, revela o nosso entrevistado.

A evolução à custa dos “sete milhões”

José Martins Mulunga nasceu a 22 quilómetros da sede de Mueda, a aldeia Namaua, há 36 anos. Não foi para além da sétima classe de escolaridade, mas quis enveredar pela vida missionária, a partir de Pemba, que teve que interromper por doença, o que, conforme confessa, fez-lhe perder a moral inicial.
Regressou à sua terra para se entregar à vida campesina, à mistura, com a animação musical na igreja, antes de em 1997 se transferir para a vila-sede para montar um pequeno negócio.
Com a abertura da Rádio Comunitária de Mueda, Tio Russo entra como locutor-colaborador, depois de uma formação básica e três anos mais tarde decide fazer música de modo activo, para sobreviver, já que a rádio não remunerava.
“Antes gravávamos à maneira, mesmo lá na Rádio Comunitária”, penitencia-se o líder do Chimbunga, que a seguir acrescenta ter sido bafejado pela elegibilidade, no quadro do fundo governamental de investimento em iniciativas locais de geração de rendimentos, vulgo “sete milhões”, pois o grupo conseguiu convencer o Conselho Consultivo Distrital, mediante um projecto fundamentado e que sugeria que o conjunto, para além do muito, também contribuía para o desenvolvimento, nomeadamente, através da geração de emprego, entre outras vantagens.
“Isso foi em 2008. Conseguimos um empréstimo de 100 mil meticais, com os quais fomos gravar, já em melhores condições, nos estúdios Super-Som, de Carlos de Lina. Graças a esse salto, fizemos a nossa barraca, compramos um gerador, uma viatura, aparelho de som e diferentes uniformes para o grupo”, revela o chefe do Chimbunga.
Neste momento, de acordo com o nosso interlocutor, só deve 40 mil meticais aos cofres do Estado que o haviam dado emprestado, pois as devoluções estão a suceder conforme o planificado. Continue lendo aqui.

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