terça-feira, 5 de março de 2013

Riqueza de carvão e gás pode levar a “tensões difíceis de gerir”

Graça Machel diz que recursos naturais são uma fonte de agitação.

“Não faltará muito até que vejamos pessoas marchar nas ruas de Maputo. É simples – têm fome”, afirma a antiga primeira-dama, acrescentando que a tensão será elevada especialmente entre os jovens.

A riqueza dos recursos minerais moçambicanos, como o carvão e gás natural, pode levar a “tensões difíceis de gerir” caso não seja redistribuída de forma justa, alertou semana passada Graça Machel, activista dos Direitos Humanos e consultora da ONU.
Caso a riqueza não seja distribuída de forma equitativa, o país estará a “semear não apenas a suspeita”, mas “já a semear o ódio”, adiantou Machel, antiga primeira-dama de Moçambique, citada pela Lusa, numa reunião do Banco Africano de Desenvolvimento.
A tensão, adiantou, poderá ser especialmente elevada entre os jovens, que se consideram excluídos do debate sobre a riqueza mineral do país, que está a tornar-se um importante exportador de minério, em especial carvão e gás.
“Não faltará muito até que vejamos pessoas marchar nas ruas de Maputo. É simples – têm fome”, disse.
Na reunião dedicada à gestão de receitas de exploração de hidrocarbonetos, Machel afirmou que “isto é uma fonte de agitação política (...) e pode levar a tensões que serão extremamente difíceis de gerir”.
Nos últimos anos têm vindo a ser identificadas reservas de gás de grandes dimensões em Moçambique, estimadas em 100 biliões de pés cúbicos, o que faz do país um produtor de nível mundial, atraindo grandes multinacionais para o seu sector energético.
O país poderá arrecadar dezenas de milhares milhões de dólares em receitas de exploração de gás nos próximos anos.
“Subitamente, deixamos de ser o mais pobre dos pobres para nos tornarmos potencialmente no terceiro maior produtor de gás no mundo e as perspectivas para o país mudaram completamente de um dia para o outro”, disse Machel.
A maior parte das reservas de gás tem vindo a ser identificada na bacia do Rovuma (norte), ao largo da província de Cabo Delgado, das mais pobres do país.
“Vemos também uma das província que é a mais pobre entre as pobres a ver-se como a mais rica”, adiantou Graça Machel.
Viúva do primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel, e mulher do ex-presidente sul-africano, Nelson Mandela, Graça é membro da organização The Elders (“Os Anciãos”), um grupo de líderes internacionais independentes dedicado à paz e direitos humanos, além de perita da ONU para o impacto dos conflitos armados nas crianças.
Em 2012, foi escolhida pelo secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, como um dos 26 elementos do grupo encarregue de preparar a Agenda de Desenvolvimento Pós-2015, sucessora dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, juntamente com as também lusófonas Emília Pires e Vanessa Corrêa.
Esta semana, a ministra dos Recursos Minerais de Moçambique, Esperança Bias, afirmou que mais de 3,8 mil milhões de euros foram investidos na prospecção e exploração de carvão no país, nos últimos anos. Falando em Maputo numa reunião sobre as receitas dos recursos minerais, Esperança Bias disse que os avultados investimentos na prospecção e produção de carvão vão permitir que o país produza mais de 50 milhões de toneladas de carvão nos próximos anos.
Em 2012, assinalou a ministra dos Recursos Minerais moçambicana, o país produziu 4,9 milhões de toneladas de carvão, o maior volume desde o início da exploração do minério.
A aposta do governo moçambicano é a construção e reabilitação de infra-estruturas para o escoamento do enorme potencial de que o país dispõe, acrescentou a governante. O País

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