sexta-feira, 12 de abril de 2013

Azagaia: “Não podemos aceitar a violência do Governo!”

O rapper moçambicano Azagaia criticou a violência praticada pelo Governo – através da Força de Intervenção Rápida – contra os desmobilizados de guerra. Na entrevista que nos concedeu, recordou à ministra da Justiça, Benvinda Levy, que “nada pode ser mais alto que a defesa dos direitos humanos”. Saiba a seguir as suas razões...

@Verdade: A Música de Intervenção Rápida possui algo de particular – a capacidade de captar um momento da nossa história, fruto da nossa produção cultural – o jornalismo – para, em jeito de reacção, criar a música. Esta música é uma reacção...
Azagaia: Sim! Reagi a um acontecimento que me desagradou. Desagradou-me a reacção da Polícia, bem como o posicionamento dos órgãos governamentais. É que para o Governo não bastou o facto de a Polícia ter sido violenta. O Governo legitimou essa violência. Isso chocou-me muito, porque houve uma confirmação de que – fazendo a violência contra as pessoas – o Governo agiu da forma correcta, para dizer que das próximas vezes, se a situação se repetir, o Estado voltará a agir da mesma maneira. Então isso arrepiou-me.
@Verdade: A outra leitura que se faz, em relação à música, é que se retoma um episódio da história que – apesar de ter sido propalado pela Imprensa – podia ter passado despercebido. Acha que a discussão que se realizou em volta do assunto não foi suficiente?
Azagaia: Penso que a reacção da sociedade civil moçambicana – os académicos, os analistas e todas as pessoas que quando acontece algo anormal denunciam – organizada não condenou a violência da FIR contra os desmobilizadas de guerra com veemência. O que aconteceu foi inconcebível. Podia-se ter levado o assunto para outros portos. Tratou-se o tópico como se não tivesse sido grave.
Por isso, eu senti que havia a necessidade de eternizar este momento. Sempre que se tocar esta música – que representa um apontamento claro do sucedido – as pessoas irão recordar-se de que no dia em que os desmobilizados de guerra exigiram as suas pensões foram agredidos pelas autoridades. Isso foi errado por causa desta e daquela razão.
Essa peripécia deve ser recordada. Ela constitui um momento que se perdeu, em que se podia enfrentar as pessoas que defendem a violência policial. Uma ocasião em que se devia questionar a violência. Este acontecimento revelou a raiz da violência no país.
@Verdade: A ministra da Justiça, Benvinda Levy – que fala num país que oficialmente defende os direitos humanos – afirma que “há circunstâncias em que o poder do Estado tem que se sobrepor para acautelar direitos mais altos”. Na sua opinião, a que direitos ela se refere?
Azagaia: Eu também não sei. A única coisa que sei é que não existem direitos mais altos que os humanos. Nós estamos a dialogar entre homens, por isso, não faz sentido que haja direitos mais altos que esses. E se existirem quem os defende? A não ser que haja, entre nós, seres alienígenas que possam defender algo superior aos direitos humanos. Na minha opinião, na cadeia dos direitos, os humanos constituem o topo. Se um ser humano defende direitos superiores aos seus – que também lhe dizem respeito – é como se estivesse a dar tiros a si próprio. Um comportamento inaceitável
@Verdade: Agora, mais do que nunca, é preciso fazer uma Música de Intervenção Rápida. Porque é que temos de intervir neste momento?
Azagaia: Se o Governo moçambicano aparece a legitimar a violência, torna-se urgente que nós, como sociedade, estejamos precavidos, intervindo contra esse proceder. Ou seja, se o Governo afirma que – em determinados momentos – atacar os direitos humanos, promover a violência é legítimo, então, também é legal que nós nos oponhamos porque, afinal de contas, somos seres humanos. Estamos diante de um caso flagrante perpetrado pelo Governo.
No mínimo, devia ter havido um pedido de desculpa à sociedade porque houve um excesso, sem classificação, na actuação das autoridades. É como se se estivesse a instalar uma nova ordem no país, que se instaura a partir do momento em que o Governo considera que – sempre que os seus agentes acharem que têm coisas a defender – podem agir com violência. Isso é inaceitável. Então, agora é um momento de intervir e de forma rápida. Esse comportamento do Governo não pode ser aceite de modo nenhum.
As pessoas têm medo
@Verdade: Criou uma convicção nesta música ao afirmar que não “sou formado em direito, mas sei que manifestar neste país é meu direito”. Acha (mesmo) que o povo moçambicano já tem esta consciência?
Azagaia: Não existe a consciência de direito. As pessoas ainda têm medo de intervir e de se manifestar contra procederes negativos. No assunto que se explora na música, eu percebi que a repressão da Polícia intimida os desmobilizados de guerra. Foi como se fosse um aviso deixado para toda a gente.
Com que diz que ?quem quiser agir como o referido grupo social corre os mesmos riscos’. É assim que o povo vive, com medo de exigir os seus direitos – sempre que forem violados – porque a Força de Intervenção Rápida irá actuar contra si. Nós não podemos viver com medo. Continue lendo aqui.

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