A REALIDADE nacional mostra que o quadro de calamidades naturais e o seu
impacto sobre a vida e o bem-estar das comunidades e infra-estruturas
socioeconómicas tende a agudizar-se pela emergência de um quadro muito
preocupante de mudanças climáticas. As cheias ocorridas na bacia do
Limpopo no início deste ano são disso exemplo.
Numa entrevista concedida à nossa Reportagem, João Ribeiro,
director-geral do Instituto Nacional de Gestão das Calamidades,
instituição que coordenou as acções de salvamento e assistência à
população, disse que a solidariedade nacional foi muito importante para
minimizar o drama que se avizinhava.
NOTÍCIAS (NOT) – A
presente época chuvosa fez-nos recordar episódios de 2000 e até choveu
muito em zonas semi-áridas do sul do país numa circunstância em que as
previsões apontavam para chuvas irregulares. Afinal de contas, o que
aconteceu na realidade?
João Ribeiro (JR) -
Em meteorologia, quando se fala de probabilidade não significa
necessariamente que o cenário será aquele. Regra geral são apresentadas
três hipóteses, nomeadamente chuva normal, normal a acima do normal e
normal abaixo do normal. Na gestão de desastres, temos que analisar
estas probabilidades e toda a preparação normalmente segue a maior
percentagem da probabilidade e elaboramos os planos. De qualquer forma,
não podemos nos esquecer dos outros cenários. Nesta época chuvosa,
realmente, se olharmos para a precipitação que ocorreu, estamos numa
época atípica. Temos a influência da Zona de Convergência Intertropical e
a precipitação anti-ciclónica. Tudo o que se passou na zona sul do país
teve a ver com este último fenómeno. Dadas as temperaturas elevadas,
tivemos zonas de baixas pressões que afectaram o sul do país e a
interferência da Zona de Convergência Intertropical fez-se sentir
sobretudo no norte e centro. As baixas pressões que aconteceram no
interior da África do Sul se tivessem acontecido no oceano poderiam ter
resultado em ciclones porque no mar as temperaturas são elevadas. Desde
Outubro a Dezembro começamos a ter o impacto negativo dada a acumulação
de energia e das altas temperaturas que resultaram em ventos fortes e
descargas atmosféricas. Os 150 milímetros que tivemos em três horas na
cidade de Maputo foi resultado destas baixas pressões. As chuvas que
drenaram pelo Limpopo a partir da África do Sul foram também
relacionadas com as baixas pressões. Por isso mesmo que se pode
considerar atípico mas quando falamos de mudanças climáticas, um dos
fenómenos recorrentes é o aumento das temperaturas, energia que depois é
descarregada em forma de ventos fortes, descargas eléctricas e chuvas.
NOT- Qual é a explicação para terem ocorrido chuvas acima do normal em zonas semi-áridas como Chigubo, por exemplo?
JR-
A fase neutral do fenómeno “El-Nino” tem deste tipo de implicações. Ao
mesmo tempo podemos ter irregularidade de chuvas e quando caiem pode ser
em áreas pouco habituais.
NOT- O INGC estava preparado para fazer face a este tipo de situações?
JR-
Quando não acontece melhor porque dá-nos a possibilidade de
continuarmos a prevenir. A primeira simulação que fizemos no país foi em
2007 e nesta época chuvosa 2012/2013, fizemos simulações incluindo na
província de Gaza. Aqui, a simulação foi feita em Novembro e incidia
sobre como evacuar Chókwè em caso de cheias. Esta foi uma base para que
antes das águas entrarem perto de 60 mil pessoas estavam a sair para
Chihaquelane como tínhamos feito na simulação. Estávamos preparados
minimamente porque a assistência pode demorar 48 a 72 horas, mas sempre
lutamos para que fosse imediata. Já estávamos instalados em Chihaquelane
porque sabíamos que o ponto de encontro da população daquela zona seria
aqui.
NOT- Em termos de plano de contingência, com que cenários estávamos a trabalhar?
JR
- Temos três cenários e também prevíamos cheias atendendo as previsões
meteorológicas. Este é apenas um cenário porque temos que ter planos
alternativos. Os planos operacionais são em função da informação inicial
que temos. Nestas cheias, no caso do Limpopo, tivemos que trabalhar
para podermos albergar 350 mil pessoas.
NOT- Este número está ainda dentro dos limites previstos pelo Plano de Contingência?
JR-
Tivemos, no global, em todo o país, pouco mais de 470.892 afectados.
Para nós, no cenário um com a influência de ventos fortes e pequenos
riscos de cheias e seca de pequena magnitude, seriam afectadas 370.495
pessoas. De Outubro a Dezembro estivemos neste cenário e os ventos e
chuvas fortes resultaram em 58847 afectados. No cenário 2 planificamos
que seriam afectadas 518 mil pessoas em resultado da combinação de
ventos e chuvas fortes, cheias em bacias de alto risco e ciclones de
categoria I a III. No terceiro cenário que inclui a probabilidade de
ocorrência de ciclones de grande magnitude, seriam afectados um total de
986 mil pessoas.
NOT- Em qual dos períodos tivemos mais afectados?
JR-
Tivemos mais afectados devido às cheias, mas tivemos mais mortes
relacionadas com descargas atmosféricas no período de Outubro a
Dezembro. As mortes por cheias foram 30 contra os 439 óbitos das cheias
de 2000, só no Limpopo. As cheias de 2000 ganharam mais altura mas este
ano tivemos correntes muito fortes.
NOT- Em 2000 tivemos um período longo de cheias contrariamente a este ano…
JR-
Tivemos um período prolongado de intervenção. O número de óbitos que
tivemos este ano é resultado da prevenção feita antes. Como não temos
dinheiro para fazer reformas estruturais temos que avançar com o que é
possível. Por exemplo, para construirmos a barragem de Mapai, precisamos
de 600 milhões de dólares, mas posso fazer reformas não estruturais,
fazendo educação sobre como viver com as cheias, no aviso prévio, rotas
de evacuação, entre outras que permitam-nos conviver com o drama.
Mudanças climáticas alteraram o padrão
Teremos ficado relativamente descansados com a perspectiva
de que cheias como as de 2000 só aconteceriam passados 50 anos e não
investimos na reposição dos diques de protecção que minimizariam o risco
por exemplo?
JR- A grande parte dos projectos que
temos no Limpopo são dos anos 50. A cidade de Chókwè foi projectada
nesse contexto. Quando há um projecto, as pessoas olham para os dados
dos últimos cem anos para aferir a probabilidade de ser afectado. Chókwè
nunca enfrentou uma situação como as cheias de 2000 pelos registos
disponíveis. Os diques foram projectados tendo em conta aquela
realidade. Por causa do volume de água drenado pelo Limpopo, os diques
não tinham como acomodar. Hoje, se tivermos que construir diques ali,
temos que tomar em conta todos estes factores. Já temos a noção de 2000 e
2013 e será preciso dar uma margem de segurança. Hoje também estamos
perante uma ameaça séria com relação à Estrada Nacional. As mudanças
climáticas alteraram o padrão e aceleraram a ocorrência dos eventos
extremos. Os nossos projectos futuros têm que levar em consideração tudo
isso.
NOT- Neste caso, não seria de considerar apenas os diques porque teriam que ter uma altura superior a dez metros…
JR-
Tem que se fazer um estudo porque não se trata de olhar apenas para os
diques. Pode-se pensar em desvios, em drenagens. É todo um sistema de
águas. Por exemplo na Beira, apesar de estar abaixo do nível das águas
do mar, a água entra mas sai. São questões de engenharia que têm que ser
estudadas.
NOT- Como foi lidar com a emergência desta época chuvosa?
JR-
O trabalho feito desde 2006 com as comunidades e com os líderes
comunitários, facilitou bastante. É de louvar o empenho dos comités de
gestão de risco. Tínhamos uma população que estava organizada e isso nos
facilitou bastante. As simulações também são importantes porque nos
ajudaram, as pessoas conheciam as rotas de evacuação. A parte proactiva
foi a da formação e a reactiva esta em que as forças armadas,
voluntários da Cruz Vermelha, os voluntários, bombeiros fizeram na busca
e salvamento e também na assistência em que esteve o Ministério da
Saúde, da Coordenação da Acção Social, da Educação, Obras Públicas,
entre outros sectores que estiveram organizados no Centro Operativo de
Emergência. Esta coordenação multissectorial foi importante porque o
essencial é salvar vidas e nos centros de acomodação não houve casos de
mortes. Continue lendo aqui.
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