segunda-feira, 8 de abril de 2013

Impacto das calamidades tende a agudizar-se

A REALIDADE nacional mostra que o quadro de calamidades naturais e o seu impacto sobre a vida e o bem-estar das comunidades e infra-estruturas socioeconómicas tende a agudizar-se pela emergência de um quadro muito preocupante de mudanças climáticas. As cheias ocorridas na bacia do Limpopo no início deste ano são disso exemplo.

Numa entrevista concedida à nossa Reportagem, João Ribeiro, director-geral do Instituto Nacional de Gestão das Calamidades, instituição que coordenou as acções de salvamento e assistência à população, disse que a solidariedade nacional foi muito importante para minimizar o drama que se avizinhava.

NOTÍCIAS (NOT) – A presente época chuvosa fez-nos recordar episódios de 2000 e até choveu muito em zonas semi-áridas do sul do país numa circunstância em que as previsões apontavam para chuvas irregulares. Afinal de contas, o que aconteceu na realidade?  
João Ribeiro (JR) - Em meteorologia, quando se fala de probabilidade não significa necessariamente que o cenário será aquele. Regra geral são apresentadas três hipóteses, nomeadamente chuva normal, normal a acima do normal e normal abaixo do normal. Na gestão de desastres, temos que analisar estas probabilidades e toda a preparação normalmente segue a maior percentagem da probabilidade e elaboramos os planos. De qualquer forma, não podemos nos esquecer dos outros cenários. Nesta época chuvosa, realmente, se olharmos para a precipitação que ocorreu, estamos numa época atípica. Temos a influência da Zona de Convergência Intertropical e a precipitação anti-ciclónica. Tudo o que se passou na zona sul do país teve a ver com este último fenómeno. Dadas as temperaturas elevadas, tivemos zonas de baixas pressões que afectaram o sul do país e a interferência da Zona de Convergência Intertropical fez-se sentir sobretudo no norte e centro. As baixas pressões que aconteceram no interior da África do Sul se tivessem acontecido no oceano poderiam ter resultado em ciclones porque no mar as temperaturas são elevadas. Desde Outubro a Dezembro começamos a ter o impacto negativo dada a acumulação de energia e das altas temperaturas que resultaram em ventos fortes e descargas atmosféricas. Os 150 milímetros que tivemos em três horas na cidade de Maputo foi resultado destas baixas pressões. As chuvas que drenaram pelo Limpopo a partir da África do Sul foram também relacionadas com as baixas pressões. Por isso mesmo que se pode considerar atípico mas quando falamos de mudanças climáticas, um dos fenómenos recorrentes é o aumento das temperaturas, energia que depois é descarregada em forma de ventos fortes, descargas eléctricas e chuvas.
NOT- Qual é a explicação para terem ocorrido chuvas acima do normal em zonas semi-áridas como Chigubo, por exemplo?
JR- A fase neutral do fenómeno “El-Nino” tem deste tipo de implicações. Ao mesmo tempo podemos ter irregularidade de chuvas e quando caiem pode ser em áreas pouco habituais.
NOT- O INGC estava preparado para fazer face a este tipo de situações?
JR- Quando não acontece melhor porque dá-nos a possibilidade de continuarmos a prevenir. A primeira simulação que fizemos no país foi em 2007 e nesta época chuvosa 2012/2013, fizemos simulações incluindo na província de Gaza. Aqui, a simulação foi feita em Novembro e incidia sobre como evacuar Chókwè em caso de cheias. Esta foi uma base para que antes das águas entrarem perto de 60 mil pessoas estavam a sair para Chihaquelane como tínhamos feito na simulação. Estávamos preparados minimamente porque a assistência pode demorar 48 a 72 horas, mas sempre lutamos para que fosse imediata. Já estávamos instalados em Chihaquelane porque sabíamos que o ponto de encontro da população daquela zona seria aqui.
NOT- Em termos de plano de contingência, com que cenários estávamos a trabalhar?
JR - Temos três cenários e também prevíamos cheias atendendo as previsões meteorológicas. Este é apenas um cenário porque temos que ter planos alternativos. Os planos operacionais são em função da informação inicial que temos. Nestas cheias, no caso do Limpopo, tivemos que trabalhar para podermos albergar 350 mil pessoas.  
NOT- Este número está ainda dentro dos limites previstos pelo Plano de Contingência?
JR- Tivemos, no global, em todo o país, pouco mais de 470.892 afectados. Para nós, no cenário um com a influência de ventos fortes e pequenos riscos de cheias e seca de pequena magnitude, seriam afectadas 370.495 pessoas. De Outubro a Dezembro estivemos neste cenário e os ventos e chuvas fortes resultaram em 58847 afectados. No cenário 2 planificamos que seriam afectadas 518 mil pessoas em resultado da combinação de ventos e chuvas fortes, cheias em bacias de alto risco e ciclones de categoria I a III. No terceiro cenário que inclui a probabilidade de ocorrência de ciclones de grande magnitude, seriam afectados um total de 986 mil pessoas.
NOT- Em qual dos períodos tivemos mais afectados?
JR- Tivemos mais afectados devido às cheias, mas tivemos mais mortes relacionadas com descargas atmosféricas no período de Outubro a Dezembro. As mortes por cheias foram 30 contra os 439 óbitos das cheias de 2000, só no Limpopo. As cheias de 2000 ganharam mais altura mas este ano tivemos correntes muito fortes.
NOT- Em 2000 tivemos um período longo de cheias contrariamente a este ano…
JR- Tivemos um período prolongado de intervenção. O número de óbitos que tivemos este ano é resultado da prevenção feita antes. Como não temos dinheiro para fazer reformas estruturais temos que avançar com o que é possível. Por exemplo, para construirmos a barragem de Mapai, precisamos de 600 milhões de dólares, mas posso fazer reformas não estruturais, fazendo educação sobre como viver com as cheias, no aviso prévio, rotas de evacuação, entre outras que permitam-nos conviver com o drama.

Mudanças climáticas alteraram o padrão

Teremos ficado relativamente descansados com a perspectiva de que cheias como as de 2000 só aconteceriam passados 50 anos e não investimos na reposição dos diques de protecção que minimizariam o risco por exemplo?
JR- A grande parte dos projectos que temos no Limpopo são dos anos 50. A cidade de Chókwè foi projectada nesse contexto. Quando há um projecto, as pessoas olham para os dados dos últimos cem anos para aferir a probabilidade de ser afectado. Chókwè nunca enfrentou uma situação como as cheias de 2000 pelos registos disponíveis. Os diques foram projectados tendo em conta aquela realidade. Por causa do volume de água drenado pelo Limpopo, os diques não tinham como acomodar. Hoje, se tivermos que construir diques ali, temos que tomar em conta todos estes factores. Já temos a noção de 2000 e 2013 e será preciso dar uma margem de segurança. Hoje também estamos perante uma ameaça séria com relação à Estrada Nacional. As mudanças climáticas alteraram o padrão e aceleraram a ocorrência dos eventos extremos. Os nossos projectos futuros têm que levar em consideração tudo isso.
NOT- Neste caso, não seria de considerar apenas os diques porque teriam que ter uma altura superior a dez metros…
JR- Tem que se fazer um estudo porque não se trata de olhar apenas para os diques. Pode-se pensar em desvios, em drenagens. É todo um sistema de águas. Por exemplo na Beira, apesar de estar abaixo do nível das águas do mar, a água entra mas sai. São questões de engenharia que têm que ser estudadas.
NOT- Como foi lidar com a emergência desta época chuvosa?
JR- O trabalho feito desde 2006 com as comunidades e com os líderes comunitários, facilitou bastante. É de louvar o empenho dos comités de gestão de risco. Tínhamos uma população que estava organizada e isso nos facilitou bastante. As simulações também são importantes porque nos ajudaram, as pessoas conheciam as rotas de evacuação. A parte proactiva foi a da formação e a reactiva esta em que as forças armadas, voluntários da Cruz Vermelha, os voluntários, bombeiros fizeram na busca e salvamento e também na assistência em que esteve o Ministério da Saúde, da Coordenação da Acção Social, da Educação, Obras Públicas, entre outros sectores que estiveram organizados no Centro Operativo de Emergência. Esta coordenação multissectorial foi importante porque o essencial é salvar vidas e nos centros de acomodação não houve casos de mortes. Continue lendo aqui.

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