terça-feira, 30 de abril de 2013

Má gestão financeira e influência política impedem o rendimento das empresas petrolíferas no país

O financiamento da participação de Moçambique na primeira fase do Gás Natural Liquefeito (LNG) da Bacia do Rovuma custará biliões de dólares. O Governo não pode pagar a sua parte através da futura produção (de gás) e deverá pedir empréstimo para financiá-la. Num contexto em que as empresas nacionais do petróleo constituem uma das principais causas da "maldição de recursos" devido à má gestão financeira, à influência política e à corrupção, os riscos e custos são elevados, e os benefícios são incertos, refere o Centro de Integridade Pública (CIP), para quem uma vez mais, são tomadas decisões de grande importância e complexidade sem um debate público.
Segundo a instituição, é comum que países ricos em hidrocarbonetos detenham uma parte nas operações petrolíferas, normalmente através de uma empresa nacional do petróleo. As maiores empresas petrolíferas do mundo são propriedade do Estado. Nos casos onde empresas (privadas) petrolíferas internacionais operam, os governos, normalmente, detêm uma participação que varia entre 10 e 60%.
Enquanto poderá parecer óbvio que a participação do Estado constitui uma forma de aumentar a receita do Governo, este não é sempre o caso. A análise demonstra que a participação do Estado não resulta, necessariamente, numa maior parte da receita do Governo.1 E, enquanto existem potenciais benefícios pela participação do Estado, existem também potenciais custos e riscos. Se o projecto necessitar de capital adicional durante a fase de desenvolvimento, ou registar perdas ou danos durante a fase de produção, o Governo teria a necessidade de cobrir a sua parte do prejuízo na proporção da sua participação.
O argumento a favor da participação nacional tende a ser não-financeiro. Em parte, trata-se de uma justificação simbólica: deter acções em operações petrolíferas é, muitas vezes, visto como sendo importante para a proteção da soberania do país e para a promoção do interesse nacional. Existem também considerações práticas incluindo a garantia do controlo sobre a actividade do sector privado e o desenvolvimento de capacidade nacional de gestão e especialização no sector.
O desempenho de empresas nacionais do petróleo, relativamente a estes objectivos, não é impressionante. A má governação no seio de empresas petrolíferas nacionais tem sido um factor significativo na chamada "maldição de recursos". Empresas nacionais do petróleo têm, frequentemente, sido ‘capturadas’ por elites nacionais que, sob argumentos de soberania e interesse nacional, têm perseguido as suas próprias agendas políticas e/ou pessoais. As empresas petrolíferas nacionais têm, tradicionalmente, sido caracterizadas por falta de transparência e como sendo propensas à má gestão financeira.
Surpreendentemente, as empresas nacionais do petróleo também têm dependido consideravelmente das finanças do Estado, na medida em que, muitas vezes, estas devem financiar a sua percentagem de participação durante a fase dedesenvolvimento dos projectos. Na Nigéria, por exemplo, o maior item do Orçamento do Estado, entre 2005 e 2007, era o pagamento efectuado à empresa nacional do petróleo.

Participação do Estado em Moçambique

A Lei do Petróleo, actualmente em vigor em Moçambique, reserva ao Estado o direito a uma parte em cada concessão. Existe apenas um único projecto de petróleo, presentemente, em operação em Moçambique – os campos de gás de Pande e Temane operados pela Sasol, em Inhambane – e, portanto, só um único exemplo, concreto, de participação do Estado.
A Companhia Moçambicana de Hidrocarbonetos (CMH) possui uma participação no valor de 25% no projecto de Inhambane. A participação da CMH está dividida em 70% para a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH), 20% directamente para o Estado Moçambicano e 10% para investidores moçambicanos privados.
Os custos de capital para a primeira fase do projecto foram de $265 milhões. De acordo com o contrato de concessão de exploração e produção (EPCC), Moçambique deveria pagar a sua participação dos custos de capital, em adiantado. Portanto, a CMH foi solicitada a contribuir com $66.5 milhões. Os fundos foram angariados através de créditos de quatro parceiros de ajuda de desenvolvimento, incluindo a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), o Banco Europeu de Investimento (EIB) e o Banco de Desenvolvimento da África do Sul (DBSA), bem como a International Finance Corporation (IFC), um braço do Banco Mundial. A expansão do projecto em 2010 exigiu um investimento adicional de $400 milhões. Com vista a manter a participação do Estado a 25%, foi necessário um investimento adicional de $100 milhões. Uma vez mais, o financiamento veio de doadores, embora neste caso apenas da Agência Francesa de Desenvolvimento e do Banco de Desenvolvimento da África do Sul.
A garantia da participação de Moçambique no campo de gás de Inhambane exigiu grandes contribuições de doadores. Ainda assim, os custos gerais do projecto foram relativamente modestos, apenas $665 milhões para as duas fases. Os desafios do financiamento da participação do Estado na Bacia do Rovuma são de diferente ordem e magnitude. Nas concessões da Bacia do Rovuma, o Estado tem direito a 15% da Área 1 da Anadarko e 10% da Área 4 da ENI. Os termos do contrato, abaixo explicados, tornam demasiado dispendioso o exercício do direito de participação do Estado. Estes desafios são acrescidos dos investimentos massivos, adiantados, para a produção do LNG. Para deter parte das concessões da Bacia do Rovuma, Moçambique deverá pagar, em adiantado, biliões de dólares.

Financiamento da Participação do Estado

As formas através das quais o Governo financia a sua participação em projectos petrolíferos são determinadas pelos termos dos contratos de concessão de exploração e produção. Existem três opções: financiamento com capital próprio, carregamento parcial do Estado ao ‘colo’ e carregamento total do Estado ao "colo". Em alguns casos, o Estado é um parceiro com capital próprio, desde o início. Neste arranjo, o Estado paga a sua participação total dos custos de exploração, desenvolvimento e produção, o mesmo que qualquer outro parceiro no consórcio. No outro extremo, a empresa petrolífera internacional cobre os custos de exploração e produção da participação do Estado. Como a participação do Estado é "carregada" durante a exploração e desenvolvimento, o arranjo é conhecido como carregamento ao ‘colo’ total do Estado.
Em alguns casos, os custos de desenvolvimento são reembolsados ao longo do tempo, vindos da receita do projecto mas, em muitos casos, não há reembolso. Este arranjo beneficia claramente o Estado e tem um custo para as empresas, na medida em que estas devem contribuir com todo o financiamento necessário, desde o início. O Gana proporciona um bom exemplo de um carregamento ao ‘colo’ total do Estado. A alternativa ao carregamento total do Estado ao ‘colo’ é o carregamento parcial do Estado ao ‘colo’. A empresa envolvida na exploração cobre todas as despesas e assume todos os riscos. Se a exploração não é capaz de revelar os volumes de petróleo comercialmente viáveis, os custos de exploração são perdidos. Se a exploração temsucesso e o projecto passa para a fase de desenvolvimento, as obrigações mudam. Nesta fase, o Estado deverá, como qualquer outro parceiro no consórcio, pagar a sua participação total dos custos de desenvolvimento na medida em que forem contraídos. Continue lendo aqui.

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