terça-feira, 23 de abril de 2013

Realidade política actual e o futuro do país

SR. DIRECTOR!

Os recentes ataques da Renamo chamam a uma responsabilidade crítica e acrescida às lideranças políticas, particularmente da Frelimo e da Renamo, entanto que principais actores e mais importantes do cenário político nacional.

Sobre elas repousa o papel determinante de evitar e rechaçar actos de violência, sobretudo contra cidadãos civis indefesos, uma vez que actos desta natureza tornam sombrio o futuro de Moçambique. Porquanto impedem a livre circulação de bens e serviços e o fluxo do investimento estrangeiro dada a insegurança que representa a ocorrência de actos de violência.
O contexto em que os ataques ocorreram oferece variáveis de análise que permitem estabelecer ligação com a abundância, no país, de recursos naturais e a forma como os resultados da sua exploração é benéfica ou não à sociedade. Moçambique possui, em abundância, recursos naturais avaliáveis no solo, subsolo e no ambiente aquático, nomeadamente madeira, pescado, ouro, pedras preciosas, gás natural, carvão mineral e, actualmente, com indicações de possibilidade de ocorrência de petróleo e outros minérios de alto valor comercial.
A abundância ou escassez de recursos é um factor determinante para o estabelecimento e manutenção da paz, segurança e estabilidade interna de uma nação. Para além de conferir ao Estado o poder de barganha em negociações internacionais são um factor de poder a nível nacional e no cenário internacional. Todavia, a abundância de recursos pode transformar-se em um factor de insegurança na medida em que desperta a cobiça e/ou apetite de ataque e/ou anexação por parte de país ou grupo de países que não possuem ou mesmo que os possuam, desejam maximizar ou ampliar o seu poder. Porém, a transformação de recursos em riqueza  passa pela existência de capital humano qualificado que garanta uma capacidade técnica de exploração e transformação em riqueza para o bem-estar da sociedade em geral.
Os que promovem este tipo de conflitos são motivados pelo apetite e cobiça de recursos. Por isso, ressaltam e exacerbam as desigualdades económicas e sociais, diferenças étnicas e/ou religiosas como estratégia de “dividir para reinar”. Promovem e patrocinam clivagens internas e guerras civis para entreter a sociedade enquanto vão ilicitamente e à custa de derramamento de sangue e incertezas sociais explorando recursos em benefício próprio. Se eclodir um conflito com estas características, os instigadores colocam-se de lado de um dos beligerantes, normalmente onde sentem que serão melhor acomodados os seus interesses, caso o conflito seja ganho pela parte que patrocinam. Oferecem apoio e suprimentos de guerra, o que garantirá no futuro abertura para a exploração de recursos a seu belprazer.
Com a excepção da Somália que se tornou uma entidade caótica ingovernável, portanto um Estado falido – sem governo central – a razão do conflito é a escassez de recursos. Grupos armados disputam a posse dos escassos recursos existentes. Entretanto, países como Angola, Iraque, República Democrática de Congo, Serra Leoa, Libéria e outros sofrem ou sofreram conflitos armados violentos, motivados pela abundância de recursos. Senhores de guerra armados, equipados e supridos por países ricos do hemisfério norte e até por companhias multinacionais sedeadas em países ocidentais, apossam-se dos recursos e com os resultados de exploração e venda alimentam conflitos violentos que massacram, sequestram, escravizam e violam até os mais elementares direitos humanos, como, por exemplo, o direito à vida.
Neste contexto, importa chamar atenção, não com objectivo de julgar o autor dos ataques de Muxúnguè, pois neste momento os julgamentos não têm importância, uma vez que a grande preocupação deve ser a de buscar que as partes conflituantes, portanto o Governo e a Renamo, encontrem soluções diplomáticas – via negocial que é característica do nosso país – e estabeleçam uma plataforma de entendimento para que futuros actos de violência, apimentados por mortes, não voltem a ter espaço no território nacional.
Contudo, é preciso prestar-se atenção a dois aspectos que considero fundamentais e que possam servir de ponto de partida quando se lida com as reivindicações e atitudes da Renamo. Há um ditado popular que diz que “o costume não abandona o dono”. A Renamo teve ligações externas durante a sua formação e serviu de instrumento do Ocidente no âmbito do conflito ideológico do pós-segunda guerra mundial – a guerra fria. É preciso não menosprezar este facto. Não obstante o fim da guerra fria, a independência do Zimbabwe do governo ilegal de Ian Smith, cuja polícia secreta formou a Renamo, mais tarde patrocinada pelo extinto governo sul-africano de apartheid com o estabelecimento da democracia multirracial na África do Sul, acredito não ter perdido na totalidade as ligações externas, embora nunca tenha expressado isso publicamente de forma clara. Chama-se atenção ao facto de algumas dessas ligações serem estabelecidas fora do controlo dos estados, portanto, por empresas multinacionais que, em algumas circunstâncias, têm poder acima dos próprios estados e têm interesses muito fortes no país dada a descoberta cada vez crescente de recursos naturais.
Por outro lado, é válida a consideração sobre a erosão das variáveis internas de segurança, nomeadamente: a coesão social e o moral nacional, tudo por causa da má distribuição de renda. Quando as autoridades afirmam que o país não produz e, consequentemente, não é possível garantir um nível aceitável de vida aos cidadãos, este discurso torna-se uma antítese quando a sociedade tem de assistir ao locupletamento de algumas esferas sociais e à generosidade que se tem dado aos mega-projectos em termos de tributação que se considera que podia melhorar a qualidade de vida dos moçambicanos. Notícias
 
  • Levi Salomão Matsinhe

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