quarta-feira, 1 de maio de 2013

Educação é essencial para reduzir mortalidade materna – afirma Elke Bettina Maas, do FNUAP em Moçambique

EDUCAR a sociedade é importante para um país, mas mais ainda quando essa escolarização é dirigida à rapariga, dadas as múltiplas vantagens que a educação traz à família. Instruída, a mulher pode entender os benefícios do planeamento familiar, escolher o melhor método de prevenção da gravidez e com isso reduzir-se a mortalidade materna, cujo rácio é de cerca de 500 por 100 mil nascimentos vivos. Estas são algumas das questões levantadas por Elke Bettina Maas, representante do Fundo das Nações Unidas para a População em Moçambique (FNUAP), em entrevista ao “Notícias”.

Preocupada com estatísticas elevadas de casamentos prematuros (com 17,7 por cento das raparigas a casarem-se antes dos 15 anos) e gravidezes precoces (cerca de 51,5 por cento antes dos 18 anos e 40 por cento de mulheres a terem filhos antes dos 20 anos de idade), incluindo o baixo nível de uso de anticonceptivos, esta diplomata sugere mais trabalho no que tange à formação de mais pessoal de saúde, aumento de infra-estruturas sanitárias e maior acesso aos serviços de saúde. Destacou a importância de se garantir maior disponibilidade de serviços de planeamento familiar, por ser um dos requisitos para que o nosso país atinja a meta dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio de se reduzir para a metade o actual índice de mortalidade materno-infantil.
Maas, que está em Moçambique desde 2012, reiterou que vai dar continuidade ao trabalho do FNUAP que, desde finais dos anos 1970, apoia Moçambique nas áreas de saúde sexual e reprodutiva, juventude, género e população e desenvolvimento. Disse ainda que o 8º Programa de Apoio ao país faz parte do Quadro das Nações Unidas para o Desenvolvimento e está alinhado ao Plano de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta (PARPA). De nacionalidade alemã, antes de escalar Moçambique, a nossa entrevistada foi sucessivamente directora adjunta da Divisão dos Estados Árabes, Europa do Leste e Ásia Central, e chefe do gabinete do director executivo do FNUAP em Nova Iorque. Como Representante do FNUAP, trabalhou no Iémen e no Cambodja, entre 2001 e 2007. Foi também Representante Adjunta na China, entre 1993-1997. Convidamos o leitor a acompanhar esta entrevista com a representante do FNUAP.

Noticias (NOT) - Quais são os objectivos e atribuições do FNUAP, numa altura em que muitos países africanos atravessam enormes desafios, dentre os quais o HIV e SIDA e o combate à pobreza?
Elke Bettina Maas (EBM) – Procuramos contribuir na melhoria das vidas e expandir as escolhas dos indivíduos e de casais. O FUNUAP também assiste governos, a seu pedido, a formular políticas e estratégias para reduzir a pobreza e apoiar o desenvolvimento sustentável. O Fundo auxilia igualmente os países na recolha e análise de dados da população que os possam auxiliar na compreensão das tendências da população. Isto encoraja os governos a ter em conta as necessidades das futuras gerações, assim como das que vivem hoje. A estreita relação entre o desenvolvimento sustentável e a igualdade de género e saúde reprodutiva, outras áreas principais do trabalho do FNUAP, foram ratificadas na Conferência Internacional de 1994 sobre a População e Desenvolvimento (ICPD) em Cairo. O Programa de Acção ali adoptado, orientam o FNUAP no seu trabalho. Na conferência, 179 países concordaram que a satisfação das necessidades para educação e saúde, incluindo a saúde reprodutiva, é o pré-requisito para o desenvolvimento sustentável de longo prazo. Também acordaram num roteiro para o progresso com os seguintes objectivos, acesso universal aos serviços de saúde reprodutiva até 2015; educação primária universal e redução de diferenças de género na educação até 2015; reduzir a mortalidade materna em 75 por cento até 2015; reduzir a mortalidade infantil; aumentar a expectativa de vida; reduzir as taxas de infecção do HIV e alcançar os objectivos do Programa de Acção, que é também essencial para alcançar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.

NOT - Qual é o principal desafio do FNUAP em Moçambique?
EBM - Neste contexto, a saúde reprodutiva revela-se como um elemento indispensável do desenvolvimento sustentável. Mulheres e jovens que estão em boa saúde, e que têm o poder e os meios para tomar suas próprias decisões sobre quantos filhos querem ter e, quando tê-los são capazes de contribuir para o desenvolvimento de suas sociedades. O nosso grande desafio é apoiar as políticas do governo para a erradicação da mortalidade materno infantil e maior acesso ao uso de contraceptivos.

NOT - Qual é a leitura que faz das estatísticas que nos são apresentados sobre a mortalidade materno-infantil e casamentos precoces em Moçambique?
EBM - A nossa agência apoia Moçambique desde 1979, nas áreas de saúde sexual e reprodutiva, juventude, género e população e desenvolvimento. Estes números são preocupantes, revelam que ainda há muito trabalho por ser feito, mas também revelam que algo está a ser feito. A grande preocupação prende-se com os casamentos precoces que ainda são elevado (17,7 por cento das raparigas casaram-se antes dos 15 anos e 51,5 por cento antes dos 18 anos) e 40 por cento das mulheres já tem filhos antes de atingir os 20 anos. A taxa de prevalência contraceptiva no grupo de 15-19 anos de idade é de 5.9 por cento e de 11.4 por cento no grupo de 20-24 anos de idade (2011). Por sua vez, o rácio de mortalidade materno situa-se nos 500 por 100 mil nascimentos vivos, e destes, o maior regista-se na faixa etária dos 12-14 anos, que é de 1.816 mortes  maternas por 100 mil nascimentos vivos. A média de idade de mortes das mulheres que morreram de causas maternas situa-se nos 27 anos, com aproximadamente 20 por cento das mortes maternas a ocorrerem em raparigas que não completaram o seu vigésimo ano de idade, enquanto que 14 por cento das mortes resultam de aborto. Como sabem, o 8º Programa de Apoio ao País faz parte do Quadro das Nações Unidas para o Desenvolvimento e está alinhado ao Plano de Acção para a Redução da Pobreza, que inclui a problemática da mortalidade materno infantil, casamentos precoces e outras situações que ainda contribuem para a morte de mulheres e crianças. A minha leitura é que o trabalho ainda é enorme. Continue lendo aqui.

Sem comentários:

Enviar um comentário