quarta-feira, 15 de maio de 2013

Quarenta anos após a morte de Amílcar Cabral o que resta do seu sonho africano?

Depois da morte física do poeta e “Chefi di Guerra” que cunhou a história da Guiné e Cabo Verde lutando contra o colonialismo português, o cabralismo sofreu muitas mortes. Ficou alguma coisa do seu sonho?

"Amílcar Cabral foi em meu entender o mais inteligente, o mais criativo e o mais brilhante de todos os dirigentes da luta de libertação dos povos africanos colonizados naquela altura pelo regime português", afirma Manuel Alegre. O poeta, político português Manuel Alegre recorda-se de um dia em Argel, onde o português estava exilado, Amílcar Cabral ter puxado os óculos para a testa, como era seu hábito, e com os olhos rasos de lágrimas ter dito: “Quando for assassinado, sê-lo-ei por um homem do meu povo, do meu partido, provavelmente fundador, ainda que guiado pelo inimigo”. Cabral pressentia o perigo e presságio confirmou-se. Foi assassinado, aos 48 anos, por três homens armados do PAIGC, o seu partido, pertoda sua casa em Conacri.
Até hoje as circunstâncias da morte estão por esclarecer. Inocêncio Kani, companheiro de luta de Cabral deu o primeiro tiro, outro, ainda não identificado, deu-lhe os tiros de misericórdia. Também não há uma verdade quanto à autoria moral do crime: um plano da PIDE, a polícia política portuguesa? Divergência no seio do partido? Conflito de interesses na Guiné-Conacri? Morrer é uma das condições da guerra de qualquer combatente. Amílcar Cabral era um alvo privilegiado, pela sua acção, mas sobretudo pelo seu pensamento.
No seu livro de memórias, “A Ponta da Navalha”, o jornalista francês Gérard Chaliand, que acompanhou e divulgou a Luta de Libertação na Guiné-Bissau, conta que quando disseram a Nelson Mandela “tu és o maior”, Mandela replicou com toda a simplicidade, “não o maior é Cabral”. Manuel Alegre salienta que Cabral foi asssassinado, “porque não tinha consigo nenhuma arma, ele que era o principal teórico da luta armada africana de libertação”. Foi a primeira morte de Cabral.

"Aprendi que não era português"

À uma hora do dia 12 de Setembro de 1924 nascia em Bafatá, na então Guiné Portuguesa, Amílcar Lopes Cabral. Filho de um professor primário cabo-verdiano e de mãe guineense. Aos 8 anos de idade muda-se com a família para a ilha de Santiago, Cabo Verde. Frequentou o liceu Gil Eanes, em S. Vicente, onde completa, em 1944, os seus estudos secundários. Recordando os seus tempos de escola Cabral dirá: “Gosto muito de Portugal, do povo português. Houve um tempo na minha vida em que eu estive convencido que era português. Mas depois aprendi que não, porque o meu povo, a história de África, até a cor da minha pele…Aprendi que já não era português”.

Amílcar tem 15 anos quando se inicia a Segunda Guerra Mundial que terá impactos dramáticos em Cabo Verde. Nos anos quarenta Cabo Verde era uma colónia varrida pela fome e pela morte. A fome, que vitimou dezenas de milhar de pessoas, inspirou Cabral a escrever o seu primeiro conto, “Fidemar”. Neste conto revelava o desejo de partir e voltar para libertar o seu pais. A história acabava de forma trágica com o salvador da pátria a morrer afogado numa batalha naval.

Não apenas a escrita e as preocupações sociais ocupavam o jovem Cabral. Amante de Futebol, em S. Vicente, Amílcar foi secretário do “Boavista Futebol Clube” entre 1944-45. Manuel Alegre recorda: “Ele era um homem com um grande sentido de humor, ele dizia que o seu desejo maior era ter sido ponta esquerda do Benfica ou chefe de uma orquestra do morro, mas que as circunstâncias o tinham transformado enfim no dirigente da luta armada”.

Chegada a Lisboa num momento turbulento

Após terminar o liceu em São Vicente, Amílcar Cabral obtém uma bolsa de estudo da Casa dos Estudantes do Império e inicia os seus estudos universitários em Lisboa no Instituto Superior de Agronomia.

A guerra tinha acabado pouco antes na Europa quando Cabral, então com 21 anos, desembarcou no Cais de Alcântara no Outono de 1945. O Portugal ao qual o jovem africano chega atravessa um momento de agitação sócio-laboral sem precedentes no Estado Novo. A derrota do nazismo alimenta as esperanças da oposição portuguesa de que ventos de mudança cheguem ao país.

No Instituto de Agronomia distingue-se como aluno e jogador exímio de futebol. O Benfica chegaria a convidá-lo para jogar no clube. Nos tempos livres o jovem caloiro dá aulas nocturnas de alfabetização aos operários de Alcântara.

"Lutei pela Pátria portuguesa sem ser português"

Os interesses do jovem Cabral iam muito para além da Agronomia e do futebol. Nos seus anos em Lisboa destaca-se pelas actividades políticas e culturais desenvolvidas na Casa de África, na Casa dos Estudantes do Império - da qual foi vice-presidente entre 1950 e 1951- e no Centro de Estudos Africanos. Cabral dirá: “Eu fui fiel à Pátria portuguesa lutando ao lado do povo português contra o salazarismo. Cantando nas ruas de Lisboa, abrindo brechas entre a polícia, na Rua Augusta, aquando da eleição de Humberto Delgado. “Lutei pela Pátria portuguesa sem ser português.”

Apresenta a tese de final de curso, em 1952, sobre a erosão dos solos agrícolas, a partir de uma investigação no concelho de Cuba (no Alentejo). Nesse mesmo ano regressa à Guiné, assumindo o cargo de Director do Posto Agrícola Experimental de Pessubé, em Bissau.

Enquanto procede, acompanhado pela mulher, ao recenseamento agrícola da Guiné, Cabral já adquirira uma longa aprendizagem sobre o que faziam as organizações nacionalistas e cívicas de Angola, já se relacionara com Lúcio Lara, Mário de Alcântara Monteiro e Viriato da Cruz, entre outros. Dirá mais tarde que a sua ida para a Guiné tinha sido programada já com a ideia de fazer alguma coisa, de dar uma contribuição para levantar o povo contra os tugas. Amílcar Cabral sabia muito pouco sobre a Guiné, foi o recenseamento agrícola que lhe deu a conhecer em grande profundidade a realidade local: 99.7% da população não gozava na plenitude dos direitos civis e políticos.

Face ao seu envolvimento nos movimentos anti-colonialistas em 1955 é aconselhado a abandonar a Guiné. Regressa à metrópole e até final de 1959, reside em Lisboa, desempenhando contudo um conjunto de actividades em Angola, nomeadamente participando na formação do MPLA. Continue lendo aqui.

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