Fiquei tentado a escrever o meu pensamento sobre a primeira greve dos médicos, mas achei por bem abdicar desse direito de emitir opinião.
Mas antes permitam-me recorrer a algumas estrofes de uma música do falecido músico Joaquim Macuácua que dizem: “filha! Dizes que amas um doutor? Havemos de comer bisturis, ligaduras e doentes aqui em casa! Vá amar o trabalhador das minas da África do Sul para trazeres pão de forma, capulanas e outros bens; vá amar o padeiro para trazeres pão aqui para casa ou então vá amar um velho branco para trazeres sacos de arroz, açúcar e outros bens para casa”. Esta é a tradução livre da letra da música de changana para português. Pretendo com isso é que entendam a mensagem.
Ora, esta música foi interpretada por aquele músico moçambicano há muitos anos e fez sucesso. Contudo, a sociedade e os governantes, em particular, nunca reflectiram sobre o seu alcance. Joaquim Macuácua não era nenhum médico, como é óbvio, no entanto olhava para a sociedade de forma crítica e através da sátira procurava chamar atenção sobre algumas injustiças cometidas à classe médica, tão importante para a nossa vida que, no entanto, era negligenciada! Hoje, infelizmente, a abordagem aos problemas desta classe continua negligenciada, provavelmente porque não haja clareza sobre a colocação institucional. Esclareçam-me quem deve resolver o problema levantado pelos médicos? A Saúde? Função Pública? Ministério das Finanças? Ordem dos Médicos? Sim, refiro-me à Ordem dos Médicos no sentido de estabelecer diferentes categorias dentro da mesma classe. Continuamos a lidar com esta classe como se procurássemos determinar o salário mínimo. Isso é um erro crasso!
Os próprios médicos, provavelmente, não estão claros quanto as suas pretensões. Se estão claros, no mínimo podem não saber como alcançar esse objectivo. E cito o que oiço: “exigimos aumento em 100 por cento”. Este aumento incide sobre o salário de que médico? Aquele acabado de se licenciar? Aquele que fez alguns anos de carreira afecto num distrito? Qual deles? É aqui, na minha opinião, que a Ordem dos Médicos é chamada a intervir se quisermos resolver este problema em definitivo. Esta organização profissional é chamada a dar o seu contributo para que se encontre uma saída para o problema dos médicos, ou então, havendo um gestor de Recursos Humanos capacitado para lidar com estas matérias dentro do MISAU poderá contribuir, sem no entanto prescindir da intervenção da Ordem dos Médicos, da própria Associação dos Médicos de Moçambique, pelo que a simples intervenção do director da Área de Finanças não é, em minha opinião, suficiente. Os médicos devem saber que os seus salários provêm do Orçamento do Estado aprovado pela Assembleia da República, não é por aí que devemos enveredar, vamos concentrar pessoas que possam ajudar a sair desta situação e todos somos poucos para evitar o colapso.
Quando olho para as reacções em torno da convocação da greve quer da sociedade, quer dos governantes, sinto que o elemento humano do pessoal da saúde é demasiadamente descurado. Descura-se a ideia de que o médico entra no mesmo supermercado, na mesma boutique, na mesma sapataria, na mesma loja de brinquedos para os filhos, na mesma loja de electrodomésticos, ou seja, não existe em Moçambique uma loja que atenda o pessoal da Saúde. Isto pode parecer demagogia mas, no fundo, é aquilo que não estamos a compreender como sociedade sobre o “grito” dos médicos ou pessoal da Saúde, que são marido, pai, avó, filho, esposa com obrigações inerentes a essa categoria social. Dispamos os complexos e desconfianças e enfrentemos o problema com realismo.
É bom que fique claro que os médicos, igualmente, precisam de muita reflexão. Por exemplo, sobre a obrigatoriedade de prestar serviço público. Penso que é o mínimo quando se é formado por uma instituição pública, ou então não concorra, porque de contrário deve saber que terá obrigações também. E aqui se calhar questiona-se: os formados em Direito e Engenharia qual é a contrapartida que oferecem ao Estado? Os informáticos e outras especialidades não terão eles obrigação para com o Estado?! Notícias
- Adelino Buque
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