Agradeço, em primeiro lugar, pela publicação deste artigo no jornal sob vossa direcção. A proliferação dos meios de comunicação permite hoje que qualquer indivíduo (desde que saiba ler e escrever) possa receber e divulgar informação pelos diferentes canais, o que até aí é uma das conquistas inestimáveis da nossa geração (não no sentido politicamente moçambicano concebido).
Contudo, é comum visualizarem-se anúncios em cartazes, jornais e outros meios com estampas de capa “doutor x cura qualquer doença” espalhados pelos espaços públicos urbanos e não só.
O que chama atenção e começa a preocupar os demais cidadãos é o facto de aparecerem outros cidadãos aparentemente dotados de poderes misteriosos que, supostamente, curam qualquer doença. Até este ponto também não vejo grande problema, estamos em África e aqui este tipo de entes não constitui lá grande surpresa, visto que desempenham um papel extremamente importante na hierarquia da quase totalidade das manifestações étnico-culturais dos povos africanos desde os tempos remotos. Aliás, todo tipo de colectividade, independentemente da sua raça, possui um sistema próprio de signos que a caracteriza, embora as suas manifestações não sejam homogéneas.
O Estado moçambicano, através da Constituição da República de 2004, preconiza o pluralismo cultural que inclui o reconhecimento e valorização das formas culturais de resolução de conflitos, desde que não choquem com as demais leis. Aparecer certo curandeiro a dizer que cura certa doença sem solução médica convencional até que é bom, quem sabe não seria a solução para o descongestionamento do Serviço Nacional de Saúde, a ser reconhecida tal habilidade. O que me inquieta é o facto de afirmações desta natureza (a de cura de doenças sem solução médica convencional) nem sempre serem verdadeiras, apesar de haver crença de que isso seja real, escassas são as provas da efectivação desses casos (possivelmente existam). Isto pode não ser o principal problema, na medida em que muitos cidadãos, de tanto estarem cansados de despender elevadas somas de dinheiro com tratamentos médicos sem sucesso, acabam recorrendo a esses curandeiros.
Não pretendo de modo algum desacreditar por completo esta camada social, a dos curandeiros, mas trazer à tona a falsidade de alguns que justamente são os que, na maior parte das vezes, usam os meios de informação como jornais e outros para aldrabar a sociedade. Estes, sim, chocam com o princípio constitucional na medida em que a sua maneira de actuação conota-os como burladores e profanadores de falsos poderes, sob olhar impávido das autoridades competentes, que deixam o povo ser enganado abertamente. Enganado sim. Quando alguém escreve e publica que tem poderes de fazer ganhar disputa judicial, faz não ser descoberto pela Polícia, faz ser promovido no serviço, etc., ele está a dizer que alimenta criminosos e os faz saírem impunes caso sejam neutralizados e um dos causadores da ineficiência dos serviços porque faz promover indivíduos incompetentes desde que procurem o seu serviço. A ser verdade temos aqui uma resposta do porquê da Polícia e da justiça nunca conseguirem esclarecer os casos criminais sob sua alçada. Não será este o momento das autoridades apertarem o cerco a estes “curandeiros”? Poderes dessa natureza podem derrubar qualquer estrutura judicial e comprometer um Estado todo.
Dos poderes mais banais ou inéditos está um que certamente esclarece o teor enganoso dos anúncios destes “doutores”, um deles proclama: “faz fazer mestrado em seis meses”. Ora! Com tal poder já não seria importante a existência de universidades ou seu papel seria meramente indiferente. Portanto, está na hora de as autoridades competentes imporem limites aos conteúdos a serem publicados nos jornais ou outros meios de comunicação sobre os serviços dos “doutores” curandeiros antes que a situação esteja fora de controlo e mais cidadãos estejam a ser ludibriados aos olhos de todos.Definir e institucionalizar regras que permitam que estes nossos compatriotas não nos enganem nos seus folhetos publicitários com poderes falsos ou promíscuos. É chegada a hora das entidades governamentais competentes regularem e controlarem os “cura tudo” com recurso à Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique (AMETRAMO), acção que, na minha opinião, devia ser parte integrante das actividades constantes desta agremiação. Notícias
- Osvaldo David Agostinho
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