sexta-feira, 21 de junho de 2013

EDITORIAL

MOÇAMBIQUE tem vindo a dar, nos últimos tempos, sinais consistentes de crescimento económico e de democratização das relações no seu espaço político e social.

Não há dúvidas que se trata de fenómenos que, de uma forma ou de outra, propiciam o surgimento ou o aprofundamento das sempre inevitáveis diferenças de pontos de vista entre grupos e cidadãos.
As diferenças em si não são um problema. Pelo menos não o deviam ser. Pelo contrário, a diferença numa sociedade democrática funciona como um motor dialéctico através do qual se aprimora o objectivo comum que é a construção duma sociedade cada vez melhor para todos.
As últimas semanas são particularmente ricas em episódios de diálogo e alguma tensão social no país. Temos o diálogo político, envolvendo o Governo e a Renamo, e tivemos a greve geral no sector da Saúde. Estes dois fenómenos permitem-nos já tirar algumas lições.
Sobre o diálogo Governo-Renamo: seria desejável que os encontros tivessem como pretensão final a satisfação dos interesses nacionais e não de um partido ou movimento. Os interesses dos partidos ou movimentos devem ser apenas o detalhe da questão e não a essência. De outro modo, é colocar todos os cidadãos reféns de um grupo.
Por isso, registamos com receios o último ataque ao paiol em Savane, no distrito de Dondo. Por enquanto subscrevemos que a Renamo fica suspeita face às ameaças que vem proferindo ao longo dos últimos tempos, os antecedentes de Muxungué e de outros locais e tentativas de concentração de homens armados em vários locais.
A confirmar-se essa suspeita, esta seria uma lição profunda de como não se faz um diálogo. Esta de atacar quartéis e paióis é uma forma perigosa de fazer pressão. Isto pode esquentar as cabeças do outro lado do diálogo, desencadeando-se, a partir dai, uma instabilidade generalizada. Esta é seguramente uma forma que transmite a ideia de que não há honestidade na intenção de diálogo, mas sim distracção enquanto se põem em movimento acções de destabilização do processo eleitoral como a Renamo sempre ameaçou fazê-lo.
Na quarta-feira, a Renamo veio com declarações dramáticas e contraditórias confirmando esta pretensão de bloquear tudo, incluindo a vida civil, ameaçando paralisar a circulação rodoviária na estrada nacional nº1 e de comboios na linha de Sena. 
A contradição é simplesmente incrível. Por um lado, a Renamo diz que não atacou o paiol de Savane porque é defensora da paz, mas confirma que atacou o quartel da FIR. Pior ainda que impediria a circulação de viaturas civis na única via rodoviária que liga o país do norte a sul.
Alguns cidadãos perguntam: como se impede pacificamente a vida dos cidadãos com ameaça do uso de armas? Que amante da paz é esse? Que métodos pacíficos são esses?
Será que há vontade política de dialogar ou o objectivo continua a ser o de resolver questões individuais das lideranças da Renamo e dos seus homens?
Ainda bem que o Governo tranquiliza, dizendo que os acontecimentos de Savane não vão condicionar o diálogo em curso, não obstante a sua gravidade. Defendemos efectivamente que é este o espírito que deve prevalecer.
Sobre a greve dos médicos: dissemos anteriormente que mais do que dialogar é preciso aprofundar as formas e a qualidade do diálogo. Com efeito, uma das formas para garantir a qualidade do diálogo é a comunicação. Uma lição a tirar neste processo é o sentimento que temos de que nalgum momento, o processo comunicacional não fluiu convenientemente com os médicos, gerando-se assim ruídos causados pela assimetria de informação. Isto de algum modo, terá criado num dos lados a sensação de que o diálogo estava a decorrer intermediado pelos media.
A segunda lição é a forma como as organizações profissionais se situam nas suas reivindicações e na forma como o fazem. A greve é assim um direito constitucional, mas ela não é um vale tudo. Não se pode pedir à priori, o que se sabe que o outro não vai dar. Pedir aumento de 100 por cento do salário não é começar um diálogo. Não fazer serviços mínimos nas unidades sanitárias é não olhar para os limites de uma greve. Pior ainda, declarar uma paralisação por tempo indeterminado. É pouca a probabilidade de um diálogo bem sucedido nessas circunstâncias.
Por isso, acreditamos que o desafio que se coloca face às diferenças é a necessidade de um diálogo social permanente. É conseguirmos construir em cada momento, mais consensos através da melhor das formas e da qualidade do diálogo social a fim de não agudizar as nossas diferenças e os conflitos latentes. Notícias

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