O soberano precisava eliminar toda ameaça, preferindo ser temido do
que amado, este é um dos pensamentos do Nicolau Maquiavel, político e
escritor florentino (italiano), que morreu a 22 de Junho de 1527. O
autor do clássico “O Príncipe” afirmava que o rei deveria ter a astúcia
da raposa e a coragem do leão e ser dissimulado, se a segurança do
Estado exigisse. Eis excertos da obra, que consagra o nascimento do
Estado moderno, um dos escritos mais lidos e estudados:
AO MAGNÍFICO LOURENÇO,
FILHO DE PIERO DE MÉDICE
Os
que desejam agradar a um príncipe costumam, na maioria das vezes,
dar-lhe presentes que lhes são caros, ou com os quais se deleitam. Desse
modo, recebem eles cavalos, armas, tecidos de ouro, pedras preciosas e
demais ornamentos, todos à altura de sua grandeza. Quanto a mim,
malgrado meu desejo de oferecer a Vossa Magnificência uma prova de meu
dever, não encontrei, em meu cabedal, coisa alguma que considere
suficientemente cara ou que estime tanto quanto o conhecimento dos atos
dos grandes homens, o qual aprendi na extensa experiência da realidade
actual e na lição ensinada pela antiga. Assim, depois de reflectir
durante muito tempo, avaliando-o com extremo cuidado, envio-o a Vossa
Magnificência, resumido num pequeno volume.
Embora julgue este
trabalho indigno da atenção de Vossa Magnificência, confio, em função de
sua humanidade, seja ele aceito, uma vez que não lhe posso dar maior
presente do que a capacidade de aprender, muito brevemente, tudo o que,
durante tantos anos, com tantos transtornos e riscos, pude conhecer. Não
enfeitei esta obra nem busquei recheá-la de frases sonoras, termos
pomposos, adornos, lisonjas ou floreios de estilo, recursos a que
recorrem comumente os que desejam descrever ou embelezar as próprias
obras. Não permiti que nada a tornasse agradável senão a profundidade e a
diversidade do assunto mesmo. Tampouco deve ser julgada pretensão de um
homem de condição social humilde e ínfera o acto de discorrer e
estabelecer regras acerca do governo dos príncipes; pois, assim como
aqueles que traçam os contornos dos países põem-se na planície a fim de
avaliar a natureza das montanhas, e para examinar a da planície vão ao
topo delas, assim também para conhecer a natureza dos povos é mister ser
príncipe, e para conhecer a dos príncipes é mister ser povo.
Desse
modo, aceite Vossa Magnificência este singelo presente com o propósito
com que o envio. Caso este trabalho seja aceite e lido, Vossa
Magnificência saberá que meu desejo é vê-lo atingir a grandeza que a
Fortuna e outros atributos anunciam. Se, do alto da sua estatura, Vossa
Magnificência voltar para baixo o olhar, entenderá quanto suporto, sem
motivo, uma enorme e seguida má sorte.
CAPÍTULO I
De Quantas Espécies São Os Principados e Quantos São os Modos Pelos Quais Se Conquistam.
Todos
os Estados, os domínios todos que já houve e que ainda há sobre os
homens foram, e são, repúblicas ou principados. Os principados ou são
hereditários, e têm como senhor um príncipe pelo sangue, por longa data,
ou são novos. Os novos são inteiramente novos, como o é o de Milão com
Francesco Sforza, ou são como membros juntados a um Estado adquirido,
por herança, por um príncipe, como é assim o reino de Nápoles ao rei da
Espanha. Domínios assim recebidos são ou acostumados à sujeição a um
príncipe ou livres, e adquiridos com tropas alheias ou próprias, pela
fortuna ou pelo mérito.
CAPÍTULO XVII
Da Crueldade e da Piedade – Se é Melhor Ser Amado ou Temido
Continuando
na apresentação das qualidades mencionadas, digo que cada príncipe deve
preferir ser reputado piedoso e não cruel; a despeito disso, deve
cuidar de empregar adequadamente essa piedade. César Bórgia, embora tido
como cruel, conseguiu, com sua crueldade, reerguer a Roma, unificá-la e
guiá-la à paz e à fé. O que, bem analisado, demonstrará que ele foi
mais piedoso do que o povo fiorentino, o qual, para fugir à fama de
cruel, permitiu a destruição de Pistóia. Ao príncipe, assim, não deve
importar a pecha de cruel para manter unidos e com fé os seus súbditos,
pois, com algumas excepções, é ele mais piedoso do que aqueles que, por
clemência ou demasia, permitem o surgimento de desordens, das quais
podem originar-se assassínios ou rapinagem. Tais consequências são
nocivas ao povo inteiro, e as execuções que vêm do príncipe ofendem
somente um indivíduo. E, dentre todos os príncipes, são os novos os que
menos podem evitar a fama de cruéis, uma vez que os Estados novos estão
cheios de perigo. Diz Virgílio, pela boca de Dido: Res dura, et regni
novitas me talia cogunt/Moliri, et late fines custode tueri.
Desse
modo, o príncipe não deve ser crédulo nem precipitado, nem
atemorizar-se, e sim proceder com equilíbrio, prudência e humanidade,
para que o excesso de confiança não o torne incauto, nem a desconfiança
excessiva o faça intolerável.
Origina-se aí a questão aqui discutida:
se é preferível ser amado ou ser temido. Responder-se-á que se
preferiria uma e outra coisa; porém, como é difícil unir, a um só tempo,
as qualidades que promovem aqueles resultados, é muito mais seguro ser
temido do que amado, quando se veja obrigado a falhar numa das duas. Os
homens costumam ser ingratos, volúveis, dissimulados, covardes e
ambiciosos de dinheiro; enquanto lhes proporcionas benefícios, todos
estão contigo, oferecem-te sangue, bens, vida, filhos, como se disse
antes, desde que a necessidade dessas coisas esteja bem distante.
Todavia, quando ela se aproxima, voltam-se para outra parte. Quanto ao
príncipe, caso se tenha fiado integralmente em palavras e não haja
tomado outras precauções, está arruinado. Porque, quando se fazem
amizades por interesse, não por grandeza ou nobreza de carácter, são
compradas, e não se podem contar com elas nos momentos de maior
precisão. E os homens relutam menos em ofender aos que se fazem amar do
que aos que se fazem temer, pois o amor se mantém por um vínculo de
obrigação, o qual, mercê da perfídia humana, rompe-se sempre que lhes
aprouver, enquanto o medo que se incute é alimentado pelo temor do
castigo, sentimento que nunca os abandona. Assim, deve o príncipe
tornar-se temido, de sorte que, se não for amado, ao menos evite o ódio,
pois é fácil ser, a um só tempo, temido e não odiado, o que ocorrerá
uma vez que se prive dos bens e das mulheres dos cidadãos e dos
súbditos, e, mesmo quanto forçado a derramar o sangue de alguém, poderá
fazê-lo se houver justificativa apropriada e causa manifesta. Deve, em
especial, impedir-se de aproveitar os bens alheios, uma vez que os
homens se esquecem mais rapidamente da morte do pai do que da perda de
património. Ademais, nunca faltam ocasiões para pilhar o que a outros
pertence, e quem começa vivendo de rapinagens sempre as encontra, o que
já não acontece quanto às oportunidades de derramar sangue.
Quando,
porém, está o príncipe em campanha e tem sob seu comando um grande
número de soldados, então é absolutamente preciso não se incomodar com a
fama de cruel, pois, sem ela, jamais se terá como manter unido um
exército, disposto a qualquer acção. Entre as admiráveis nações de
Aníbal, há esta: contava com um exército numeroso, formado por homens de
todas as idades e nacionalidades, e combatia em terras alheias; e ainda
assim nunca apareceu disputa alguma em seu seio, nem naquilo que diz
respeito ao príncipe, tanto nos tempos bons quanto nos adversos. Não se
pode atribuir tal facto senão à sua desumana crueldade, que, em meio a
infinitas virtudes, o fez sempre adorado e terrível aos olhos de seus
soldados. Essas virtudes, sozinhas, não seriam suficientes para promover
tal efeito, não fora a desumana crueldade. E, entre cronistas pouco
comedidos, alguns se satisfazem com admirar e louvar essa qualidade,
enquanto outros reputam a ela todos os triunfos que ele conseguiu. E
para demonstrar que, sozinhas, não seriam suficientes para promover tal
efeito, não fora a desumana crueldade. E para demonstrar que, sozinhas,
as outras virtudes não bastariam, veja-se o exemplo de Cipião, homem
excepcional, não somente em sua época como também na memória dos fatos
que a história regista, cujos exércitos se rebelaram quando na Espanha; e
isso se explica por sua bondade excessiva, por meio da qual concedeu
mais liberdade, às tropas, do que seria conveniente à disciplina
militar. Por esse motivo, foi severamente admoestado, no Senado, por
Fábio Máximo, que o acusou de corruptor da milícia romana. Os locrenses,
barbaramente abatidos por um legado de Cipião, não foram vingados pelo
chefe romano, nem foi a insolência de tal legado castigada, factos
decorrentes do carácter bondoso de Cipião. E, desejando alguém
desculpá-lo no Senado, disse haver muitos homens que sabiam antes não
errar do que corrigir os erros alheios. Essa particularidade de carácter
teria, no decorrer dos anos, destruído a reputação e a glória de
Cipião, caso tivesse ele permanecido no comando; vivendo, contudo, sob a
direcção do Senado, essa qualidade prejudicial não foi anulada como se
tornou benéfica.
Concluo, portanto (voltando ao assunto sobre se é
melhor ser temido ou amado), que um príncipe sábio, amando os homens
como desejam eles ser amados, e sendo temido pelos homens como deseja
ele ser temido, deve ter como base aquilo que é seu, não dos outros.
Enfim, deve somente procurar evitar ser odiado, como ficou dito. Diário de Moçambique
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