segunda-feira, 24 de junho de 2013

Morte de Nicolau Maquiavel autor da obra “O Príncipe”

O soberano precisava eliminar toda ameaça, preferindo ser temido do que amado, este é um dos pensamentos do Nicolau Maquiavel, político e escritor florentino (italiano), que morreu a 22 de Junho de 1527. O autor do clássico “O Príncipe” afirmava que o rei deveria ter a astúcia da raposa e a coragem do leão e ser dissimulado, se a segurança do Estado exigisse. Eis excertos da obra, que consagra o nascimento do Estado moderno, um dos escritos mais lidos e estudados:

AO MAGNÍFICO LOURENÇO,
FILHO DE PIERO DE MÉDICE

Os que desejam agradar a um príncipe costumam, na maioria das vezes, dar-lhe presentes que lhes são caros, ou com os quais se deleitam. Desse modo, recebem eles cavalos, armas, tecidos de ouro, pedras preciosas e demais ornamentos, todos à altura de sua grandeza. Quanto a mim, malgrado meu desejo de oferecer a Vossa Magnificência uma prova de meu dever, não encontrei, em meu cabedal, coisa alguma que considere suficientemente cara ou que estime tanto quanto o conhecimento dos atos dos grandes homens, o qual aprendi na extensa experiência da realidade actual e na lição ensinada pela antiga. Assim, depois de reflectir durante muito tempo, avaliando-o com extremo cuidado, envio-o a Vossa Magnificência, resumido num pequeno volume.
Embora julgue este trabalho indigno da atenção de Vossa Magnificência, confio, em função de sua humanidade, seja ele aceito, uma vez que não lhe posso dar maior presente do que a capacidade de aprender, muito brevemente, tudo o que, durante tantos anos, com tantos transtornos e riscos, pude conhecer. Não enfeitei esta obra nem busquei recheá-la de frases sonoras, termos pomposos, adornos, lisonjas ou floreios de estilo, recursos a que recorrem comumente os que desejam descrever ou embelezar as próprias obras. Não permiti que nada a tornasse agradável senão a profundidade e a diversidade do assunto mesmo. Tampouco deve ser julgada pretensão de um homem de condição social humilde e ínfera o acto de discorrer e estabelecer regras acerca do governo dos príncipes; pois, assim como aqueles que traçam os contornos dos países põem-se na planície a fim de avaliar a natureza das montanhas, e para examinar a da planície vão ao topo delas, assim também para conhecer a natureza dos povos é mister ser príncipe, e para conhecer a dos príncipes é mister ser povo.
Desse modo, aceite Vossa Magnificência este singelo presente com o propósito com que o envio. Caso este trabalho seja aceite e lido, Vossa Magnificência saberá que meu desejo é vê-lo atingir a grandeza que a Fortuna e outros atributos anunciam. Se, do alto da sua estatura, Vossa Magnificência voltar para baixo o olhar, entenderá quanto suporto, sem motivo, uma enorme e seguida má sorte.

CAPÍTULO I

De Quantas Espécies São Os Principados e Quantos São os Modos Pelos Quais Se Conquistam.
Todos os Estados, os domínios todos que já houve e que ainda há sobre os homens foram, e são, repúblicas ou principados. Os principados ou são hereditários, e têm como senhor um príncipe pelo sangue, por longa data, ou são novos. Os novos são inteiramente novos, como o é o de Milão com Francesco Sforza, ou são como membros juntados a um Estado adquirido, por herança, por um príncipe, como é assim o reino de Nápoles ao rei da Espanha. Domínios assim recebidos são ou acostumados à sujeição a um príncipe ou livres, e adquiridos com tropas alheias ou próprias, pela fortuna ou pelo mérito.

CAPÍTULO XVII
Da Crueldade e da Piedade – Se é Melhor Ser Amado ou Temido

Continuando na apresentação das qualidades mencionadas, digo que cada príncipe deve preferir ser reputado piedoso e não cruel; a despeito disso, deve cuidar de empregar adequadamente essa piedade. César Bórgia, embora tido como cruel, conseguiu, com sua crueldade, reerguer a Roma, unificá-la e guiá-la à paz e à fé. O que, bem analisado, demonstrará que ele foi mais piedoso do que o povo fiorentino, o qual, para fugir à fama de cruel, permitiu a destruição de Pistóia. Ao príncipe, assim, não deve importar a pecha de cruel para manter unidos e com fé os seus súbditos, pois, com algumas excepções, é ele mais piedoso do que aqueles que, por clemência ou demasia, permitem o surgimento de desordens, das quais podem originar-se assassínios ou rapinagem. Tais consequências são nocivas ao povo inteiro, e as execuções que vêm do príncipe ofendem somente um indivíduo. E, dentre todos os príncipes, são os novos os que menos podem evitar a fama de cruéis, uma vez que os Estados novos estão cheios de perigo. Diz Virgílio, pela boca de Dido: Res dura, et regni novitas me talia cogunt/Moliri, et late fines custode tueri.
Desse modo, o príncipe não deve ser crédulo nem precipitado, nem atemorizar-se, e sim proceder com equilíbrio, prudência e humanidade, para que o excesso de confiança não o torne incauto, nem a desconfiança excessiva o faça intolerável.
Origina-se aí a questão aqui discutida: se é preferível ser amado ou ser temido. Responder-se-á que se preferiria uma e outra coisa; porém, como é difícil unir, a um só tempo, as qualidades que promovem aqueles resultados, é muito mais seguro ser temido do que amado, quando se veja obrigado a falhar numa das duas. Os homens costumam ser ingratos, volúveis, dissimulados, covardes e ambiciosos de dinheiro; enquanto lhes proporcionas benefícios, todos estão contigo, oferecem-te sangue, bens, vida, filhos, como se disse antes, desde que a necessidade dessas coisas esteja bem distante. Todavia, quando ela se aproxima, voltam-se para outra parte. Quanto ao príncipe, caso se tenha fiado integralmente em palavras e não haja tomado outras precauções, está arruinado. Porque, quando se fazem amizades por interesse, não por grandeza ou nobreza de carácter, são compradas, e não se podem contar com elas nos momentos de maior precisão. E os homens relutam menos em ofender aos que se fazem amar do que aos que se fazem temer, pois o amor se mantém por um vínculo de obrigação, o qual, mercê da perfídia humana, rompe-se sempre que lhes aprouver, enquanto o medo que se incute é alimentado pelo temor do castigo, sentimento que nunca os abandona. Assim, deve o príncipe tornar-se temido, de sorte que, se não for amado, ao menos evite o ódio, pois é fácil ser, a um só tempo, temido e não odiado, o que ocorrerá uma vez que se prive dos bens e das mulheres dos cidadãos e dos súbditos, e, mesmo quanto forçado a derramar o sangue de alguém, poderá fazê-lo se houver justificativa apropriada e causa manifesta. Deve, em especial, impedir-se de aproveitar os bens alheios, uma vez que os homens se esquecem mais rapidamente da morte do pai do que da perda de património. Ademais, nunca faltam ocasiões para pilhar o que a outros pertence, e quem começa vivendo de rapinagens sempre as encontra, o que já não acontece quanto às oportunidades de derramar sangue.
Quando, porém, está o príncipe em campanha e tem sob seu comando um grande número de soldados, então é absolutamente preciso não se incomodar com a fama de cruel, pois, sem ela, jamais se terá como manter unido um exército, disposto a qualquer acção. Entre as admiráveis nações de Aníbal, há esta: contava com um exército numeroso, formado por homens de todas as idades e nacionalidades, e combatia em terras alheias; e ainda assim nunca apareceu disputa alguma em seu seio, nem naquilo que diz respeito ao príncipe, tanto nos tempos bons quanto nos adversos. Não se pode atribuir tal facto senão à sua desumana crueldade, que, em meio a infinitas virtudes, o fez sempre adorado e terrível aos olhos de seus soldados. Essas virtudes, sozinhas, não seriam suficientes para promover tal efeito, não fora a desumana crueldade. E, entre cronistas pouco comedidos, alguns se satisfazem com admirar e louvar essa qualidade, enquanto outros reputam a ela todos os triunfos que ele conseguiu. E para demonstrar que, sozinhas, não seriam suficientes para promover tal efeito, não fora a desumana crueldade. E para demonstrar que, sozinhas, as outras virtudes não bastariam, veja-se o exemplo de Cipião, homem excepcional, não somente em sua época como também na memória dos fatos que a história regista, cujos exércitos se rebelaram quando na Espanha; e isso se explica por sua bondade excessiva, por meio da qual concedeu mais liberdade, às tropas, do que seria conveniente à disciplina militar. Por esse motivo, foi severamente admoestado, no Senado, por Fábio Máximo, que o acusou de corruptor da milícia romana. Os locrenses, barbaramente abatidos por um legado de Cipião, não foram vingados pelo chefe romano, nem foi a insolência de tal legado castigada, factos decorrentes do carácter bondoso de Cipião. E, desejando alguém desculpá-lo no Senado, disse haver muitos homens que sabiam antes não errar do que corrigir os erros alheios. Essa particularidade de carácter teria, no decorrer dos anos, destruído a reputação e a glória de Cipião, caso tivesse ele permanecido no comando; vivendo, contudo, sob a direcção do Senado, essa qualidade prejudicial não foi anulada como se tornou benéfica.
Concluo, portanto (voltando ao assunto sobre se é melhor ser temido ou amado), que um príncipe sábio, amando os homens como desejam eles ser amados, e sendo temido pelos homens como deseja ele ser temido, deve ter como base aquilo que é seu, não dos outros. Enfim, deve somente procurar evitar ser odiado, como ficou dito. Diário de Moçambique

Sem comentários:

Enviar um comentário