quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ninguém morreu, (só) morreram machopes na verborreia arrogante e astuta da palavra

«Ninguém morreu, (só) morreram machopes». Quem se lembra desta proposição? Com as mortes que se vão repetindo, recordei-me dela. Considero-a hoje, já adulto, uma piada lourenço- marquina de mau gosto.
Caracterizou, todavia, um certo ambiente social vivido na cidade de Maputo e periferia, mais tarde contestada publicamente, através da canção «Duvula mpfilumpfilu» – disparar para destruir/combater a desordem instalada.
Após a morte de mais de 40 pessoas em conexão com as manifestações lideradas pela Renamo, a maioria das quais em Montepuez, uma figura sobejamente conhecida foi citada a afirmar que o luto nacional, observado no dia 13 de Novembro de 2000, era uma homenagem aos seis polícias mortos (…)
Estava aí feita a destrinça. Outra declaração, da mesma voz, foi feita em Abril deste ano, segundo a qual o assassinato de três civis em Muxúnguè, Sofala, não tinha passado de um (simples) incidente.
Quanto aos polícias abatidos no seu posto em Muxúnguè, as perdas eram assim legitimadas: «Tinha conhecimento e autorizei». E mais: «Não posso esconder, eu disse-lhes: ‘arranjem-se, desenrasquem-se, vocês fizeram a guerra, sabem onde apanhar armas, defendam-se’, e no dia seguinte responderam».
E responder significava invadir posto de uma autoridade pública e matar agentes da FIR, os quais, na minha opinião, nada mais tinham feito, senão cumprir o seu dever policial sem provocar, antes e contrariamente, nenhuma morte.
Pareceu-me que essa voz tivesse sido aplaudida. Engoli em seco mais uma declaração que me recordou o que escrevo em língua bantu que vou aprendendo (a ler e escrever) e, por isso, corro o risco de cometer erros: «A ku fanga munhu, ku’o fa vatxope» – Ninguém morreu, (só) morreram machopes.
Outros vatxope, nessa analogia, voltaram a morrer perto do rio Ripembe, em Machanga,  após ataque ao paiol das FADM, na Milha 23, em Savane, Dondo, com balanço de seis vítimas fatais.  Até ao dia em que escrevi este artigo, as oito mortes, no total, não tinham sido reivindicadas. Mas de outras vozes ouvi e fiquei confuso, se não seria uma antecipada desculpabilização/ilibação.   
Pelo menos 16 vítimas mortais foram registadas em Sofala desde Abril, parte das quais reivindicadas sem quaisquer sinais de remorsos, em conferência de imprensa, em Sadjunjira, Gorongosa, no mês da mulher moçambicana, incluindo a da moçambicana que tudo fazia para custear estudos universitários de seu filho e sustentar toda a sua família com viagens Maputo – Quelimane e vice-versa.
Que pecado os tais machopes teriam cometido, para que uma testemunha ocular do acidente declarasse: «A ku fanga munhu, ku’o fa vatxope»? E que pecado teriam cometido os civis, militares e polícias, a quem atribuo também a designação de machopes, mortos em Muxúnguè, Milha 23 e perto do rio Ripembe, em Machanga?
Vatxope, para a história, era a mão-de-obra usada pela Câmara Municipal de Lourenço Marques (CMLM) nos serviços de limpeza da cidade, incluindo subúrbios, onde em vez de latrinas se usam baldes para o que se pode imaginar.
E a sigla CMLM acabou tendo outra decifração: Coitado(s) do(s) Machope(s) que Limpa(m) M…
Li sobre os “coitados” mais tarde, em crónica, mas a piada da decifração era do domínio público. Se não estiver a fazer atribuição indevida, o autor da crónica integrou os quadros da revista Tempo e do “Diário de Moçambique”, no período pós-independência.
Não se dava valor a vatxope, apesar de desempenharem uma tarefa sem a qual em Lourenço Marques teriam morrido de cólera e outras doenças afins muitas pessoas, quando de higiene se fala. Por analogia, ninguém valoriza a vida humana, de civis, polícias e militares assassinados.
No paiol, mais do que mortes, foi enaltecida a ocorrência do roubo de armas e munições e em Muxúnguè, falou-se de um incidente, em conferência de imprensa, e com astúcia se pode ter festejado em outros meios a morte de agentes da FIR, com referências de se tratar de polícias jovens (apesar de entre os mortos constar quem tivesse mais de 40 anos) e mal treinados, enfim, incapazes de fazer frente a guerrilheiros bem treinados, prontos para a guerra 20 anos depois da assinatura do AGP.
Só resta saber o que aconteceu perto do rio Ripembe. Mas, ao que tudo indica, teremos de procurar ladrões de armas à solta, mas numerosos e certamente com quartéis ou bases, num esforço que eterniza o sofrimento e a descriminalização de actos que, à semelhança da declaração de guerra na N1 e na Linha de Sena, podem ser analisados à luz da lei.
Parece-me, perdoem-me, mas não encontro outra forma para dar expressão ao que me vai na alma, como alvos das balas, temos muitos machopes. Viu-se mais recentemente no assalto ao paiol, em que o acontecimento de destaque foi o roubo de armas!
Gostaria que esses novos vatxope fossem vistos como cidadãos e seres humanos com direito à vida e não o contrário, e merecessem atenção, quando se fala de direitos humanos.
E isso me leva a pensar se no contexto da arrogância, não estaria a ser arrogante. As projecções da população para este ano apontam para 24, 3 milhões de habitantes. Destes milhões, quantos são os arrogantes?
Um não é, porque estamos eu e o grupo psico-social a que pertenço (pessoas unidas por um mesmo sentimento), com a diferença de que não notamos a nossa arrogância, se o sinónimo de arrogante for quem tenha arrogância: altivo, insolente, presumido, fanfarrão.
Se eu conseguisse ver para lá do horizonte erguido, pensaria: como o pacote eleitoral foi aprovado pela Assembleia da República, com votos a favor da Frelimo e do MDM, mas chumbado pela Renamo (minoria na totalidade de votos a favor), talvez fosse razoável ser apologista da pressão exercida sobre o Parlamento, para acomodação dos interesses específicos da Renamo. E tende-se a pensar que um partido não luta pelo poder.
Porque não há insolente que note sua insolência como ninguém se vê que é feio, pois isso depende da opinião dos outros, vou usando os mais manipuladores meios da actualidade, para legitimar que a paz resultaria da intervenção de uma figura fora do parlamento, para dar ordens aos 250 deputados da AR, em vez de os Parlamentares serem actores privilegiados da questão que se criou no seu seio, neste momento em que pressiono e fazem-no outros como eu em relação às reivindicações da Renamo.
O meu problema, confesso-o, é pensar que a bancada da Frelimo e talvez a do MDM não aceitem mudar de posição, depois de terem aprovado o pacote eleitoral. Tal antevisão diminui o meu horizonte e dificulta a concepção de outras estratégias para a paz que quero defender, que, em última análise, significa conquistar o que não foi conseguido em sede da Assembleia da República, ora com recurso às armas e mortes. 
Aceito ver o Parlamento alheio às discussões e prefiro interferência de outras figuras a deputados, em nome de cedências, porque se as leis foram feitas pelos homens, estes, quando necessário, podem revogá-las ou alterá-las – mas não apelo a quem as tenha feito para que seja ele próprio a mudá-las!
Não me importo com as consequências, se seria essa a única exigência de cedência a ser feita a favor da Renamo, confundida com interesses gerais da sociedade, nem se seriam precedentes para que outras leis, sempre que uma organização as conteste e recorra às armas, fossem revogadas ou alteradas.
Perdoem-me, mas um arrogante não notaria a sua arrogância. Se sou altivo, juro-vos, quanto a mim, não me vejo assim. Posso, sim, apontar a arrogância do próximo.
Qual, se pudesse pensar de outra maneira, seria o papel da Assembleia da República no que diz respeito à constituição da Comissão Nacional de Eleições, contestada pela Renamo, hoje? O parlamento não tem nada a dizer sobre esta matéria e perante este imbróglio?
 Se existisse uma sociedade civil à minha pretensa imagem de neutro, responderia a algumas perguntinhas, mas não vale a pena. Quem nunca ouviu que em Moçambique não há sociedade civil? E podem ter a certeza de que dizer que em Moçambique não há sociedade civil, não é nenhum pronunciamento arrogante. De resto isso foi testado e provado por quem se arroga!...
Mas, se pudesse ver e analisar as coisas também de outra maneira, estaria à espera de me aperceber da pressão exercida sobre a AR, que aprovou o pacote eleitoral contestado. Por quê? Diário de Moçambique

(Leia mais: Palavra arrogância pode ser ela arrogante: http://franciscoamuianga.blogspot.com).

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