«Ninguém morreu, (só) morreram machopes». Quem se lembra desta
proposição? Com as mortes que se vão repetindo, recordei-me dela.
Considero-a hoje, já adulto, uma piada lourenço- marquina de mau gosto.
Caracterizou,
todavia, um certo ambiente social vivido na cidade de Maputo e
periferia, mais tarde contestada publicamente, através da canção «Duvula
mpfilumpfilu» – disparar para destruir/combater a desordem instalada.
Após
a morte de mais de 40 pessoas em conexão com as manifestações lideradas
pela Renamo, a maioria das quais em Montepuez, uma figura sobejamente
conhecida foi citada a afirmar que o luto nacional, observado no dia 13
de Novembro de 2000, era uma homenagem aos seis polícias mortos (…)
Estava
aí feita a destrinça. Outra declaração, da mesma voz, foi feita em
Abril deste ano, segundo a qual o assassinato de três civis em Muxúnguè,
Sofala, não tinha passado de um (simples) incidente.
Quanto aos
polícias abatidos no seu posto em Muxúnguè, as perdas eram assim
legitimadas: «Tinha conhecimento e autorizei». E mais: «Não posso
esconder, eu disse-lhes: ‘arranjem-se, desenrasquem-se, vocês fizeram a
guerra, sabem onde apanhar armas, defendam-se’, e no dia seguinte
responderam».
E responder significava invadir posto de uma autoridade
pública e matar agentes da FIR, os quais, na minha opinião, nada mais
tinham feito, senão cumprir o seu dever policial sem provocar, antes e
contrariamente, nenhuma morte.
Pareceu-me que essa voz tivesse sido
aplaudida. Engoli em seco mais uma declaração que me recordou o que
escrevo em língua bantu que vou aprendendo (a ler e escrever) e, por
isso, corro o risco de cometer erros: «A ku fanga munhu, ku’o fa
vatxope» – Ninguém morreu, (só) morreram machopes.
Outros vatxope,
nessa analogia, voltaram a morrer perto do rio Ripembe, em Machanga,
após ataque ao paiol das FADM, na Milha 23, em Savane, Dondo, com
balanço de seis vítimas fatais. Até ao dia em que escrevi este artigo,
as oito mortes, no total, não tinham sido reivindicadas. Mas de outras
vozes ouvi e fiquei confuso, se não seria uma antecipada
desculpabilização/ilibação.
Pelo menos 16 vítimas mortais foram
registadas em Sofala desde Abril, parte das quais reivindicadas sem
quaisquer sinais de remorsos, em conferência de imprensa, em Sadjunjira,
Gorongosa, no mês da mulher moçambicana, incluindo a da moçambicana que
tudo fazia para custear estudos universitários de seu filho e sustentar
toda a sua família com viagens Maputo – Quelimane e vice-versa.
Que
pecado os tais machopes teriam cometido, para que uma testemunha ocular
do acidente declarasse: «A ku fanga munhu, ku’o fa vatxope»? E que
pecado teriam cometido os civis, militares e polícias, a quem atribuo
também a designação de machopes, mortos em Muxúnguè, Milha 23 e perto do
rio Ripembe, em Machanga?
Vatxope, para a história, era a
mão-de-obra usada pela Câmara Municipal de Lourenço Marques (CMLM) nos
serviços de limpeza da cidade, incluindo subúrbios, onde em vez de
latrinas se usam baldes para o que se pode imaginar.
E a sigla CMLM acabou tendo outra decifração: Coitado(s) do(s) Machope(s) que Limpa(m) M…
Li
sobre os “coitados” mais tarde, em crónica, mas a piada da decifração
era do domínio público. Se não estiver a fazer atribuição indevida, o
autor da crónica integrou os quadros da revista Tempo e do “Diário de
Moçambique”, no período pós-independência.
Não se dava valor a
vatxope, apesar de desempenharem uma tarefa sem a qual em Lourenço
Marques teriam morrido de cólera e outras doenças afins muitas pessoas,
quando de higiene se fala. Por analogia, ninguém valoriza a vida humana,
de civis, polícias e militares assassinados.
No paiol, mais do que
mortes, foi enaltecida a ocorrência do roubo de armas e munições e em
Muxúnguè, falou-se de um incidente, em conferência de imprensa, e com
astúcia se pode ter festejado em outros meios a morte de agentes da FIR,
com referências de se tratar de polícias jovens (apesar de entre os
mortos constar quem tivesse mais de 40 anos) e mal treinados, enfim,
incapazes de fazer frente a guerrilheiros bem treinados, prontos para a
guerra 20 anos depois da assinatura do AGP.
Só resta saber o que
aconteceu perto do rio Ripembe. Mas, ao que tudo indica, teremos de
procurar ladrões de armas à solta, mas numerosos e certamente com
quartéis ou bases, num esforço que eterniza o sofrimento e a
descriminalização de actos que, à semelhança da declaração de guerra na
N1 e na Linha de Sena, podem ser analisados à luz da lei.
Parece-me,
perdoem-me, mas não encontro outra forma para dar expressão ao que me
vai na alma, como alvos das balas, temos muitos machopes. Viu-se mais
recentemente no assalto ao paiol, em que o acontecimento de destaque foi
o roubo de armas!
Gostaria que esses novos vatxope fossem vistos
como cidadãos e seres humanos com direito à vida e não o contrário, e
merecessem atenção, quando se fala de direitos humanos.
E isso me
leva a pensar se no contexto da arrogância, não estaria a ser arrogante.
As projecções da população para este ano apontam para 24, 3 milhões de
habitantes. Destes milhões, quantos são os arrogantes?
Um não é,
porque estamos eu e o grupo psico-social a que pertenço (pessoas unidas
por um mesmo sentimento), com a diferença de que não notamos a nossa
arrogância, se o sinónimo de arrogante for quem tenha arrogância:
altivo, insolente, presumido, fanfarrão.
Se eu conseguisse ver para
lá do horizonte erguido, pensaria: como o pacote eleitoral foi aprovado
pela Assembleia da República, com votos a favor da Frelimo e do MDM, mas
chumbado pela Renamo (minoria na totalidade de votos a favor), talvez
fosse razoável ser apologista da pressão exercida sobre o Parlamento,
para acomodação dos interesses específicos da Renamo. E tende-se a
pensar que um partido não luta pelo poder.
Porque não há insolente
que note sua insolência como ninguém se vê que é feio, pois isso depende
da opinião dos outros, vou usando os mais manipuladores meios da
actualidade, para legitimar que a paz resultaria da intervenção de uma
figura fora do parlamento, para dar ordens aos 250 deputados da AR, em
vez de os Parlamentares serem actores privilegiados da questão que se
criou no seu seio, neste momento em que pressiono e fazem-no outros como
eu em relação às reivindicações da Renamo.
O meu problema,
confesso-o, é pensar que a bancada da Frelimo e talvez a do MDM não
aceitem mudar de posição, depois de terem aprovado o pacote eleitoral.
Tal antevisão diminui o meu horizonte e dificulta a concepção de outras
estratégias para a paz que quero defender, que, em última análise,
significa conquistar o que não foi conseguido em sede da Assembleia da
República, ora com recurso às armas e mortes.
Aceito ver o
Parlamento alheio às discussões e prefiro interferência de outras
figuras a deputados, em nome de cedências, porque se as leis foram
feitas pelos homens, estes, quando necessário, podem revogá-las ou
alterá-las – mas não apelo a quem as tenha feito para que seja ele
próprio a mudá-las!
Não me importo com as consequências, se seria
essa a única exigência de cedência a ser feita a favor da Renamo,
confundida com interesses gerais da sociedade, nem se seriam precedentes
para que outras leis, sempre que uma organização as conteste e recorra
às armas, fossem revogadas ou alteradas.
Perdoem-me, mas um arrogante
não notaria a sua arrogância. Se sou altivo, juro-vos, quanto a mim,
não me vejo assim. Posso, sim, apontar a arrogância do próximo.
Qual,
se pudesse pensar de outra maneira, seria o papel da Assembleia da
República no que diz respeito à constituição da Comissão Nacional de
Eleições, contestada pela Renamo, hoje? O parlamento não tem nada a
dizer sobre esta matéria e perante este imbróglio?
Se existisse uma
sociedade civil à minha pretensa imagem de neutro, responderia a algumas
perguntinhas, mas não vale a pena. Quem nunca ouviu que em Moçambique
não há sociedade civil? E podem ter a certeza de que dizer que em
Moçambique não há sociedade civil, não é nenhum pronunciamento
arrogante. De resto isso foi testado e provado por quem se arroga!...
Mas,
se pudesse ver e analisar as coisas também de outra maneira, estaria à
espera de me aperceber da pressão exercida sobre a AR, que aprovou o
pacote eleitoral contestado. Por quê? Diário de Moçambique
(Leia mais: Palavra arrogância pode ser ela arrogante: http://franciscoamuianga.blogspot.com).
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