Sou uma cidadã nascida e criada em Maputo, que gosta de sair à noite
nesta nossa linda e maravilhosa cidade de Maputo com alguma frequência.
Há cerca de dois anos deixei de sair na minha viatura ao fim-de-semana à
noite e passei a sair de táxi, não só para estar confortável em beber
um copo de vinho ou outro, mas também porque num percurso mínimo – cerca
de três quilómetros (por exemplo, da Estação de Caminhos-de-Ferro até
ao Hotel Cardoso) – o número de operações “stop” da nossa polícia de
protecção é desgastante. Um trajecto que pode ser feito em sete minutos
acaba por levar entre 30 minutos e uma hora.
Tenho notado nos
últimos seis meses que o número de operações “stop” aumentou
consideravelmente e até de táxi o cidadão é mandado parar hoje em dia.
Facto que não condeno, pois entendo o trabalho da polícia de protecção
como sendo em prol da segurança dos cidadãos e “o ladrão também pode
andar de táxi”.
O que condeno é a atitude de extorsão da “nossa
polícia de protecção”, cada vez mais descarada e sem qualquer pudor ou
preocupação. Sim, refiro-me à polícia de segurança – vulgo
“cinzentinhos” – e não à Polícia de Trânsito. De facto, este ano – já
vamos em Junho – não fui mandada parar pela Polícia de Trânsito uma
única vez; seja de táxi ou em viaturas de amigos. Mas a nossa polícia de
protecção monta verdadeiras operações de “stop”, exigindo cartas de
condução e livretes de viaturas, triângulo, colete reflector, enfim...
Se
a memória não me falha, o artigo 10 não menciona nas várias alíneas
onde refere as entidades a quem compete a fiscalização do cumprimento
das disposições daquele Código a polícia de protecção.
Quando está
tudo em ordem, a “nossa querida polícia” de protecção sugere um teste
de alcoolemia. Telefona (ou simula que telefona para a Polícia de
Trânsito) e como estes últimos demoram a aparecer (ou não foram
contactados) somos instados à ir à esquadra do Hospital Central de
Maputo para o famoso teste. Claro está que antes desta sugestão,
questionaram-me sempre (ou ao condutor da viatura em concreto) se não
queremos “resolver” a questão ali mesmo. Face à recusa, lá tenho ido com
os meus amigos, pelo menos duas vezes por mês, à esquadra do hospital; à
velocidade de 10 quilómetros por hora e com os agentes da polícia de
protecção a pé a acompanharem a viatura.
Podia relatar aqui um sem
número de episódios vivenciados por mim e por amigos meus nas ruas de
Maputo ao longo dos últimos meses, sempre protagonizados pela “nossa
querida polícia” de protecção – tenho uma amiga que ia de táxi para casa
e a quem foi exigido um teste de alcoolemia; depois de cerca de 15
minutos de discussão, lá a deixaram seguir.
A última semana de
qualquer mês, altura em que a maior parte dos cidadãos recebe os seus
salários, quase equivale à “abertura da época de caça”, com brigadas da
polícia de protecção em todos os cruzamentos, ruas, ruelas e recantos da
cidade; alguns vão directos ao assunto e pedem logo “refresco” – no
Verão – ou “café” – no Inverno.
Enfim, tenho a certeza de que
vários cidadãos conseguem rever-se nas situações que relatei ou em
outras mais sérias ou mais graves. E foi uma situação “mais grave” que
vivi nesta última quinta-feira à noite e que me levou a escrever.
Fui
jantar ao Marítimo com uma amiga e um amigo que veio a Maputo por uma
semana. A caminho de casa – saí na minha viatura – e em frente ao portão
de acesso ao Centro de Conferências Joaquim Chissano, ao lado do
Radisson Blue Hotel, fui mandada parar por dois “cinzentinhos” de
lanterna em riste – e sem qualquer identificação, excepto a farda
cinzento-escura! Pediram-me a carta e o livrete da viatura e em seguida
os documentos de identificação dos dois passageiros. Quando estavam em
posse de toda a documentação, um deles tornou-se mais agressivo na
maneira de dirigir-se a nós e referiu que tinham de revistar a viatura.
Mandaram-nos
sair e abrir todas as portas. Enquanto fui abrir a parte traseira
reparei que mandaram o meu amigo abrir a carteira e depois vi um dos
polícias com uma nota de 50.00 dólares junto aos nossos documentos.
Mandaram-me também abrir cada divisória da minha carteira de documentos e
em seguida dirigiram-se à parte traseira da minha viatura que começaram
a revistar. Aperceberam-se de que existe um compartimento por baixo do
tapete – onde fica o triângulo, chave de rodas e afins – e mandaram
abrir.
Muito envergonhadamente confesso que não sei – entretanto
já aprendi – como abrir tal compartimento. Os dois agentes começaram a
falar em tom de voz mais elevado e agressivo enquanto iam vasculhando a
parte traseira do carro, exigindo que eu abrisse aquele compartimento
imediatamente. Vi aproximar-se uma viatura, mandei parar e pedi ajuda.
De imediato os dois agentes referiram não ser necessária qualquer ajuda e
mandaram seguir a outra viatura. Entregaram- nos os documentos e o mais
agressivo dos dois começou a andar em direcção à praia e desapareceu na
escuridão.
O outro “simulou” que atendeu uma chamada telefónica, e
começou a andar também em direcção à praia. Ficámos parados, eu e os
meus amigos, na berma da estrada com as portas do carro todas abertas.
Conforme devolvi os documentos, apercebeu-se o meu amigo de que o
dinheiro que tinha sido retirado da carteira tinha desaparecido: 50
dólares. Tentei chamar o outro agente que se dirigia ainda à praia; este
não respondeu e desapareceu também na escuridão.
Dirigimo-nos de
imediato à esquadra da Julius Nyerere e depois de relatarmos a
ocorrência ao agente de serviço, este referiu que a área do Radisson
Blue Hotel está fora da jurisdição daquela esquadra, pelo que deveríamos
dirigir-nos à esquadra da Mao Tse Tung. Chegados a esta esquadra
relatámos a ocorrência a dois agentes que estavam de serviço e estes
muito eficientemente tentaram chamar uma viatura para ir ao local e
tentar identificar os dois agentes e recuperar o dinheiro. Ao fim de 10
minutos ofereci-me para levá-los na minha viatura.
Percorremos a
marginal e não conseguimos localizar os dois agentes que tinham acabado
de “assaltar-nos”. Fomos até à esquadra do Bairro Trunfo para tentar
saber se seriam agentes afectos àquela esquadra e depois à esquadra da
Kim Il Sung – aparentemente existe um problema de sobreposição de
jurisdição e a zona do Radisson Blue Hotel é uma área de confluência da
jurisdição das quatro esquadras que visitámos naquela noite.
Na
sexta-feira à noite saí com uns amigos, em viatura própria, e fomos
mandados parar exactamente no mesmo local. Reconheci um dos agentes, no
meio dos seis ou oito que se encontravam naquele local; contactei de
imediato um dos agentes da esquadra da Mao Tsé Tung que nos acompanhou
no périplo nocturno pelas esquadras da cidade – e simpaticamente
facultou-nos o número de contacto. Estava de folga e aconselhou-me a
dirigir-me àquela esquadra, onde foi participada a ocorrência na
quinta-feira à noite. Assim o fiz.
Neste momento não sei se foram
identificados os dois agentes e tomadas quaisquer medidas. Sinto raiva e
vergonha por ver um amigo que veio ao meu país por uma semana ser
roubado descaradamente e por uma autoridade.
Onde anda a nossa
Polícia de Trânsito que nos deixa à mercê de agentes da polícia de
protecção, sem qualquer noção das regras do Código de Estrada (quiçá das
regras que regem a própria profissão) e sequiosos de fazerem uns
trocados à custa dos que vivem e dos que visitam a nossa linda cidade de
Maputo?
Precisamos de ajuda urgentemente e não podemos continuar calados dia após dia face a estas situações. @Verdade
Cumprimentos.
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