sexta-feira, 14 de junho de 2013

Por uma estabilidade no sistema de saúde

SR. DIRECTOR!

É assunto incontornável nos dias que correm a paralisação das actividades laborais por parte de alguns médicos e profissionais de saúde, basicamente na cidade de Maputo.

 
Muito se disse acerca da legalidade desta paralisação, a que se designou greve, sobre as motivações, dos mentores e da atípica exaltação leviana desta paralisação, por parte de certos sectores localizados e useiros e vezeiros em aplaudir fenómenos que contrastam com o essencial da agenda nacional do combate à pobreza.
Quase que contra-corrente do jogo, fomos mimoseados com uma carta, subscrita por médicos com créditos firmados no exercício da profissão, que merecem, naturalmente, o nosso maior apreço. Porém, estranhamente, tal missiva, tomando por base o seu conteúdo, coincide com o que chamamos, há dias, de terceira geração de reivindicações dos médicos, pois em nada se confunde com o conteúdo dos dois cadernos reivindicativos apresentados ao Governo e nem mesmo com o espírito e letra do Memorando de Entendimento de 15 de Janeiro de 2013. É que de forma estonteante e psicadélica saltitaram da exigência de aumento salarial em 100%2525 para falarem hoje de melhoria das condições de trabalho. Por outro lado, não podemos, em consciência, concordar com a maior parte das teses avançadas, como abaixo indicamos.
Alega-se na carta a que fazemos alusão que os citados médicos consideram justas e legítimas as reivindicações e a greve, que se caracterizam por um verdadeiro abandono dos doentes internados e dos que se dirigem às unidades de saúde públicas em busca de cuidados de saúde. Ora, como é bom de ver, a situação de paralisação dos serviços públicos de saúde só favorece o aviamento das clínicas privadas – uma vez que nestas não se verifica a greve dos médicos e de outros profissionais de saúde – por sinal, onde o grosso dos médicos subscritores da carta exerce actividade ou detém participação social. Por assim ser, resulta claro que este posicionamento dos médicos está longe de favorecer a maioria do povo moçambicano, na medida em que não é qualquer um que é capaz de arcar com os custos de assistência numa clínica privada. Em suma, ao se posicionarem nestes moldes, os médicos fazem a demonstração inequívoca de não estarem alinhados com os anseios e expectativas do povo, basicamente, de se verem assistidos por quem jurou servir-lhes, acima de tudo – recordam-nos através desta carta o status quo ante, denunciado pelo Presidente Samora Machel de se procurar lucro fácil à custa da doença dos outros!
Num outro desenvolvimento, os médicos condenam o Governo por recorrer a estudantes de Medicina, Enfermagem, socorristas e voluntários, situação a que apelidam de atentatória ao preceituado no Estatuto da Ordem dos Médicos e, alegadamente, configurando o crime de exercício ilegal de profissão. A menos que se pretenda um aumento do número de mortes por falta de cuidados de saúde e, por via disso, garantir um incremento considerável do negócio das funerárias, é pouco razoável esta crítica apresentada pelos médicos. E mesmo que fizesse algum sentido, a rigidez desta assertiva não faria sentido, por exemplo, que em presença de um acidente de viação, os mirones e transeuntes se mantivessem impávidos e serenos, ante feridos em estado grave, abstendo-se de prestar-lhes socorro, pelo simples facto de tais pessoas não serem médicos. É que não devemos olvidar que em casos de emergência o Estado deve usar de todos os recursos disponíveis para salvar vidas. Não é expectável, por assim dizer, que tal pronunciamento tenha sido feito por médicos, cuja missão prima facie é salvar vidas. Mais do que isso, a qualificação deste recurso aos estudantes de Medicina, Enfermagem, socorristas e voluntários como crime de exercício ilegal de profissão está desprovida de qualquer fundamento jurídico. Na verdade, o exercício ilegal de profissão é havido como prática reiterada de actos da mesma natureza, com o fim de lucro, sem observar as disposições legais ou seja, exercer profissão sem preencher as condições a que por lei está subordinado o seu exercício. Ora, afora o facto de inexistir o elemento volitivo dos que se prestam a salvar vidas no caso em apreço, não há como cogitar que os mesmos estejam a tratar dos doentes com propósito de obter lucro. Para além de encerrar uma contradição insanável com os prolegómenos da função médica, esta posição carece de razão de ciência para ser pronunciada.
Por outro lado, os médicos subscritores da carta alegam que os serviços mínimos têm sido assegurados na quase totalidade dos hospitais, na tentativa de rebater a versão oficial. Não podemos simpatizar-nos com esta suposição, porquanto, tendo presente que os serviços mínimos devem ser garantidos pelos grevistas, uma leitura rápida às “Directrizes da Greve” – que, entre outros, determinam que estes serviços serão garantidos por médicos militares, estrangeiros e chefes dos serviços, que em princípio se sabia não aderirem a greve – faz desmoronar os alicerces desta alegação. Aliás, quem tem estado a garantir os serviços são os tais a quem se acusa de “exercerem ilegalmente a Medicina” e outros profissionais que o Chefe do Estado designou de “patriotas e heróis”, esses que por dever de ofício não se aliaram aos grevistas. Surpreende-nos, igualmente, o facto de não se afirmar e condenar, na carta, que os profissionais de saúde que não aderiram à greve são alvo de intimidação por parte dos impulsionadores da greve.
É, igualmente, ponto de vista destes médicos que, nos últimos 6 ou 7 anos, o sector de saúde deixou de ser prioritário, tendo por base uma suposta diminuição do orçamento neste sector. Porém, parece-nos que esta assertiva não tomou em conta o facto de actualmente não existir um único doador para a área do HIV – SIDA, cabendo ao Estado a missão de arcar sozinho com as responsabilidades neste sector, aliado ao facto de tal avaliação não ter levado em conta a estratégia de desconcentração orçamental, questionando-se se tal redução é aferida em face do orçamento do Estado na globalidade ou dos orçamentos provinciais. Também cremos que não se tomou em conta o facto de termos actualmente no país cerca de 5 instituições de ensino que leccionam cursos superiores na área de saúde, tendo sido colocados médicos em todos os distritos, estando neste momento em curso a afectação de médicos a nível dos postos administrativos. Só isso significa aumento do orçamento da área da saúde. Vale também dizer que não deve escandalizar a ninguém se afirmarmos com segurança que há médicos em distritos com melhores condições que um director provincial. Portanto, é irreal afirmar-se que o Estado não presta a devida atenção ao sector de saúde. Alguns dos subscritores da carta foram dirigentes neste país e não apresentam uma folha de serviço que rebata o desempenho dos seus sucessores. Ou será pelo mesmo ódio com que marcavam os estudantes para reprová-los? Ou será por receio de que venham a ser denunciados pelas humilhações a que submeteram os seus pupilos de então? Quantos médicos formavam por ano no seu tempo?
É por estas e outras razões que se afigura difícil descortinar se a citada carta foi subscrita por médicos mais antigos, pelos sócios das clínicas privadas ou de agências funerárias. Em todo o caso, estamos esperançados de que o bom senso virá ao de cima e a estabilidade no funcionamento do sistema nacional de saúde será uma realidade. Notícias
 
Um abraço fraterno.
 
PS - O representante do FMI voltou a entrar no mato ao ensaiar mais uma grosseira ingerência em assuntos internos de Moçambique, afirmando que o Governo pode pagar mais aos médicos! Felizmente o Ministro das Finanças deu-lhe os trocos
 
  • Alexandre Chivale

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