quarta-feira, 31 de julho de 2013

CAÇA FURTIVA NO KRUGER - Agentes da polícia no grupo dos mandantes

TRÊS  agentes da Polícia pertencente à Força da Guarda Fronteira e um do ramo de Protecção no distrito de Magude, bem como cinco agentes de segurança privada adstrita à Açucareira de Xinavane, no Distrito da Manhiça, na Província de Maputo, figuram entre os mandantes que fornecem armas de fogo, mobilizam e incentivam jovens a se envolverem na caça furtiva no Kruger Park, na África do Sul.

No prosseguimento do seu trabalho de investigação de modo a perceber os contornos desta ilegalidade que não só semeia luto no distrito de Magude, como muitos jovens a morrerem à procura dos cornos, mas também uma prática que movimenta muito dinheiro e diverso armamento de guerra, o “Notícias” soube que estes polícias não só garantiam a protecção dos furtivos para que não caíssem nas mãos dos seus colegas da justiça, como em alguns casos participavam no abate de rinocerontes para a extracção dos cornos.
Os agentes em causa são apontados como sendo mandatários secundários, aqueles que recebem dinheiro dos orquestradores para pagar os jovens que participam na caça furtiva, bem como fazem parte dos que esboçam, acobertam e participam nas operações de abate dos animais. Ao que apurámos, os polícias têm ainda o papel de indicar as melhores zonas onde os animais se encontram para serem abatidos, funcionando como uma espécie de informadores dos melhores dias, horas e zonas para matar os rinocerontes.
A nossa Reportagem acompanhou a última operação levada a cabo pelo Comando da PRM em  Magude que culminou com a detenção de parte deles, estando os outros ainda a monte. A rede era comandada por um oficial da Força de Guarda Fronteira que responde pelo nome de Zacarias Rodrigues Mazive, agora fugitivo.
Mazive e mais dois colegas da Guarda Fronteira associaram-se a um outro agente de Protecção. O grupo era ainda composto por vários elementos da segurança privada da Açucareira de Xinavane que, simultaneamente, prestam serviços à Masitonto Ecoturismo, uma área de conservação pertencente à Açucareira e localizada mesmo na linha de fronteira com o Kruger Park.
Tanto os polícias da Guarda Fronteira como os seguranças privados, apercebiam-se da movimentação de animais na zona limite com o Kruger. É dai que, há uma semana, numa das suas investidas, se aperceberam da presença de um casal de rinocerontes que pulou a vedação  do Kruger Park e foi dar a Conservação de Masitonto. Sem mais delongas, o polícia e chefe da quadrilha, Zacarias Mazive, pegou na viatura policial e na companhia dos seus colegas da polícia e dos seguranças privados, dirigiram-se a casa do caçador furtivo Agostinho Mucasse, 33 anos de idade, no sentido de o levar para abater os animais. A escolha não é por acaso. Agostinho é tido em Magude como sendo o melhor atirador furtivo que o distrito tem neste momento.
Frente-a-frente com os animais, o polícia Zacarias Mazive deu ordens para Agostinho matar os animais. Usando uma arma de calibre 458, com silenciador, Agostinho apenas deu um tiro em cada animal e em fracções de segundos já estavam mortos. Cada rinoceronte estava com mais de 500 quilos. De imediato, os agentes da polícia e os seguranças privados, usando um machado, trataram de cortar os cornos e rapidamente deixar o local dos factos.
Poucos minutos depois dos polícias cortarem os cornos, um helicóptero de patrulha pertencente ao Kruger Park sobrevoava o local. Eram polícias do Kruger que iam atrás dos animais que aviam transposto o cerco a procura de água do lado moçambicano. Porque muitos rinocerontes da África do Sul levam um chip para melhor serem monitorados, os polícias conseguiram chegar até eles mas, infelizmente, não foram a tempo de os salvar uma vez que já haviam sido mortos e extraídos os cornos. Não podendo fazer mais nada, os sul-africanos regressaram ao seu país transtornados com mais uma acção dolorosa dos caçadores furtivos moçambicanos que vão dizimando os rinocerontes.
No mesmo dia em que o casal de rinocerontes foi abatido, o agente Zacarias Mazive telefonou para o seu chefe e mandante principal do abate dos animais. Fazendo-se acompanhar do atirador furtivo Agostinho Mucasse, o encontro com o comprador teve lugar no canavial perto da ponte que dá acesso a vila-sede de Magude. O valor total pago pelo mandante principal foi de um milhão e cem mil meticais.
 

Oficial da Polícia foge com dinheiro


O COMPRADOR dos cornos, neste caso o mandante principal, pagou o valor de um milhão e 100 mil meticais ao seu comparsa Zacarias Mazive, oficial da polícia que chefiava a rede dos furtivos. O dinheiro devia ser dividido por onze pessoas que participaram no abate do casal de rinocerontes na semana passada.
Cada integrante devia receber cem mil meticais. São eles os três agentes da Guarda Fronteira, um do ramo da Polícia de Protecção, os cinco agentes de segurança privada, o atirador Agostinho e o fornecedor de arma, Armando Tive. A caçadeira usada por Agostinho pertence a Armando Tive, 40 anos de idade, também nativo de Magude, que na sua vida normal é um motorista de semi-colectivo de passageiros (chapa). 
Ao que se sabe, o chefe do grupo Zacarias Mazive terá pago os cem mil a Agostinho Mucasse, outros cem mil a Armando Tive e duzentos mil a dois colegas seus da Guarda Fronteira e um de Protecção. Os restantes, na sua maioria seguranças privados da Açucareira de Xinavane ainda não tinham sido pagos.
Dados em nossa posse indicam que os seguranças não foram pagos porque o polícia Zacarias Mazive, assim que soube que o Comandante Distrital da Polícia, Armando Mude, estava a liderar as operações para prender todo grupo envolvido no abate dos rinocerontes, tratou de fugir e estando agora em parte incerta.
Da acção do Comando Distrital foi possível prender dois polícias da Guarda Fronteira, um de Protecção e três seguranças privados, o atirador e o fornecedor da caçadeira usada para matar os animais. Todos eles foram obrigados a entregar todo dinheiro que receberam às autoridades. O valor vai constar do processo a ser remetido ao tribunal.
No terreno as buscas continuam no sentido de prender o cabecilha Zacarias Mazive e outros elementos que se puseram ao fresco depois de serem descobertos. Investigações em curso permitiram saber que há mais agentes da polícia e da segurança privada da Açucareira que estão envolvidos na caça furtiva e que nos próximos tempos deverão ser levados a barra do tribunal.  
Falando à nossa Reportagem, o caçador furtivo Agostinho Mucasse disse não conhecer a pessoa que pagou e levou os cornos. Segundo ele, quando foi com o agente Zacarias Mazive receber o valor do mandante principal, ficou no carro de Zacarias e este desceu e entrou na viatura do comprador de onde saiu com o valor total de um milhão e cem mil meticais.
“Eu só vi o dinheiro. Era um milhão e cem mil meticais. Recebi a minha parte e fui me embora. O resto do dinheiro não sei que destino Mazive terá dado”, explicou Agostinho Mucasse mostrando-se bastante enfurecido por ter recebido um valor muito abaixo dos 300 a 400 mil meticais que tem recebido quando faz aquele tipo de operação. Continue lendo aqui.

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