O mote do ‘ngurangurar’ tem sido, até aqui, questões relacionadas com
desenvolvimento. É uma área apaixonante, extremamente crucial para o
nosso desiderato comum: Moçambique. O país não é de ninguém, melhor: é
de todos nós, moçambicanos. Não é do partido Frelimo que o libertou do
colonialismo; não é da Renamo que, segundo se auto-defende, lutou pela
democracia… – custa-me muito engolir esta! Tendo lutado ou não pela
independência do país, ou pela democracia, todos somos moçambicanos.
Assim, Moçambique é de todos nós! E nem serve pressupor que há uns que
são mais moçambicanos que os outros, ou que são menos moçambicanos que
os outros.
Todos somos moçambicanos e Moçambique é nosso. Por isso, temos o dever de pensar Moçambique!
Escrevi
num dos textos passados e tenho insistido bastante: a questão de
desenvolvimento de um país é muito séria. Não é algo que devesse ser
relegada para um pequeno clube de pseudo-pensadores somente; ou a uma
instituição política que precisa conquistar votos e perpetuar-se no
poder. É, quanto a mim, uma questão que deve ser confiada a pessoas
competentes, com saber e experiência refinadas, qualificadas; que têm
noção de que uma ideia constrói-se. Não basta sonhar, é preciso
transformar o sonho em uma ideia racionalmente construída, com
alicerces, estrutura e lógica.
O contrário é um descalabro. Nós
somos um caso de estudo. Matérias de desenvolvimento são confiadas a
políticos ou a gente com conhecimentos medianos, incipientes em muitos
casos e sem experiência conhecida! Por isso estamos onde estamos e está a
ser difícil sairmos!
Lá estou eu de novo nas questões de
desenvolvimento… Na verdade, a minha reflexão para esta semana era no
mesmo inesgotável tema. Mas, como dizia o outro, não posso continuar a
assobiar para cima ou para o lado, enquanto… a caravana está a arder!
Aliás, só há desenvolvimento numa caravana que não está a arder… em paz!
Não faz sentido continuar a discutir um assunto, quando o momento impõe
a análise de outro!
Pois então: eis-nos aqui, no nosso belo
Moçambique, reféns… reféns, sim! Nas mãos de um único homem: Afonso
Dhlakama! Tudo praticamente está parado, ou de sobreaviso. A economia
nacional está de sobreaviso; o dia-a-dia do país está… de sobreaviso; a
sociedade política nacional está parada (essa, sim, está parada: não se
sabe se vai haver eleições, não se sabe se se vai à guerra ou não…); a
sociedade civil está… paralisada; a educação (o funcionamento de algumas
escolas) está comprometido; até o desporto (futebol, o nosso Moçambola)
regista interferências!
Se Dhlakama amanhã entender, pode haver ataques na N1!...
Que
país é que somos e que país queremos ser? Esta pergunta é especialmente
para o homem do momento: o líder da Renamo. Que democracia é esta, a
nossa? Ou que democracia queremos para o nosso país? É esta? De algumas
instituições políticas que não o Estado deterem armas de fogo e
utilizarem-nas quando o voto lhes não é favorável? A democracia tem como
fundamento o voto, o respeito ao voto, a eleição dos representantes. E
aquele que é eleito é quem governa; aquele que consegue fazer eleger a
maioria no Parlamento faz as leis que entende serem melhores para o seu
Governo; e os outros actores submetem-se ao resultado das votações. Este
é o princípio democrático.
O líder da Renamo não concorda com a lei
eleitoral e vai daí puxar das armas! Ao contrário do que punha um
comentarista, que ‘vamos morrer por causa de mais três pessoas na CNE…’
–, é preciso matar porque a maioria eleita pelo povo votou uma lei com
aspectos com que não concorda? É preciso mesmo ir matar?
A Renamo
entende que há discriminação económica, ou exclusão económica. Em
ciências de desenvolvimento, diríamos que não concorda com certas
políticas económicas do partido no poder. Certo, certíssimo. Em
democracia, é assim; estranho seria um partido estar inteiramente de
acordo com a política económica do outro partido. Nessa medida, então, o
caminho é pegar em armas e ir matar? Não é, como preconiza a
democracia, elaborar a sua política e estratégia económica para
convencer o eleitorado a votar em si? É ir matar?
A Renamo não
concorda com, digamos, o modus operandi das Forças Armadas de Defesa de
Moçambique e acha que há partidarização do aparelho do Estado. Perfeito.
Nada de anormal nisso. Mas então, é por causa disso que se vai pegar em
armas e matar? Não é fazer um trabalho de base para mostrar aos
eleitores que a forma como estão a ser geridos o Estado e as Forças
Armadas é errada e nociva ao país? É pegar em armas e impedir a
circulação de pessoas e bens?
A Renamo não concorda com… Perfeito.
Democracia é isso mesmo: termos a liberdade de discordar de certas
ideias e de propor ideias alternativas. É pegarmos em armas e ir
disparar contra pessoas e bens?
É esta a nossa democracia, senhor líder da Renamo?
Mau
grado: até porque em teoria de ciência política, aparentemente a
oposição em Moçambique (Renamo incluída) goza de uma muito considerável
vantagem: o incipiente desenvolvimento do país. Moçambique não está a
desenvolver-se de forma satisfatória e muitos indicadores e análises
apontam que a pobreza está a aumentar. E isto causa/causou um grande
desgaste da imagem e popularidade da Frelimo. Um partido que se preze,
podia e bem explorar esta situação. Por quê não a Renamo?
Pergunta para todos os moçambicanos: como foi possível chegarmos a este ponto de estarmos reféns de uma e única pessoa? Como foi possível voltarmos à guerra? Diário de Moçambique
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