sexta-feira, 5 de julho de 2013

Flexibilidade no diálogo é crucial para uma paz efectiva

SR. DIRECTOR!

Mais uma vez agradeço antecipadamente por dignar-se a publicar esta carta na página do vosso/nosso jornal, reservada aos leitores. O país está mergulhado numa crise político-militar cujos antecedentes são conhecidos por todos os que acompanham a trajectória da nossa jovem democracia. Vidas de milhões de habitantes estão em risco; o futuro duma das nações mais promissoras em África e no mundo no século XXI está em risco.


Uma das razões que concorrem para o cenário actual é a falta de flexibilidade no diálogo político ora em curso e que já testemunhou a sua 8ª ronda sem nenhum resultado. Enquanto reconhecemos que há um esforço por parte das partes envolvidas no desentendimento, que já causou derramamento de sangue, um dos aspectos negativos neste diálogo é o facto de ter-se recusado o envolvimento de outras forças vivas da sociedade, incluindo a mediação, o que iria contribuir para que as partes directamente envolvidas cheguem a um consenso. É importante reconhecer que não se trata apenas do futuro da Frelimo e da Renamo que são os principais actores neste processo na fase actual que está em jogo, mas o futuro da nossa nação e do nosso povo.
A história mostra que para podermos alcançar o Acordo Geral de Paz em 1992 houve necessidade da mediação do diálogo entre o Governo e a Renamo, que decorreu em Roma. Mesmo assim‚ enquanto o diálogo decorria‚ milhares de vidas foram ceifadas‚ infra-estruturas socioeconómicas destruídas e o país tornou-se num dos mais pobres do mundo e continua dependendo da ajuda externa para a sua sobrevivência. Volvidos mais de 20 anos‚ o país testemunhou o que é descrito como “alguns incidentes de tensão” mas que na realidade‚ pode ser o princípio do fim do nosso orgulho como uma nação, que serviu como exemplo de reconciliação em África e no mundo. Tudo depende dos acontecimentos que irão suceder-se nos próximos dias.
A questão da flexibilidade é importante não só no diálogo em curso‚ mas também em todo o processo da edificação do Estado moçambicano. O que nos une não são apenas fronteiras geográficas para supormos que basta impedir a circulação de pessoas e bens duma zona para a outra‚ matar inocentes e incendiar carros para acabar-se com um Estado como o moçambicano.
Para além do presente‚ partilhamos um passado de opressão comum‚ que tornou-se um factor que nos uniu em busca de um sonho de liberdade. Partilhamos um destino comum‚ um futuro esperançoso‚ em que pessoas de todos os cantos sentem-se livres de movimentar-se e estabelecer seus interesses em qualquer canto deste vasto Moçambique‚ o nosso grande e belo Moçambique. O que nos une são laços de sangue não somente forjados nos momentos difíceis da luta de libertação nacional‚ em que o sangue de moçambicanos de todos os cantos foi derramado em prol de um sonho comum‚ o sonho da liberdade‚ mas também os laços forjados pelos casamentos em que cada um‚ independentemente da sua origem étnica pode sentir-se felíz casado/a com moçambicano/a de qualquer região ou tribo. O que nos une é uma esperança comum de um futuro brilhante‚ em que os moçambicanos todos‚ pedra a pedra‚ vão construindo um novo dia como milhões de braços mas uma só força.    
Uma vez alcançado o entendimento, a Assembleia da República‚ onde os dois maiores actores políticos da actualidade estão representados‚ é onde o diálogo construtivo deve ser capitalizado duma forma contínua. O que tem se verificado é que em muitas ocasiões‚ as opiniões contrárias à maioria são chumbadas apenas por serem da oposição. Ter uma ideia diferente não é mau num Estado em que queremos consolidar o pluralismo político e de ideias. Por vezes as ideias que são desvalorizadas somente por serem da oposição‚ podem contribuir grandemente para a edificação do Estado e da nação moçambicana. O nosso povo apenas precisa da paz. O povo precisa do bem-estar, de alcançar o progresso económico‚ social e tecnológico que tanto almejamos.
Outra plataforma onde deve haver flexibilidade no diálogo é o Conselho do Estado. O líder da Renamo reclama não poder conversar com o Presidente da República, mas este faz parte do Conselho do Estado. É difícil compreender como é que ele‚ na qualidade de membro deste órgão não tem oportunidade para conversar‚ dialogar e expor as suas ideias ao Chefe do Estado. Ou será que não há flexibilidade neste órgão?
A Renamo‚ como um partido político‚ devia ter atingido maturidade suficiente para compreender que para fazer valer as suas ideias‚ não precisa de recorrer nem ser refém de homens armados. Não precisa de cometer os mesmos erros que cometeu no passado. Em muitas ocasiões‚ este partido priva-se da possibilidade de encarar o futuro como um partido político por confiar que tem‚ como uma vez disse o seu líder‚ “homens fortes‚ capazes‚ que sabem disparar”. O problema é que mesmo os soldados ou polícias que morrem, continuam sendo filhos do nosso povo‚ esse povo que aspira governar. Será que a experiência do passado não foi suficiente para tirarem dela algumas lições válidas para o presente e o futuro?
Vamos lá falar… mas sejamos rápidos e flexíveis porque o tempo passa e o futuro poderá responsabilizar-nos por qualquer erro que for cometido no presente. Notícias

  • Maurício S. Mugunhe

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