quinta-feira, 11 de julho de 2013

Os motivos dos ataques a Guebuza (1)

O editorial do jornal “Domingo”, do dia 30 de Junho de 2013, traz uma importante matéria que deveria ser, quanto a mim, aprofundada e não só como forma de perceber as dinâmicas actuais, mas também para compreender a própria governação do Guebuza e a transformação que a mesma causou em alguns espaços do poder.
 Penso que a governação de Guebuza trouxe alguns aspectos peculiares e que, por isso, representam uma mudança extrema de paradigmas de governação. Aspectos esses que nos escapam à primeira vista, mas que poderão constituir, no futuro, matéria de estudos e análises. Estas mudanças, no meu entender, propiciam algum tipo de conflito pelo facto de gerarem, na sua prossecução, pretensos “excluídos”. Facto que “acirra ódios e ressentimentos que, não resolvidos, acabam sendo encubados pelo tempo”, citando o referido editorial.
 Emerge, a título de exemplo, na questão das mudanças de paradigmas de governação, a questão do “Distrito como pólo de desenvolvimento” e atrelada à mesma vem  a dos “sete milhões” e fundo de infra-estruturas, como também a questão da escolha dos governantes (ascensão ao poder) para fazerem parte do seu elenco tanto a nível do partido, como do Governo.
 A prática ensina-nos que Guebuza rompeu com o anterior ciclo de escolhas que recaiam sobre alguns rostos que, no nosso popular entender, representavam uma espécie de “anéis do poder”. Se Samora Machel dizia que “devemos fazer da escola a base para o povo tomar o Poder”, com Guebuza este dito materializou-se. Isto não equivale a dizer que os rostos de ontem não eram do povo, não, até porque a maioria eram filhos de operários e camponeses; o facto é que tiveram a vantagem da ascensão ao poder pela sua participação no feito irrepetível de luta pela independência nacional. Foram estes rostos de 25 de Setembro, nascidos da forja libertadora, que passaram a povoar o nosso imaginário como rostos empoderáveis.
 Não porque eram os únicos, mas porque a nossa consciência colectiva e em reconhecimento aos seus feitos libertadores atribuia-lhes uma espécie de direito adquirido e/ou de preferência no exercício do poder. Se é verdade que Joaquim Chissano foi o primeiro a ensaiar essas mudanças, em Guebuza elas cristalizaram-se. Isto porque, a percepção em relação a Chissano foi de que o mesmo trouxe uma elite de tecnocratas que, na linha de ascensão do poder, posicionavam-se logo a seguir à geração dos libertadores pelo simples facto de olharmos para os mesmos como detentores do conhecimento.
 Guebuza agiu um pouco ao contrário do que estava estabelecido e, sem romper com a geração histórica e  com os tecnocratas, procurou e moldou um certo modelo de homem: o comprometido com o trabalho, o homem capaz de acertar o seu passo que já sabia que seria acelerado, buscou o homem que percebesse que a sua principal tarefa passava pelo empoderamento do povo, que o centro do poder seria o distrito. Estou ciente de que nem sempre acertou nas escolhas, isto porque, para além dos factores externos que contribuem grandemente para as escolhas, existe um outro quesito indisponível e, portanto, incapaz de se avaliar: o interno.
 A primeira escolha recaiu sobre Filipe Paúnde, um “quase desconhecido” na Frelimo e que exercera poderes quase que na “periferia” desta e do Governo, mas que Guebuza foi buscar, trouxe-o à ribalta e os resultados que  a Frelimo conheceu depois são inquestionáveis, na verdade os melhores na história da nossa jovem democracia. Sei que, neste momento, ocorrem ao leitor muitos rostos que antes não ouvira falar, mas que hoje dominam a política nacional e até alguns ganharam a aura de presidenciáveis para alguma imprensa interessada nesta matéria: David Marizane, actual governador da Província de Niassa, era antes um administrador de distrito; o Primeiro-Ministro e também membro da Comissão Política da Frelimo, Alberto Vaquina, era um governador provincial e antes médico-chefe provincial; a governadora da Província de Maputo, Maria Jonas, uma administradora distrital; um outro exemplo seria o de Filipe Nyussi, um civil que Guebuza foi buscar para comandar as Forças Armadas, só para citar alguns exemplos.
 Isto para ilustrar que, para Guebuza, não pesou muito a experiência acumulada neste ou naquele cargo, não pesou muito o facto de pertencer a uma geração histórica, pesou a competência e a determinação pelo trabalho. Valeu  o que dissera no seu discurso de eleição ao cargo de secretário-geral da Frelimo, e que passamos a citar: “trabalho, dedicação e sacrifício”, três divisas que orientam a sua governação.
 E começava talvez aqui e voltando para o editorial do “Domingo” acima citado, uma das fontes das inimizades de Guebuza, isto porque se lhe interessava o homem capaz de correr, o homem competente, o lógico é que sempre seria obrigado a operar mudanças em nome dessa velocidade e competências. Para manter o passo teve que retirar da caminhada os que não o podiam acompanhar. Nem sei se foram retirados porque, de um outro ângulo de visão, é válido dizer que as pessoas que não aguentaram com a velocidade de cruzeiro da missão que se pretendia caíram pelo seu próprio peso. Essas retiradas, podem degenerar naquilo que o editorial  chama de algumas “...pessoas que, não convencidas da sua sorte, aguardam na frondosa sombra dos rancores por qualquer tempestade para desferirem o golpe a quem ousou mexer com um xadrez que já parecia enraizado...”, isto por um lado,  mas por outro, há toda uma classe de comissões e lobbies que ficou seriamente prejudicada principalmente na capital e nos centros urbanos de nível provincial, com a descentralização e desconcentração e, consequentemente, a alocação para os municípios, distritos e localidades, de dinheiros que eram antes geridos centralmente.
 Esta transferência de dinheiros antes concentrados num único ente, a quem cabia dar as fatias a cada um e, em algumas vezes, sem obedecer a métodos e critérios pré-definidos, deitou abaixo  muitos interesses que hoje se ressentem; temos ouvido com muita insistência, referências como “no tempo de Chissano havia muito dinheiro”; são na verdade referências de quem sempre teve mordomias que a governação de Guebuza, ao privilegiar o distrito como pólo de desenvolvimento, a questão da desconcentração e a descentralização fez com que o dinheiro que antes gravitava na cidade e alimentava uma minoria, fosse transferido para locais onde era impensável que fosse. “A mola desapareceu!”, lamentam os lobbistas alinhando os dedos a Guebuza. Diário de Moçambique

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