O editorial do jornal “Domingo”, do dia 30 de Junho de 2013, traz uma
importante matéria que deveria ser, quanto a mim, aprofundada e não só
como forma de perceber as dinâmicas actuais, mas também para compreender
a própria governação do Guebuza e a transformação que a mesma causou em
alguns espaços do poder.
Penso que a governação de Guebuza trouxe
alguns aspectos peculiares e que, por isso, representam uma mudança
extrema de paradigmas de governação. Aspectos esses que nos escapam à
primeira vista, mas que poderão constituir, no futuro, matéria de
estudos e análises. Estas mudanças, no meu entender, propiciam algum
tipo de conflito pelo facto de gerarem, na sua prossecução, pretensos
“excluídos”. Facto que “acirra ódios e ressentimentos que, não
resolvidos, acabam sendo encubados pelo tempo”, citando o referido
editorial.
Emerge, a título de exemplo, na questão das mudanças de
paradigmas de governação, a questão do “Distrito como pólo de
desenvolvimento” e atrelada à mesma vem a dos “sete milhões” e fundo de
infra-estruturas, como também a questão da escolha dos governantes
(ascensão ao poder) para fazerem parte do seu elenco tanto a nível do
partido, como do Governo.
A prática ensina-nos que Guebuza rompeu
com o anterior ciclo de escolhas que recaiam sobre alguns rostos que, no
nosso popular entender, representavam uma espécie de “anéis do poder”.
Se Samora Machel dizia que “devemos fazer da escola a base para o povo
tomar o Poder”, com Guebuza este dito materializou-se. Isto não equivale
a dizer que os rostos de ontem não eram do povo, não, até porque a
maioria eram filhos de operários e camponeses; o facto é que tiveram a
vantagem da ascensão ao poder pela sua participação no feito irrepetível
de luta pela independência nacional. Foram estes rostos de 25 de
Setembro, nascidos da forja libertadora, que passaram a povoar o nosso
imaginário como rostos empoderáveis.
Não porque eram os únicos, mas
porque a nossa consciência colectiva e em reconhecimento aos seus feitos
libertadores atribuia-lhes uma espécie de direito adquirido e/ou de
preferência no exercício do poder. Se é verdade que Joaquim Chissano foi
o primeiro a ensaiar essas mudanças, em Guebuza elas cristalizaram-se.
Isto porque, a percepção em relação a Chissano foi de que o mesmo trouxe
uma elite de tecnocratas que, na linha de ascensão do poder,
posicionavam-se logo a seguir à geração dos libertadores pelo simples
facto de olharmos para os mesmos como detentores do conhecimento.
Guebuza
agiu um pouco ao contrário do que estava estabelecido e, sem romper com
a geração histórica e com os tecnocratas, procurou e moldou um certo
modelo de homem: o comprometido com o trabalho, o homem capaz de acertar
o seu passo que já sabia que seria acelerado, buscou o homem que
percebesse que a sua principal tarefa passava pelo empoderamento do
povo, que o centro do poder seria o distrito. Estou ciente de que nem
sempre acertou nas escolhas, isto porque, para além dos factores
externos que contribuem grandemente para as escolhas, existe um outro
quesito indisponível e, portanto, incapaz de se avaliar: o interno.
A
primeira escolha recaiu sobre Filipe Paúnde, um “quase desconhecido” na
Frelimo e que exercera poderes quase que na “periferia” desta e do
Governo, mas que Guebuza foi buscar, trouxe-o à ribalta e os resultados
que a Frelimo conheceu depois são inquestionáveis, na verdade os
melhores na história da nossa jovem democracia. Sei que, neste momento,
ocorrem ao leitor muitos rostos que antes não ouvira falar, mas que hoje
dominam a política nacional e até alguns ganharam a aura de
presidenciáveis para alguma imprensa interessada nesta matéria: David
Marizane, actual governador da Província de Niassa, era antes um
administrador de distrito; o Primeiro-Ministro e também membro da
Comissão Política da Frelimo, Alberto Vaquina, era um governador
provincial e antes médico-chefe provincial; a governadora da Província
de Maputo, Maria Jonas, uma administradora distrital; um outro exemplo
seria o de Filipe Nyussi, um civil que Guebuza foi buscar para comandar
as Forças Armadas, só para citar alguns exemplos.
Isto para ilustrar
que, para Guebuza, não pesou muito a experiência acumulada neste ou
naquele cargo, não pesou muito o facto de pertencer a uma geração
histórica, pesou a competência e a determinação pelo trabalho. Valeu o
que dissera no seu discurso de eleição ao cargo de secretário-geral da
Frelimo, e que passamos a citar: “trabalho, dedicação e sacrifício”,
três divisas que orientam a sua governação.
E começava talvez aqui e
voltando para o editorial do “Domingo” acima citado, uma das fontes das
inimizades de Guebuza, isto porque se lhe interessava o homem capaz de
correr, o homem competente, o lógico é que sempre seria obrigado a
operar mudanças em nome dessa velocidade e competências. Para manter o
passo teve que retirar da caminhada os que não o podiam acompanhar. Nem
sei se foram retirados porque, de um outro ângulo de visão, é válido
dizer que as pessoas que não aguentaram com a velocidade de cruzeiro da
missão que se pretendia caíram pelo seu próprio peso. Essas retiradas,
podem degenerar naquilo que o editorial chama de algumas “...pessoas
que, não convencidas da sua sorte, aguardam na frondosa sombra dos
rancores por qualquer tempestade para desferirem o golpe a quem ousou
mexer com um xadrez que já parecia enraizado...”, isto por um lado, mas
por outro, há toda uma classe de comissões e lobbies que ficou
seriamente prejudicada principalmente na capital e nos centros urbanos
de nível provincial, com a descentralização e desconcentração e,
consequentemente, a alocação para os municípios, distritos e
localidades, de dinheiros que eram antes geridos centralmente.
Esta
transferência de dinheiros antes concentrados num único ente, a quem
cabia dar as fatias a cada um e, em algumas vezes, sem obedecer a
métodos e critérios pré-definidos, deitou abaixo muitos interesses que
hoje se ressentem; temos ouvido com muita insistência, referências como
“no tempo de Chissano havia muito dinheiro”; são na verdade referências
de quem sempre teve mordomias que a governação de Guebuza, ao
privilegiar o distrito como pólo de desenvolvimento, a questão da
desconcentração e a descentralização fez com que o dinheiro que antes
gravitava na cidade e alimentava uma minoria, fosse transferido para
locais onde era impensável que fosse. “A mola desapareceu!”, lamentam os
lobbistas alinhando os dedos a Guebuza. Diário de Moçambique
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