sexta-feira, 5 de julho de 2013

RAPARIGAS ORFÃS EM GAZA - A difícil tarefa de chefiar famílias

ORFANDADE, crescimento precoce e trabalho infantil - eis rol de situações vividas por milhares de crianças na província de Gaza e que vêem os seus direitos frequentemente violados na sequência, em muitos casos, da morte dos seus progenitores, vítimas do SIDA.

Na ausência dos pais, ainda muito cedo, estas crianças assumem a responsabilidade de cuidar dos seus irmãos mais novos. A reportagem do Noticias visitou recentemente a província de Gaza e verificou o drama vivido por estes menores. As meninas são as mais sacrificadas porque, independentemente da idade, são elas que chefiam as famílias negligenciando, em muitos casos, os estudos e consequentemente comprometendo o seu futuro.
As crianças nas famílias chefiadas por outras crianças enfrentam desafios particulares, como conseguir comida, desistência das aulas por falta de dinheiro para sustentar os estudos, falta de alojamento condigno, acesso limitado aos cuidados médicos e medicamentosos, abuso sexual e agressões físicas.
Em Moçambique, estima-se que haja 1,6 milhões de crianças que perderam um ou ambos os pais antes de atingirem 18 anos. Aquelas que ficaram órfãs devido ao HIV e SIDA ascendem a 400.000.
Para minimizar o sofrimento destas crianças, a Associação Moçambicana para o Apoio e Desenvolvimento da Criança Órfã e Vulnerável – REENCONTRO - na província de Gaza, tem dado o seu máximo para resgatar a dignidade e os direitos destes menores, proporcionando-os um lar condigno, educação, saúde e alimentação.

Nilsa deixou de estudar para cuidar dos irmãos

Nilsa Zimba faz parte de milhares de meninas que se viram obrigadas a abandonar os estudos para cuidar dos seus irmãos mais novos. É ela que garante a educação e alimentação da família constituída por seis elementos, sendo cinco irmãos com idades compreendidas entre 8 e 17 anos e sua filha de dois anos.
Com 19 anos de idade, residente num dos bairros da cidade de Xai-Xai, Nilsa ficou órfã de pai e mãe quando tinha 12 anos, tendo assumindo desde essa altura a responsabilidade pela família. O pai foi o primeiro a perder a vida e depois a mãe, deixando um bebé de três anos, hoje com oito. Segundo contou ao nosso Jornal, o pai suicidou-se em 2006, quando soube que tinha HIV e SIDA, deixando a mulher grávida, que também veio a morrer em 2008.
Nilsa explicou que desde a morte dos pais, ela e os seus irmãos têm passado por momentos difíceis, cuja sobrevivência depende da REENCONTRO que lhes proporciona alguns víveres e educação. “Para além da comida da Reencontro, faço alguns trabalhos nas machambas dos vizinhos, tranças, tiro água e com o dinheiro que me pagam, compro comida e roupa para os meus irmãos e minha filha”.
Segundo ela, a família recebe da Reencontro arroz, sabão, roupa, mantas e material higiénico. Porém, às vezes, disse Nilsa Zimba, a própria organização não tem comida suficiente para todas as crianças carenciadas. E quando é assim, as dificuldades aumentam.
Infelizmente, agora todos os irmãos da Nilsa não estudam e alegam a falta de meios, justificação que é refutada pela “tia Luísa”, a activista que assiste as crianças. Esta activista disse que os meninos, incluindo a própria Nilsa não vão à escola por simples preguiça. A Nilsa frequentou a escola até à quinta classe e os restantes irmãos, com idades compreendidas entre 17, 15, 12 e 8 anos, também estão no ensino primário. “Eu falo com eles para irem à escola, mas não vão. Quando saem de casa ficam pelo caminho e regressam com os outros meninos como se tivessem chegado à escola”, afirma Nilsa Zimba mostrando-se agastada com esta situação dos irmãos, pois entende que se eles não estudam, o seu futuro está comprometido uma vez que nunca terão acesso a nenhum emprego. Tratada por mãe pelos irmãos mais novos, Nilsa disse que ela própria deixou de ir à escola pela multiplicidade de tarefas que tem, próprias de quem cuida de uma família. “Infelizmente, tenho que cuidar da casa e procurar comida para nós, por isso não tenho cabeça para mais nada”, lamentou-se. Aliás, ela disse que assumiu um compromisso com a falecida mãe, no leito do hospital, poucas horas antes de morrer, de ficar a cuidar dos irmãos. É isso que está a fazer. O resto não é prioritário.

Com apenas cinco anos conhece a hora da medicação

É impressionante. Nilton Muianga tem cinco anos de idade e é órfão de pai e mãe desde o primeiro ano de vida. Florência Muianga, 19 anos de idade é a irmã mais velha de Nilton, que contou à nossa reportagem que o menino sabe exigir o medicamento logo de manhã e à noite, antes do jantar. “Ele nasceu doente e toma medicamentos todos os dias, às 7 horas da manhã e às 19 horas. Quando falhamos dar-lhe naquela hora é ele que nos recorda, isto é, não aceita tomar pequeno-almoço, nem jantar antes de tomar os comprimidos”.
Florência tem quatro irmãos, nomeadamente Paulo e Sofia Muianga, gémeos com 16, Androce Muianga, 12 e Nilton Muianga com 5 anos. Ao contrário do cenário vivido na família da Nilsa, Florência e os irmãos apostam na sua educação. “Com ou sem comida não faltamos à escola, eu estou a frequentar o 2º ano do curso de Serralharia Mecânica, o Paulo está na 8ª classe e Sofia e Androce na 5ª classe”, disse.
O pai destas crianças trabalhava nas minas da África do Sul, tendo perdido a vida em 2007 e a mãe, doméstica, morreu em 2008, ambos vítimas do HIV e SIDA. Desde essa altura, Florência assumiu a responsabilidade pela família. “É verdade que eu já cuidava dos meus irmãos antes da mamã perder a vida, porque ela e o papá adoeceram muito. Eu tive que cuidar dos dois, na altura com 13 anos de idade”, salientou acrescentando que depois da morte da mãe, a REENCONTRO levou o bebé para o infantário, porque para além da idade estava muito doente.
Os cinco irmãos recebem o apoio desta organização em todos os aspectos. Depois da morte dos pais a vida dos petizes mudou radicalmente. “Nunca antes dormimos sem comer, porque o nosso pai era um homem trabalhador e a nossa mãe cuidava de nós”, disse acrescentando que hoje é normal passar o dia sem tomar uma refeição, pois quando a comida é pouca deixamos para os mais novos”.
O sonho da Florência é concluir o ensino médio e ingressar no ensino superior, enquanto Paulo quer ser policia. O Androce quer ser enfermeiro e a Sofia ainda não se decidiu sobre o que gostaria de seguir depois da 12ª classe. Os meninos sabem que para alcançar os seus sonhos devem estudar, muito, dai que não precisam de ninguém para lhes sensibilizar, quando o assunto é ir à escola e fazer os trabalhos de casa. As duas famílias, a da Nilsa e da Florência beneficiaram de casas melhoradas, construídas pela REENCONTRO, constituídas por dois quartos e uma sala.

REENCONTRO assiste mais de mil órfãs em Gaza

Segundo a Coordenadora da REENCONTRO em Gaza, Mónica Bila, no total são assistidas por esta organização 1374 crianças dos 0 aos 18 anos, distribuídas por 500 famílias. “Nós apoiamos as crianças no seio das suas próprias famílias e temos como prioridade crianças vulneráveis, com destaque para aquelas que são chefiadas por outras crianças.
Para além de apoiar os menores, a organização presta também assistência a adultos com doenças crónicas, em colaboração com o sector da saúde.
Mónica Bila lamentou o facto de muitas organizações como o Programa Mundial de Alimentação (PMA) terem suspendido o apoio alimentar que prestavam às famílias necessitadas, incluindo as chefiadas por crianças. “Com esta situação torna-se mais difícil o nosso trabalho, porque são crianças que não têm o que comer, mas também temos outro grupo de doentes crónicos sem meios de sobrevivência”, queixa-se a coordenadora, afirmando que alguns destes petizes recebem o apoio da Acção Social, mas é insuficiente para o nível das suas necessidades.
Mónica Bila contou que há vezes em que a associação não tem alimentos para as crianças e quando é assim, tiram das suas casas para lhes dar. “Quando a associação não tem comida, as crianças vão chorar nas nossas casas e não há outro jeito senão tirarmos comida do nosso rancho. Aliás, na prática, estas crianças fazem parte dos nossos agregados familiares ”, disse a coordenadora para quem a sua ligação com os meninos não difere com a dos seus filhos.
Para fazer face às dificuldades, a organização em Gaza está a cultivar uma machamba de 3.5 hectares, na qual semeou mandioca, milho e feijão. Também abriu um estaleiro de venda de lenha e estacas de construirão e pedra, na cidade de Xai-Xai.
A REENCONTRO - é uma organização não governamental que apoia crianças órfãs e vulneráveis. Tem a sua sede em Maputo e para além da capital, opera também na cidade de Xai-Xai, Chibuto e Manjacaze. Notícias
  • Joana Macie

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