O porta-voz da Renamo, Fernando Mazanga, veio a público anunciar a disponibilidade do seu líder, Afonso Dhlakama, de dialogar com o Presidente da República, Armando Emílio Guebuza. De acordo com Mazanga, Dhlakama está disponível “vinte e quatro sobre vinte e quatro horas”, informação que não deixa de ser interessante esta!
Curiosamente, depois da reacção do porta-voz da Renamo, a Presidência da República veio a público anunciar que “ainda esta semana pode haver encontro entre o Presidente da República e Afonso Dhlakama, Presidente da Renamo”. Recorde-se que o Chefe do Estado recebeu, semana finda, membros do Observatório Eleitoral que lhe foi manifestar preocupação sobre a tensão que se vive no país. Esta ONG, segundo o seu porta-voz, solicitou em simultâneo um encontro com o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, que se aventa a hipótese de acontecer em Satunjira, em Gorongosa. Coloca-se aqui a questão: de que vinte quatro horas se refere Mazanga?
Aos olhos da sociedade moçambicana e não só, o encontro ao mais alto nível, visa desanuviar a tensão militar que se vive na Estrada Nacional Nº1 entre o rio Save e Muxúnguè, afectando, sem dúvidas, todo o território nacional. Esta tensão militar foi anunciada pelo Brigadeiro Jerónimo Malagueta em conferência de imprensa convocada para o efeito, numa clara medição de forças entre o Estado e a Renamo como partido político militarizado. Este brigadeiro encontra-se preso acusado de incitamento à violência, presunção minha, uma vez que, não conheço o teor da acusação, para alguns analistas, não era preciso esperar-se pela efectivação da ameaça para prendê-lo, bastavam as declarações na conferência de imprensa para levar o referido brigadeiro à prisão. Por ser contra o Estado de Direito a ameaça que proferiu, mais não carecia de queixa, por ser crime público. Aqui, provavelmente, a não prisão na devida altura deveu-se ao facto de, muitas vezes, fazer-se ameaças e parar por aí, pensa-se que, poderia ser mais uma ameaça sem efeitos práticos. Engano de todos nós!
O curioso nesta detenção do brigadeiro foi a concentração de alguns membros da Renamo que pretendiam forçar a sua soltura, alguns incluindo o porta-voz da Renamo que disse que Malagueta falou ao abrigo da liberdade de expressão e de opinião. Ora veja-se onde chegou a nossa democracia, as liberdades de que gozam os membros da Renamo não gozam os restantes cidadãos deste país? Acaso a liberdade de circulação de pessoas e bens não é constitucional? A consumação de ameaça dessa liberdade não constitui crime? Morreram pessoas e foram destruídos bens, mormente viaturas incendiadas, a quem responsabilizar sobre estes danos todos, sejam eles humanos e materiais?
Anuncia-se o encontro ao mais alto nível do Governo e da liderança da Renamo. Na minha opinião, a Renamo deve anunciar diálogo com as vítimas dos seus ataques ocorridos depois de 20 de Junho na Estrada Nacional Nº1 por se reconhecer que são da sua autoria. Se o governo irá abordar ou nunca sobre os danos militares é outra coisa, mas em relação as pessoas conhecidas e que foram vítimas da Renamo deve haver diálogo. Esse deve ser o diálogo que se segue, sendo importante que o porta-voz da Renamo apareça e anuncie a disponibilidade de o seu partido arcar com as consequências dos seus actos porque, de contrário, outras mortes se seguirão para se conseguir encontro ao mais alto nível do Estado. A sociedade não deve viver a mercê de homens armados de um partido político que até se acha representado a nível Parlamentar e nas autarquias.
Aqueles que, ao longo dos 20 anos de paz minimizaram a existência de homens armados da Renamo, acredito que depois de 20 de Junho de 2013, não têm dúvidas que estes devem ser desarmados imediatamente. É verdade que, sendo eles membros de uma organização, desarmá-los deve obedecer ao princípio de respeito por eles, nada de hostilidades pessoais, eles não são por si só, “bandidos armados”.
Esta denominação deve-se atribuir ao partido que os sustenta. Eles são simples instrumentos da Renamo que servem quando assim as lideranças decidirem, por isso, mesmo a responsabilidade sobre as mortes após o 20 de Junho são do partido Renamo. E é por isso que, na minha opinião, Fernando Mazanga deve anunciar a disponibilidade de dialogar com os seus familiares e proprietários sob pena de estes intentarem acções judiciais. Penso que o período de bónus pelos 16 anos de guerra acabou.
Neste sentido, é importante chamar-se atenção a alguns órgãos de comunicação social que, reportam de forma sensacional a morte dos militares e polícias, atribuindo a isto a sua incapacidade de reacção. Até pode ser, no entanto, é preciso recordar a esses órgãos de comunicação que governo só existe um, sendo que a prerrogativa de uso de armas de fogo é exclusiva do governo. Por isso, não se pode atribuir “provocação da FIR ou da PRM” como desculpa para as mortes mesmo antes do 20 de Junho.
Este é o diálogo que deve seguir, aguardo ansiosamente pelo seu anúncio! Notícias
- Adelino Buque
Sem comentários:
Enviar um comentário