sábado, 3 de agosto de 2013

Megaprojectos podem contribuir para políticas bem traçadas no país

O economista Carlos Nuno Castel-Branco considerou anteontem, na cidade da Beira, que os megaprojectos não podem só por si resolver todos os nossos problemas, mas que podem contribuir desde que sejam traçadas políticas correctas que conduzam a esse objectivo. Com o título “Da extracção à industrialização, que opções para Moçambique?” Carlos Nuno Castel-Branco, proferiu na Universidade Católica, Beira, uma palestra versando as indústrias extractivas ou economia extractiva, como também designou.
Fazendo um enfoque nos recursos naturais, especialmente os minerais, energéticos e florestais, o orador falou do interesse, investimento, concentração e impactos (mais ou menos positivos ou negativos, dependendo da questão), considerando que é uma abordagem limitada.
Castel-Branco, que falava para uma vasta plateia composta maioritariamente por estudantes e docentes da Falculdade de Economia e Gestão da UCM, entidade organizadora do evento, mencionou a perda de informação quando se aborda a questão da história extractiva da economia de Moçambique (como o excedente mais-valia é gerado, apropriado e utilizado).
Referiu-se às ligações dentro da economia — do núcleo duro extractivo para a sua periferia produtiva, finanças e serviços e para o sistema de reprodução da economia. Por exemplo, como é que a economia se reproduz e o que cria os chamados “paradoxos” da economia de Moçambique: Investimento e ligações, aplicação do excedente apropriado privadamente e ligações, bem como porosidade e ligações.
Falou também da incapacidade de explicar os “paradoxos” da economia de Moçambique (crescimento vs pobreza vs dependência vs afunilamento vs comida vs vulnerabilidade e volatilidade macroeconómica vs discurso político dualista, etc), bem como do que chamou de risco de balcanização onde cada grupo social, região e sector tem objectivos específicos, que ficarão ainda mais sérios quando o excedente começar a fluir.
O académico,  que é investigador e director do IESE (Instituto de Estudos Sociais e Económicos), fez alusão à necessidade de um fio condutor ou sistema social de acumulação ? que possa integrar a análise a vários níveis e entre as várias actividades, pressões-ligações e agentes, e possa revelar tensões, conflitos e opções e seja historicamente consistente e coerente.
“Em última análise, economia política do capitalismo moçambicano — isto é, do processo historicamente específico de organização social e técnica de produção de mercadorias, apropriação e utilização do excedente e dos recursos, as relações com as finanças e com o estado, a diferenciação e formação das relações de classe e género”, sublinhou.
O orador perguntou porque é que a economia extractiva ou o carácter extractivo da economia é um problema e deu a seguinte resposta: “Porque a economia é ineficaz a transformar crescimento em redução drástica da pobreza e em desenvolvimento de base alargada. Mais grave ainda, a economia está a ficar ainda mais ineficaz a reduzir a pobreza e alargar a base de desenvolvimento à medida que a sua expansão acelera ? portanto destacou — parece haver uma associação entre a reprodução e a expansão da base económica e a ineficácia da economia a responder às necessidades do desenvolvimento nacional amplo — e a reprodução da base económica está a criar pobreza (expropriações, preço, qualidade e acesso dos bens e serviços de consumo básico, emprego miserabilista, etc) e a impedir a diversificação da base produtiva”.
Acrescentou que dinâmicas de instabilidade, vulnerabilidade e volatilidade, intrínseca a uma economia afunilada, estão se estabelecendo e também que o Estado está ficando cada vez mais focado e obcecado com os interesses do grande capital doméstico e global, perdendo a perspectiva social mais ampla do país. A retórica nacionalista mascara uma profunda dependência em relação ao capital.
Castel-Branco colocou algumas questões que classificou de básicas como: 1. “Os benefícios da exploração dos recursos naturais se expandem para além da vida útil desses recursos?”
2. “Não vamos ter saudades destes recursos quando se esgotarem?”
3. “Que a exploração destes recursos ajuda a aumentar a eficácia do crescimento económico em reduzir pobreza e a alargar a base de desenvolvimento?”
4. “E que a riqueza gerada é retida e usada em Moçambique na criação e reprodução de uma economia diversificada, articulada e capaz de satisfazer as necessidades do bem estar e do desenvolvimento?
O orador respondeu a estas e outras questões colocadas pelos participantes, na perspectiva de que os megaprojectos não podem só por si resolver todos os nossos problemas,  mas que podem contribuir desde que sejam traçadas políticas correctas que conduzam a esse objectivo. Diário de Moçambique

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