Trabalhadores da filial angolana China International Trust and
Investment Corporation (CITIC) acusam a empresa de maus-tratos e
denunciam casos de funcionários que morreram e que acabaram enterrados
às escondidas.
Para além dos colegas que morreram e cujos corpos despareceram, os
trabalhadores da empresa China International Trust and Investment
Corporation (CITIC) em Angola queixam-se da falta de assistência médica e
de atrasos no pagamento das remunerações salariais.
A maioria dos funcionários vem de províncias do interior de Angola.
Entre eles está Manuel Figueiredo Loguembia, que saiu da Huíla há cinco
meses para procurar emprego. Na CITIC, encontrou os conterrâneos, que
trabalhavam há mais de dois anos nesta empresa.
Porém, inconformado com os maus-tratos a que era submetido, Manuel
Figueiredo Loguembia abandonou o estaleiro em setembro, juntamente com
outros companheiros. Temem pelas suas vidas, uma vez que os dirigentes
da empresa são figuras políticas, como o Presidente da República, José
Eduardo dos Santos.
Corpos desaparecidos
O jovem denuncia casos de trabalhadores que morreram na sequência dos
maus-tratos, mas que foram imediatamente enterrados para sonegar o
assunto.
"Morre-se durante a noite, mas eles desligam as luzes e deitam o corpo
fora. Encontram uma vala e é aí onde o enterram sem ninguém saber",
explica o jovem.
"Se alguém do quarto se aperceber que fulano morreu, mandam-no calar com
duzentos ou trezentos mil kwanzas (dois mil dólares ou três mil
dólares)", denuncia, acrescentando que se os trabalhadores estiverem
doentes "têm de pagar a própria medicação” e a consulta porque “nada é
de graça, tudo é a pagar".
Os feriados e fins de semana não são respeitados nesta empresa, o valor
dos talheres e da comida é descontado dos salários e o valor das
remunerações é baixo.
"Não temos feriados, não temos domingos… Não temos dia [de folga]. É só
trabalhar… Quando toca [o despertador] às quatro e trinta, acordamos, às
seis horas estamos na fila do pão e às 11 horas na fila do almoço com
arroz sem sal", descreve Manuel Figueiredo Loguembia.
O jovem diz ainda que a vigilância no local de trabalho é feita por
elementos da Unidade da Guarda Presidencial (UGP) da República de
Angola.
Poder judicial refém do poder político
Para o responsável da Fundação Open Society-Angola, Elias Isaac, esta
situação é consequência do fraco poder judicial no país, que diz ser
refém do poder político.
"Quando num sistema político e de governação não existem fronteiras
entre o governo e o partido, mas sim um sincretismo, então todos os
órgãos do Estado, em particular o sistema judicial e até mesmo o sistema
legislativo, perdem a sua utilidade política e tornam-se reféns do
executivo ou reféns de um grupo de indivíduos. E este é o caso de
Angola", lamenta Elias Isaac.
O ativista social António Francisco lembra que muitas famílias já perderam vários dos seus membros nesta empresa.
"E até hoje muitas pessoas ainda procuram Justiça. Pedem sobretudo as
certidões de óbito para que de facto se assumam as culpas", frisa.
A DW África contactou a empresa CITIC e o Ministério da Administração
Pública, Trabalho e Segurança Social, mas estas entidades preferiram não
comentar o assunto. Deutsche Welle
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