Terra dos pais da nação em Gaza, berço da guerra na Gorongosa e origem
do sonho alternativo na Beira – três bastiões dos partidos dominantes em
Moçambique, em vésperas das eleições gerais que vão testar 40 anos de
governação Frelimo e uma paz alcançada em plena campanha.
Se quisesse seguir o caminho mais fácil, Miguel Jamisse teria um
cartão tão vermelho como as bandeiras que se erguem ao longo de centenas
de quilómetros em Gaza, uma faixa monocolor do partido no poder, no sul
do Moçambique.
Inhambane não é assim e Maputo muito menos. Mas a
província que se encrava entre ambas irrompe como uma manifestação
constante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), que na
quarta-feira defende em eleições gerais a continuidade de 40 anos de
governação do país.
Contra tudo e todos, Jamisse fez subir uma
solitária bandeira do MDM (Movimento Democrático de Moçambique) no
poeirento mercado de Macia, mesmo ao lado de mais uma do partido
adversário. Fundador local daquela força política em ascensão, denuncia
uma campanha de perseguição contínua e frequentemente ouve ameaças de
que a sua loja de mobílias vai arder. Tal como aconteceu ao interior da
sede do partido em Abril passado.
“Fiz essa casa com as minhas
próprias mãos. Eu também já fui da Frelimo quando todos éramos Frelimo,
mas nunca queimei casas”, declara o líder local, junto do que restou da
construção em blocos de cimento, agora revestida com cartazes do
candidato presidencial do partido, Daviz Simango, e seu slogan “Moçambique para todos”.
“Quando
saímos à rua, perseguem-nos e bloqueiam-nos com os carros, levantam
tanto pó que nem se vê mais nada. Obrigam os nossos apoiantes a despir
as camisetas do MDM e a vestir as deles e a polícia ainda nos prende
arbitrariamente”, descreve o dirigente político, que, antes da campanha
esteve detido cinco dias. “Não há condições para eleições aqui.”
A
vila de Macia foi um dos palcos de ataques de apoiantes da Frelimo, na
terceira de seis semanas da campanha, à caravana eleitoral de Simango,
em vários pontos da província, resultando em violentos confrontos entre
membros dos dois partidos e posteriores acusações de tentativa de
assassínio do líder político.
“Pelo que vi na televisão, quem
levou porrada foram os homens da Frelimo e quem levava paus era a
oposição”, comenta Samuel Matsinhe, primeiro secretário da Frelimo em
Xai-Xai. Embora autorizado a falar apenas sobre o que se passa na
capital de Gaza, a ideia de que toda a província é dominada pelo partido
no poder “não passa de um mito”.
‘Chapa 100’
A
longa avenida que atravessa Xai-Xai cobre-se com cartazes do partido no
governo e seu candidato, vendedores informais vestem literalmente
Frelimo, à sombra das arcadas dos prédios coloniais e, mais uma vez, a
oposição está ausente, por alegada falta de autorização dos donos dos
edifícios. “Se os outros não conseguem, problema deles. Há muitos postes
e sítios públicos por aí”, observa Matsinhe.
Da sede do partido
de Armando Guebuza, colunas potentes lançam para a rua hinos da Frelimo
cantados em changana. É lá o ponto de partida e chegada de activistas
que promovem Filipe Nyussi, o primeiro candidato presidencial do partido
sem origem na elite do sul, de forma “ordeira e pacífica”, garante o
primeiro secretário. Mas, para o porta-voz local da Renamo (Resistência
Nacional Moçambicana), Bento Mavie, “Gaza é o inferno da democracia”.
“Quem
não se identifica com a Frelimo está condenado. Não tem emprego, não
tem casa, não tem nada”, declara o ex-professor primário, que diz ter
sido afastado há 22 anos do ensino pela sua filiação na oposição.
“Quando os meus grupos saem para a campanha estou sempre a perguntar-me o
que lhes pode acontecer.”
A sede da Renamo em Xai-Xai situa-se no
interior de um bairro residencial, assinalada por bandeiras do partido
da perdiz que só os vizinhos conseguem ver. Precisa de obras. As fotos
do líder histórico do partido, Afonso Dhlakama, têm décadas e ali a
Frelimo ainda é referida como um partido comunista.
A intolerância
na província é ainda mais grave nos distritos rurais, miseráveis e
isolados, segundo a oposição, que enfrenta dificuldades de recrutamento
de membros para as mesas de voto e delegados de candidatura por “medo de
represálias”. Em Chibuto, Pedro Pelembe, dirigente local da Renamo,
interrompeu a campanha “por causa dos maus-tratos dos homens da
Frelimo”. Tanto a sua casa como a sede local do partido foram invadidas
por adversários. “Não destruíram nada, foi só para humilhar mesmo.”
Terra
natal de Eduardo Mondlane, Samora Machel e Joaquim Chissano, Gaza é
mais do que o berço dos pais da nação, é a única província moçambicana
onde a oposição nunca elegeu deputados e a vitória da Frelimo permanece
certa: “Chapa 100”, como ironizam apoiantes do partido, em alusão ao
nome das carrinhas de transporte semipúblico, ou “Frelimistão”, capa do
semanário privado Savana, após o desfile de pancadaria à passagem do líder do MDM. Público
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