Em vez de serem levados à esquadra pela Polícia, manifestantes angolanos
foram levados a uma escola, onde foram violentados e depois trancados
num estádio. Tudo aconteceu no sábado (11.10) no começo de uma
manifestação.
Os atropelos à lei por parte da Polícia não serão tolerados, garantem os
manifestantes. No total cerca de 20 manifestantes foram detidos, mas
depois a maioria foi libertada. A DW África entrevistou um dos agredidos
pela Polícia, o ativista Nito Alves.
DW África: Conte-nos como tudo aconteceu...
Nito Alves(NA): Dia 11, no sábado passado, nós,
auto-denominado Movimento Revolucionário, sociedade civil, jovens
ativistas cívicos, tínhamos marcado uma manifestação contra a Lei da
Nacionalidade. Quando eram 13 horas, eu, Manuel Nito Alves, Adolfo
Campos, Alex Cabalala, Hermenegildo Costa e outros colegas meus da
sociedade civil fomos até ao Largo da Independência criar o processo da
manifestação. Não caiu nada bem por parte dessa gente que detém o poder,
falo da pessoa de Francisco Notícia, comandante da divisão da Maianga.
Prendeu-nos, eu e outros colegas fomos torturados e até agora estamos
machucados. Eu estou com o braço fraturado, o Adolfo Campos também está
magoado. E não é nada bom num status quo democrático e de
direito, na pessoa de José Eduardo dos Santos que faz bons discursos,
que fala em construir um Estado com democracia, e aparece com esse
comportamento de vândalos, como o Governo. Esse é o diálogo com a
juventude que ele quer? Nós somos filhos deste Estado, somos angolanos,
queremos construir o status quo completamente democrático. Não
temos princípios de vandalismo, temos princípios éticos e educativos
para formar uma Angola democrática e justa.
DW África: Vocês foram levados para a esquadra? Em que circunstâncias aconteceu essa violência, no estádio, onde foi?
NA: A tortura começou a beira da estrada, defronte ao
estádio 1º de Maio, mas depois puseram-me na escola primária, no Largo
da Independência, onde fomos torturados pela Polícia Nacional, homens da
PIR, da investigação criminal, homens da contra-inteligência, SINFO, e
homens ligados ao MPLA, milícias, homens à paisana. Não foi nada bom o
que a Polícia fez conosco.
DW África: Foram levados a esquadra nalgum momento?
NA: Não fomos levados a esquadra, fomos levados ao
estádio de futebol. Ficamos lá abandonados das 14 horas e só nos
soltaram às 20 horas. Não tínhamos dinheiro para pagar o taxi, não
tínhamos como sair dali, estávamos machucados. Apareceram pessoas de boa
fé, que não conhecemos e conseguiram acolher-nos e levaram-nos até ao
hospital, a clinica do Prenda, aqui todos negaram dar-nos assistência.
Mas conseguimos ir até a Clinica de Alvalade onde estamos a fazer os
tratamentos médicos.
DW África: Prentedem processar a Polícia por não vos ter levado a esquadra e pela violência, o que pretendem fazer?
NA: Como se diz sempre, "queixar o porco ao javali",
mas vamos seguir os parâmetros legais, que é a lei. Vamos abrir um
processo-crime contra o comandante Notícia e contra o governo provincial
de Luanda, porque o governo provincial é que tem de informar a Polícia
que vai haver uma manifestação para nos protegerem.
DW África: No meio disso tudo desparareceu o manifestante Elias Batama, confirma?
NA: Essa informação esteve a circular nas redes
sociais, mas o nosso irmão encontrava-se detido, estava na esquadra da
Ilha, mas já está do nosso lado. Há seis pessoas presas, não desapareceu
mais ninguém, mas continuam presos e estão machucados. Peço a Polícia,
revolucionários e defensores dos direitos humanos que ajudem os nossos
manos a terem assistência médica lá no lugar onde se encontram.
DW África: Então, não houve nehum processo aberto na Polícia?
NA: Não há um processo concretamente aberto, mas estão a
acusar-nos de instigarem a desordem, vandalismo na esfera pública, na
cidade de Luanda. Mas temos a plena consciência de que temos dois
advogados que vão conseguir resolver esse caso, porque questões
judiciais os advogados da Associação Mãos Livres e advogados
independentes sabem como conseguir resolver esses casos.
DW África: A vossa manifestação teve autorização das autoridades de Luanda?
NA: Segundo o artigo 47 da Constituição da República de
Angola, a manifestação não é autorizada, dá-se a conhecer ao governo
provincial e este é que protege os manifestantes. Deutsche Welle
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