Ou Moçambique se ajusta para responder às dificuldades anunciadas pelas
companhias mineiras ou as consequências podem ser terríveis, diz o
economista moçambicano Ragendra de Sousa. O dilema está em debate no
país.
Decorre até ao dia 30 deste mês, em Maputo, a quarta edição da
Conferência Anual de Carvão, que junta membros do Governo moçambicano e
empresários do setor. A DW África entrevistou o economista Ragendra de
Sousa a este respeito.
DW África: Recentemente, a companhia mineira Vale Moçambique,
que opera em Moatize, na província de Tete, anunciou prejuízos de 44
milhões de dólares. O presidente do conselho de administração, Pedro
Gutemberg, apontou as despesas com logística para levar o carvão até aos
consumidores como uma das causas dos prejuízos. Qual a solução para
estes desafios logísticos apontados pela Vale?
Ragendra de Sousa (RS): A logística tem de ser, toda
ela, pensada. Os Caminhos de Ferro de Moçambique, "donos" da linha
férrea, têm de se voltar a sentar e renegociar o preço. Nesta situação
transitória de mercado, se eles operarem só ao custo do retorno do
investimento é uma decisão económica salutar. E isto pode baixar o preço
em trinta ou quarenta dólares, ou até mais.
DW África: Como enfrentar esse desafio imposto pela queda no
preço do carvão no mercado internacional, que passou de 80 dólares
americanos por tonelada, em abril deste ano, para 50 dólares neste
momento?
RS: Temos de procurar soluções na produção de energia, na produção de briquetes e, por que não, na transformação em combustível…
DW África: Recentemente, o grupo britânico “Ncondezi Energy
Limited” anunciou ter assinado um acordo não-vinculativo com a empresa
chinesa “Shanghai Electric Power Company” (SEPC) para a exploração de
uma central termoelétrica em Moçambique. Essa seria uma alternativa de
bom proveito para este recurso mineral?
RS: Absolutamente. A Hidroelétrica de Cahora Bassa, por
exemplo, já não tem capacidade. É o Estado que deve tomar a liderança
na engenharia financeira para montarmos, o mais rápido possível, a
espinha dorsal de transmissão de energia de Tete para a África do Sul,
de Tete para Maputo… O Zimbabué tem um défice energético, tal como o
Malawi. Como se vê, o mercado existe.
DW África: A informação que se tem é de que as reservas de
carvão de Moçambique seriam da ordem de 23 mil milhões de toneladas, mas
apenas 4,5 mil milhões estariam sendo explorados no momento. A que se
deve uma exploração tão inferior ao potencial?
RS: Tem a ver com a logística. A linha de Nacala não
está pronta e essa será uma grande linha de saída. Por outro lado, a
linha de Macuse, que ainda está na fase de negociação, também precisa de
ficar pronta.
DW África: Há algum outro fator importante que deve estar em discussão nesta conferência do carvão, em Maputo?
RS: Temos de olhar para a taxação e para os impostos. O
Estado tem de recalcular e ver se os pode ou não baixar. Porque todos
nós sabemos que é uma baixa de curto prazo. Depois, ao atingir-se os
níveis normais, irá voltar a taxar. Se a empresa está a sofrer esta
crise de mercado, todos os intervenientes têm de se ajustar para que não
haja um colapso das cidades de Moatize e Tete. E nós teríamos
convulsões sociais incalculáveis. Deutsche Welle
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