O preço do petróleo no mercado internacional caiu de 100 dólares para
quase 80 nos últimos três meses. A atual queda é a pior dos últimos seis
anos. Angola, que tem a sua economia dependente do petróleo, está
preocupada.
Por causa da queda do preço do petróleo, o Orçamento Geral do Estado
(OGE) será discutido no Parlamento angolano já na próxima semana. O
objetivo é fazer contenções nas contas públicas.
António Sapalo é economista angolano e também secretário nacional para
economia e finanças no Partido da Renovação Social (PRS). A DW África
entrevistou-o sobre essa relação de dependência.
DW África: Em 2008 o mercado internacional registou baixas
históricas no preço de petróleo, facto que deixou Angola na "corda
bamba". De lá até hoje que medidas concretas foram tomadas pelo Governo?
António Sapalo (AS): As políticas e as medidas não têm
sido tomadas com uma visão estratégica e numa base sustentável, mas sim
numa base pontual tendo em conta as visões político-partidárias
simplesmente visando a manutenção do poder. O dinheiro que vem das
receitas do petróleo deveria ser usado em políticas de investimento, de
modo a que a economia do país se diversifique e produza o suficiente,
mas não é isso que tem acontecido.
DW África: Um país com um potencial agrícola e hidríco muito
grande como Angola tem estratégias e políticas financeiras direcionadas
para este setor ou pelo menos nos últimos anos o país traçou alguma
coisa nesse sentido?
AS: Tem traçado, mas não numa visão sustentável. É que o
desenvolvimento de um país tem a ver com fortes investimentos. Para
além do desenvolvimento do próprio país isso contribui para a redução do
desemprego, mas não é isso o que acontece. O que acontece é que há
muitas pessoas que querem investir, mas apesar das suas capacidades,
competências intelectuais e experiência, não conseguem obter
financiamento do Estado. Só são financiadas determinadas pessoas
simplesmente ligadas ao regime do MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola, no poder] e ao próprio Presidente José Eduardo dos Santos.
São aqueles que recebem dinheiro e cuja missão é o branqueamento da
imagem do MPLA e de José Eduardo dos Santos. Esses conseguem
financiamento. E mesmo conseguindo financiamento não conseguem realizar
projetos que visam tirar, de facto, Angola da situação de dependência
exclusiva do petróleo. Esse é que é o problema grave. Então, com a queda
do preço do petróleo no mercado internacional, Angola vai viver várias
dificuldades, porque há programas e projetos no OGE cuja materialização
estará em causa porque as receitas do Estado simplesmente têm a ver com o
petróleo.
DW África: O OGE vai ser discutido pelo Parlamento na próxima
semana, tendo em conta a racionalidade das despesas públicas por causa
da queda do preço do petróleo. Este é um indício de que, realmente, não
houve até agora o devido esforço para se diminuir a dependência do
petróleo?
AS: Certamente. O problema que acontece aqui em
Angola é mais político-partidário. O OGE também contém rubricas
invisíveis, há determinados beneficiários durante esses anos do dinheiro
do Estado e que não são revelados. São entidades que não investem no
desenvolvimento económico do país.
DW África: Caso o Governo insista nesta linha, quais são as consequências a longo prazo para o país?
AS: São consequências políticas e sociais que vão
resultar numa crise política nacional. Neste momento Angola é um país
com um índice de desemprego muito elevado e esse índice de desemprego
simplesmente é omitido pela força política e administrativa do próprio
regime. Nós temos um elevado número de angolanos sem emprego e com esta
situação o problema ainda se agrava mais. O regime neste momento vai
usar medidas coercivas para manter a situação estável - medidas
administrativas coercivas, preventivas, intolerância política. Se os
cidadãos se tentam manifestar, o regime põe outros serviços secretos na
rua a raptar pessoas, a matar e a pô-las na cadeia. Por enquanto, ele
vai usando esses mecanismos ditatoriais, mas a longo prazo a situação
será incontrolável e vamos ver uma crise económica, social e política
grave que terá consequências políticas também graves. Deutsche Welle
Sem comentários:
Enviar um comentário