sábado, 22 de novembro de 2014

Tem de haver clareza nos objectivos da indústria extractiva

Joaquim Dai, economista e presidente da AMECON, em entrevista ao “Stv Notícias”, falou do contexto actual da economia moçambicana nas várias vertentes e deu a entender que o processo de industrialização será longo e complexo. Na indústria extractiva, é importante desenvolver planos de acção mais claros para acelerar a prosperidade económica
 
A AMECON é uma das organizações cujo foco é buscar soluções para as várias preocupações nacionais, contribuindo desta forma para a edificação da economia e da sociedade. Como é que actua para a concretização destes objectivos?
 
Para alcançar os nossos objectivos, desde 1997, temos vindo a tentar colaborar com as entidades que fazem economia, debatem e principalmente pensam economia. Nós não temos um carácter vinculativo, somos uma instituição de advocacia e o que tentamos fazer é dar opiniões, principalmente sobre matérias que estão por vir. É que, muitas vezes, as pessoas debatem temas que já foram falados ou procuram opinião sobre algo que já aconteceu. O nosso objectivo é pensar do ponto de vista não só “macro”, mas também “micro”, na componente económica do desenvolvimento, seu impacto da sociedade e procurar formas de praticar economia pública e das empresas no sentido de trazer o desenvolvimento, que no final seja benéfico para o país e para as sociedades.
 
Joaquim Dai preside à AMECON desde Maio de 2011. Na sua tomada de posse, disse que o seu mandato seria marcado pelo relançamento da organização no sentido de a tornar mais conhecida e interventiva em questões que dizem respeito ao desenvolvimento do país. Que balanço faz, três anos depois?
 
Na verdade, já devíamos ter feito a nossa assembleia-geral, para apresentar o trabalho que já fizemos. Já apresentámos o nosso relatório de actividades, mas temos de apresentar uma visão de futuro para a nossa AMECON. Não gostamos de nos avaliar a nós próprios, normalmente deixamos esse papel para a nossa assembleia-geral e para os nossos associados, todos os economistas e interessados pelas áreas económicas. Mas o balanço é positivo. Nós tentámos criar uma visão de uma AMECON aberta, em que as nossas opiniões pudessem ser interpretadas e entendidas por vários actores económicos. Queremos que essas pessoas percebam o que está a acontecer, que a nossa linguagem seja técnica o suficiente para ser justificada aos economistas e clara o suficiente para ser entendida pelos estudantes, governantes e legisladores, que terão de repensar em algumas das nossas ideias e adaptá-las à legislação e à componente legal do país, para o alcance dos objectivos económicos. Do ponto de vista de abrangência, também saímos satisfeitos. Nós tínhamos assumido que queríamos centrar na AMECON o debate de questões económicas e quando somos chamados ao Banco Mundial em Washington, na Europa, e em importantes palestras dentro e fora do país, é sinal de que conseguimos este objectivo.
 
Há alguns meses, o presidente da AMECON integrou uma equipa que deu início à discussão dos passos a dar rumo à industrialização do nosso país. Qual é a essência desse programa e em que pé está?
 
É um programa encabeçado pela CTA (Confederação das Associações Económicas de Moçambique) e que a AMECON achou que está em condições de dar algumas contribuições. De há alguns anos a esta parte, temos vindo a dizer que achamos que o futuro do país passa pela industrialização, pela criação de cadeias de valor alicerçadas nessa industrialização, pela criação de infra-estruturas de suporte que vão ligar estas cadeias de valor, para reduzir o tempo de ligação entre elas. Falamos de infra-estruturas tais como pontes, estradas, electricidade, comunicações, instituições de saúde, de ensino. Para isto, a industrialização deve estar no centro, porque não se pode, por exemplo, desenvolver a Revolução Verde com a enxada de cabo curto. Tem de haver industrialização. A conclusão a que chegamos é que temos de definir uma estratégia industrial muito clara de desenvolvimento do país, que contém vários sectores, e cada um tem de ter a sua própria estratégia. A indústria é a componente que gera mais emprego, potencia o desenvolvimento tecnológico e cria o produto final. Para isto, há ue associar a tecnologia, formação de quadros e a concorrência e competitividade dos produtos. Conseguimos identificar o tipo de indústria que pretendemos desenvolver, o período de tempo, as metas e - mais importante - com quem estaremos a competir.
 
Quais são os factores-chave que vão determinar a industrialização de Moçambique, num contexto em que o país enfrenta a insuficiência de infra-estruturas, meios e domínio tecnológico, bem como de formação de capital humano?
 
Passa, essencialmente, pela política de incentivo industrial que tem sido implementada. Temos visto a nossa evolução no ranking “Doing Business”, que não é estático. Portanto, os factores-chave passam por identificar estas componentes, sobretudo a regulamentação para o incentivo industrial, como foi o caso da atracção da Mozal. Eu sou a favor da renegociação dos contratos com os mega-projectos, mas é preciso entender que renegociação não é revogação dos contratos, mas sim chegar a um entendimento em que as duas partes não saem a perder e o país consiga ganhar mais. Estes tipos de incentivos industriais devem ser aplicados no futuro e é preciso determinar outro tipo de incentivos de políticas industriais, outras indústrias que vamos identificar como sendo de sucesso. Portanto, achamos que temos potencial económico enorme, mas, infelizmente, não podemos fazer tudo ao mesmo tempo, há que estabelecer prioridades, e essa é a pior tarefa de quem está a liderar, e aí a AMECON não pode dizer ao Estado o que deve fazer.
 
Que tipo de indústrias Moçambique tem potencial para desenvolver, olhando para a estrutura actual do país a nível económico, social e político?
 
Esta é uma opinião muito própria, não como presidente da AMECON. Temos que potenciar a indústria agrícola. Não vamos desenvolver a agricultura se não tivermos cooperativas agrícolas. Os bancos comerciais não são bancos de desenvolvimento ou de fomento agrícola. Nunca foram. Olhemos para alguns países altamente industrializados na componente agrícola, como Brasil, Estados Unidos, Alemanha, França e Inglaterra, são países onde a componente de financiamento à agricultura é específica. Esta é uma indústria que temos que potenciar e temos capacidade para tal, já que temos produtos que podem ser produzidos como únicos em Moçambique. Há potencial na castanha de caju, que foi destruída pelas más políticas recomendadas por instituições internacionais, as indústrias de algodão e de açúcar. Temos que produzir, necessariamente, a indústria alimentar, que é crucial, e só será possível se tivermos infra-estruturas de acesso rápido, fiável e seguro às zonas de maior concentração populacional. E por falar nisto, a indústria de infra-estruturas é a que mais temos que aproveitar, uma vez que estamos na “varanda” do índico e com número considerável de países do hinterland que podem usar a nossa costa, daí a necessidade de potenciar a indústria de desenvolvimento logístico. Outra indústria crucial é a do turismo. Temos uma das maiores costas de África e não usar este potencial é um erro estratégico, mas só podemos utilizar se tivermos condições de acessibilidade. Ler +

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