ANA DIAS CORDEIRO
Caso de estudante agredida por oficiais da polícia e da Segurança do
Estado foi denunciado por partido da oposição e organizações da
sociedade civil, que exigem “um pronunciamento imediato do Presidente de
Angola a condenar o acto".
A activista angolana Laurinda Gouveia lembra-se da hora em que
começou. E de quando terminou. Lembra-se aproximadamente, porque chegou a
perder os sentidos ao longo das duas horas em que foi espancada e
torturada por elementos da polícia nacional e dos Serviços de
Inteligência e da Segurança do Estado (SINSE) de Angola.
Foi algemada para não poder defender-se,
descreve a própria num vídeo que circula na Internet, onde também foram
publicadas fotografias dos hematomas e ferimentos que lhe marcam o
corpo. “Quando começou eram 16h. E só terminaram às 18h”, diz sobre a
tortura de que foi vítima a estudante de 26 anos. O caso também é
denunciado no site de notícias Maka Angola, do activista Rafael Marques.
No
vídeo, a estudante do 2º ano de Filosofia da Universidade Católica de
Angola conta que, durante as duas horas ininterruptas em que foi
espancada, várias vezes pediu perdão “por não aguentar mais”. Um oficial
respondeu-lhe: “Essas histórias de desculpas vieram tarde de mais. Você
tem que nos prometer aqui, agora, que nunca mais vai participar em
nenhuma manifestação.”
O caso foi denunciado pelo partido da
oposição Bloco Democrático e pelo Grupo de Trabalho de Monitoria dos
Direitos Humanos (GTMDH) em Angola, que reúne várias organizações da
sociedade civil. Ambos exigem que os oficiais envolvidos sejam
responsabilizados criminalmente. Num comunicado, o GTMDH diz que depois
de reveladas as imagens "chocantes" da "brutalidade sofrida"
por Laurinda Gouveia, quer ver "um processo de investigação e
responsabilização de todos os agentes policiais e membros do SINSE
envolvidos". Também "exige um pronunciamento imediato do Presidente da
República" nesse sentido da abertura de uma investigação e "condenando o
hediondo crime".
“Seis comandantes da polícia e oficiais à
paisana do SINSE fizeram um círculo para me torturarem, enquanto os
subordinados assistiam”, conta a activista, enfatizando que eram os
responsáveis que a espancavam enquanto os agentes assistiam ou filmavam.
“Arrastaram-me com a cabeça no asfalto, atiraram-me para um carro e
levaram-me para a esquadra.” E lembra como começou: estava com outros
três activistas junto ao Largo da Independência, para a manifestação
convocada pelo Movimento Revolucionário, que organizou vários protestos
contra o Governo nos últimos anos.
Lembrar morte de activista
Desta
vez, a data – 23 de Novembro de 2014 – era evocativa da morte um ano
antes de Manuel Hilberto de Carvalho, conhecido por “Ganga”, um
engenheiro civil de 32 anos e militante do partido da oposição CASA-CE. O
activista colava cartazes na véspera de uma manifestação anti-Governo,
quando foi abordado e detido por elementos da guarda presidencial. Foi
levado e terá tentado fugir quando foi abatido.
Um guarda
presidencial foi acusado mas ainda não foi preso, lembrava a Human
Rights Watch (HRW) num comunicado divulgado a 4 de Novembro a propósito
da análise periódica a Angola – e outros países – no Conselho de
Direitos Humanos da ONU. Na reunião, o ministro da Justiça negou a
repressão policial de protestos pacíficos, justificando que os agentes
só intervêm quando as manifestações se tornam violentas, diz a HRW. A
organização dos direitos humanos voltava a constatar “a negação das
tácticas repressivas”, dando como exemplo o assassínio de Manuel “Ganga”
e revelando que as detenções de jovens manifestantes continuam em
Angola, bem como os episódios em que são espancados em esquadras onde
podem não chegar a ficar presos.
"Quem é o vosso líder?"
Laurinda
Gouveia sabia desses casos, e dos de Nito Alves, Emiliano Catumbela ou
Adolfo Campos, que, além de terem sido torturados, estiveram presos
várias semanas depois de levados de manifestações no ano passado. “Mas
nunca pensei que seria assim”, diz no vídeo. A activista relata os
insultos e torturas e diz que enquanto lhe batiam, com bastões e cabos
de aço, lhe perguntavam por que razão participava nesta manifestação.
“Por que fazem vocês isto? Quem vos manda? Quem é o vosso líder?”
As
perguntas sucederam-se, com Laurinda a desmentir ser motivada nas suas
acções pela oposição ao Presidente da República. “Nós não temos líder”,
respondia. “Nós somos activistas e achamos que podemos fazer alguma
coisa para mudar o país.” Queria acalmar “a raiva” com que lhe batiam.
“Eu pedia perdão e eles continuavam, daquela maneira sem piedade.” E de
novo, a pergunta: “E qual é a mudança que vocês querem? Porquê tanto
ódio contra o Presidente?” E mais ameaças: “Você tem que parar porque um
dia, se a encontrarmos numa manifestação, não vamos bater-te, vamos
matar-te.” Público
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