quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Angola 2015: Dinheiro continuará nas mãos da família presidencial

Em 2015, Angola vai estar no centro da diplomacia africana e para os dirigentes de Luanda trata-se de uma "nova imagem de Angola" que se afirma ao fim de 12 anos de paz. E ao nível interno que cenários se perspetivam?
 
O país transita para o novo ano com uma lista de problemas, principalmente aos níveis económico, social e político. A crescente desigualdade social e a baixa do preço do petróleo no mercado internacional poderão contribuir para o aumento do descontentamento.
Sobre as perspetivas para Angola em 2015, aos níveis internacional e interno, a DW África entrevistou o ex-primeiro ministro do país Marcolino Moco.

 
DW África: Angola vai presidir o Conselho de Segurança da ONU, vai enviar uma missão militar de 2000 homens para a RCA e Luanda vai receber, ao longo do ano, a Conferência internacional sobre a pirataria no Golfo da Guiné. Como vê o desempenho de Angola no centro da diplomacia africana em 2015?
 
Marcolino Moco (MM): Penso que é o resultado de um trabalho muito profícuo, com o Presidente José Eduardo dos Santos a centralizar todo o poder do Estado. Tem todos os meios para o fazer, está à beira das próximas eleições gerais que serão em 2017 e sabemos que os políticos teimam em relançar a imagem do Estado lá fora apesar dos problemas internos muito graves. Dentro do país vivemos problemas muito sérios que contrastam de forma drástica com os proventos que o Estado tem tido nos últimos anos e todos eles, no fundamental, passados para as mãos da família presidencial.
 
DW África: Isso quer dizer que os reflexos a nível interno não acompanharão essa política internacional de Angola?
 
MM: Vão acompanhar naquilo que for folclórico e não na melhoria de vida dos cidadãos angolanos. Por exemplo, os jovens vão continuar a ver as suas aspirações frustradas, as estradas para o interior continuarão esburacadas, os bairros de Luanda continuarão a brilhar para o inglês ver, como se costuma dizer, mas a juventude, as pessoas perdem o emprego e continuarão a ver os seus desideratos frustrados.
 
DW África: Apesar de toda essa visibilidade para 2015, Angola enfrenta no plano interno um Orçamento que condiciona alguns investimentos, principalmente na educação, saúde e infraestruturas. Acha que a instabilidade social vai continuar com manifestações da sociedade civil, nomeadamente dos jovens, para chamar a atenção das autoridades sobre esse cortes que vão ter lugar?
 
MM: Os cortes, e sobretudo a exuberância com que a elite presidencial se apresenta e que nem tem se quer, pelo menos, o cuidado de dissimular a arrogância do Estado... Isso vai continuar. A repressão vai assumir proporções cada vez maiores e infelizmente debaixo da carapaça da soberania as potências vão continuar a melhorar as suas relações com Angola com o pretexto de que é um ponto de base para a estabilidade regional, até que um dia aconteça algo à semelhança do que ocorreu no Burquina Faso. O problema das potências externas, que se resume apenas nos seus negócios, no caso de Angola o negócio de petróleo, é que não olham para esses problemas internos, que de um momento para o outro desencadeiam situações que depois são desagradáveis. Ler +

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