sábado, 13 de dezembro de 2014

MORTE RIDÍCULA - O regresso

REGRESSO hoje ao convívio do jornal “Notícias”. Já estava com saudades. Estava com saudades dos colegas anónimos com quem cruzo apenas no espaço cibernético e, quando tenho sorte, pelas ruas de Maputo em momentos fugazes.
Afastei-me voluntariamente do convívio por não me ter sentido bem com o rumo editorial que o jornal parecia estar a tomar. Não queria ver o meu nome associado a uma instrumentalização política contraproducente e desnecessária do jornal.
A minha crença no profissionalismo do jornal e no compromisso duma boa parte dos seus profissionais com a ética jornalística de objectividade e isenção nunca me abandonou. É por essa razão que, analisado friamente o percurso do jornal, achei prudente e sensato regressar ao convívio, para dar aos leitores outro tipo de subsídios analíticos, também políticos, sem dúvida, porque todos nós somos políticos, mas talvez com maior preocupação com a objectividade.
O compromisso apenas não garante essa objectividade mas, na medida em que eu próprio coloco-o como critério de avaliação do meu desempenho analítico, posso nutrir a esperança de ser mais equilibrado para o bem da diversidade de opinião.
Regresso para falar do estado da nossa cidadania. Sobre ela há muito que se diga. Ela é, ao mesmo tempo, a nossa perdição e a nossa salvação. Se não a assumimos como deve ser, ficamos mal. Se a assumimos, tudo bem. Ela é o barómetro do estado da nação, o indicador mais fiável que temos do que está mal.
Chamo a esta coluna de reflexão “morte ridícula”. Não é por morbidez. Não tenho essa tendência apesar de me considerar profundamente enraizado na minha cultura original que adora venerar mais os defuntos do que os vivos. Dispenso exemplos. O título é a tradução duma expressão imortalizada pelo Sr. Chico, carrasco da prisão política da Machava no tempo colonial.
Os mais velhos vão se lembrar que a figura do “Xiconhoca” dos tempos gloriosos se inspirou nesse indivíduo. Ele é que “punia” os reclusos e enquanto o fazia exclamava: “ndzi ta fisa kuhlekisa hi mhaka nwina!” (eu vou ter morte ridícula por vossa causa!). Com essa exclamação o Sr. Chico estava a levantar uma questão ética que é duma actualidade extraordinária nos nossos dias.
Ele sabia que estava a fazer mal, mas não tinha outro remédio senão fazer mal. Ele era um moçambicano ao serviço dum sistema opressor estrangeiro. No cumprimento dos seus deveres como funcionário desse sistema ele tinha de infligir sofrimento aos seus próprios patrícios, muitos dos quais se encontravam nessa prisão por terem tentado tornar realidade o sonho da liberdade.
O Sr. Chico estava num dilema ético muito grande, coitado. E ele sabia-o. Tanto o sabia que, ao jeito metafísico da sua cultura tradicional, receava muito pelo que haveria de acontecer com ele um dia. Daí a “morte ridícula” que ele receava. O que ele queria dizer com isso é que não teria morte natural, todo contente por tudo quanto havia feito e alcançado na vida. Os olhos de todos aqueles a quem ele infligiu dores haviam de olhar para ele com muita intensidade no fim dos seus dias.
O Sr. Chico lembra Charles Henri-Sanson, o carrasco da revolução francesa, descendente duma ilustre família de carrascos. A descrição do seu emprego incluía coisas como mutilações, enforcamentos, espancamento, etc. Executou inimigos do Rei, mas também o próprio Rei ao serviço da Revolução e mais tarde os chefes da Revolução (Robespierre) quando estes foram depostos.
O tipo teve o emprego mais seguro daquela altura e toda a gente reconhecia a sua necessidade... Ao contrário do Sr. Chico, porém, Charles Henri-Sanson não tinha nenhuns escrúpulos. Passava mais tempo até a reclamar que era mal pago para tarefa tão importante. Ser executor não era fácil. As tecnologias iam mudando como quando, por exemplo, o Dr. Guillotin inventou a máquina que ficou tristemente famosa, mas que na altura assegurava uma morte menos “dolorosa”: a guilhotina.
Charles Henri-Sanson teve de fazer uma reciclagem para aprender isso também!
O Sr. Chico e Charles Henri-Sanson lembram alguns dos dilemas que o cidadão moçambicano enfrenta no seu dia-a-dia, ainda que menos sangrentos e violentos. Uns têm de velar pela nossa segurança, justiça, desenvolvimento, etc., mas como também são pessoas com necessidades por vezes vêem-se na “obrigação” de extorquir dinheiro, ignorar a legalidade, encher os seus bolsos antes de servirem o povo. Esses dilemas éticos são interessantes e precisam de ser reflectidos.
É isso que me proponho nesta coluna semanal. Quando já não tiver mais nada a dizer. Notícias
 
Elísio Macamo - esmacamo@gmail.com

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