sábado, 27 de dezembro de 2014

MORTE RIDÍCULA – Os outros farão

“SR. Macamo, obrigado por iniciar esta coluna. Sou agente policial. Tenho mulher e filhos (e algumas amantes também). O salário que recebo do Ministério do Interior não dá para cobrir as minhas despesas. Quando um cidadão vem à esquadra pedir os meus préstimos, exijo que ele me dê algum. Sei que é mau, mas se não for eu a fazer isso, vão ser os meus colegas.
O que diz a ética sobre o meu problema? Arão Nhabanga”.
A ética diz muita coisa sobre si, Sr. Nhabanga. Só que nenhuma das coisas que ela diz o ajudam a justificar os seus actos de extorsão. Bem vistas as coisas, a essência do que diz está nessa ideia que apresenta em último lugar: se não for o Senhor a extorquir dinheiro aos cidadãos, vão ser os seus colegas. Isto pode ser verdade e não vou ser eu a querer desmentir aquilo que o Senhor vive todos os dias no seu sector de trabalho. O problema, contudo, é que o Senhor está a apresentar um argumento que não encaixa muito bem. Veja: tem consciência de que está a praticar uma acção moralmente condenável ao extorquir dinheiro aos cidadãos, mas por outro lado, justifica essa acção moralmente condenável com o argumento de que mesmo se não fizer, outros o farão. Portanto, o que o Senhor tenta evitar é algo também mau. Se fosse um indivíduo consciente tentava evitar o mal em si e esse mal é extorquir dinheiro a cidadãos pacatos.
Em lógica costuma-se dizer que dois males não perfazem uma coisa boa. Entrar na casa do vizinho que se esqueceu de fechar a janela de trás e roubar o seu celular (que também esqueceu em casa) não se pode justificar pelo facto de que outros vizinhos (ou pessoas estranhas) iriam, talvez, fazer o mesmo. Roubar é mau, logo, não existe nenhuma circunstância, nem mesmo atenuante, em que esse acto passaria a ser bom. Por isso, o Senhor e muitos dos seus colegas estão mal. O vosso salário é baixo, se calhar até baixíssimo para o custo de vida no nosso país. Mas não são os únicos que têm uma tarefa importante na nossa vida e que é mal remunerada. Somos todos nós, talvez com a excepção dos deputados e PCA que são essencialmente pagos para fazerem pouco.
Pensa em qualquer profissão que lhe vier à cabeça, qualquer, pode ser motorista de autocarro, enfermeiro, empregado de mesa num restaurante, secretária no Ministério, etc. Já pensou? Também recebem pouco e mesmo sem amantes como o Senhor podem ainda ter muitos encargos financeiros por mês. Nas suas vidas há mais mês no fim do salário do que salário no fim do mês. Agora, imagina esse pessoal todo a extorquir dinheiro, incluindo a si quando for ao hospital, restaurante ou ao Ministério com a mesma justificação que apontou: se eles não extorquirem, outros o farão. O acto de extorsão vai deixar de ser mau só por isso? É claro que não. E é aí onde está o problema. Não seria melhor, como cidadão responsável que devia ser, procurar melhorar a sua situação salarial com o seu patrão e não transferir essa factura para os cidadãos? A podridão dum país, Sr. Nhabanga, começa quando cada um de nós tenta justificar o que não tem justificação. Roubar não tem. E extorsão é roubo! Notícias
 
Elísio Macamo

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