terça-feira, 16 de dezembro de 2014

“O país que ladra”

ESTE é um país estranho, bem nunca foi normal, a violência morou aqui e ao que parece teima em voltar. Os diferentes ciclos de violência durante séculos nestes campos pastaram, e nas suas gentes cavalgaram, o xibalo, a bíblia, o chicote os insultos, o trabalho forçado, as doenças, os ódios e seus enteados assolaram e infernizaram as gentes desta terra e tornaram estéreis as suas planícies, os seus planaltos e secaram os seus rios.
Sou céptico por natureza e pessimista por opção, todavia nunca tive medo, da incerteza, dos problemas, do futuro e da morte. Hoje tenho medo do quotidiano. Um estranho e endemoninhado quotidiano. As pessoas, aparentemente livres, ladram ao invés de falar, não deixam as outras falar e julgam que gritando são mais ouvidas e por isso têm forçosa e necessariamente a razão, mesmo sabendo não conhecendo a razão da sua vida.
Tenho medo desta democracia vendida que apodreceu quando faltou dinheiro para a pagar, deixando milhares de pessoas que das suas migalhas comiam cheias de raiva, famintas e entregues ao tique nervoso do dedo no gatilho.
Tenho medo do ladrar das pessoas que se julgam donas da verdade porque escrevem mais que as outras.
Tenho medo dos políticos que nunca fizeram nada e dos que nada querem fazer. Tenho medo desta democracia canina, desta democracia ruidosa, material, sazonal e mercantilista, da sua missão e visão material.
Tenho medo desta democracia daltónica que não olha para o país, mas para os pés e umbigo de quem em nome dela fala. Tenho medo da política vazia, doentia, transformada em raiva, que aparece e se comporta como epidemia focalizada na pequenez dos discursos e não num futuro comum. Tenho medo dos políticos que dão exemplos de casas, carros, salários e não falam de estradas, escolas, da saúde e de emprego. Tenho medo de políticos que falam do seu tempo e não do futuro, tenho medo daqueles que falam muito bem acerca dos erros, mas não apontam as saídas, a menor que seja. Tenho medo daqueles que separam as pessoas por árvores, rios, montanhas e planícies. Tenho medo daqueles que nos estendem a mão em num certo tempo e não no dia-a-dia.
Tenho medo das pessoas que, nesta democracia canina, de tempos a tempos espalham a sua razão com os olhos a brilhar, pensando no que terão, ao invés de dela fazerem com as mãos ocupadas, os ombros a brilhar suados do esforço de construir. Tenho medo destes latidos, uivos e nos que acham que este barulho é bom longe de pensar que enquanto se ladra pelo osso, os ladrões roubam-nos a casa e molestam os nossos queridos.
Tenho medo de tudo isto, desta raiva que se espalha, meus filhos, não por mim, mas por vocês, destas hienas disfarçadas de caninos, os piores amigos do homem. Notícias
 
Rafael Shikhani

Sem comentários:

Enviar um comentário