sábado, 3 de janeiro de 2015

“(Re)socializar” violadores sexuais

CANSADO de ficar estarrecido de tanto ouvir e sentir no peito e na alma o ecoar da dor das vítimas dos abusos sexuais perpetrados por nossos concidadãos e forasteiros (estrangeiros), decidi sair do mutismo para levantar a voz, em forma de artigo para o Jornal, a fim de propor vias de solução deste mal social em moldes que se seguem.
As vítimas dos abusos sexuais sofrem duplamente os efeitos deste mal hediondo: boa parte delas (vítimas) não denuncia os seus violadores, mesmo conhecendo-os, por medo de virem a sofrer represálias por parte destes. E, como consequência directa do “silêncio cúmplice”, vão sofrendo psicologicamente com o segredo, afectando o seu equilíbrio psico-social.
Esta é a primeira consequência. A segunda está associada com o receio de que venham a ser rejeitadas/desprezadas pela sociedade, em geral, e pela comunidade de origem, em particular. Não haverá, por parte dos meus parentes e conhecidos, algum desprezo pelo que me sucedeu? lamentam nestes termos as vítimas, mergulhadas no silêncio mórbido.
São, na sua maioria, as nossas crianças, essas criaturas puras de alma e espírito, futuros alicerces deste país imenso e belo, que caem nas mãos dos nossos compatriotas moralmente alienados (?!), que não são, por isso, mais do que parte doentia da sociedade.
É arrepiante ouvir que uma menina dos seus cinco anos, ou até menos, foi violada pelo seu próprio progenitor! É deveras chocante saber que um pai foi capaz de tal barbaridade, que um homem (em tudo velho) violou uma criança, filha própria, portanto, sua consanguínea ou do vizinho, a menos que do estudo que aqui proponho que seja feito leve a conclusões de que a humanidade está em regressão para a longínqua fase da barbárie de Luís Morgan (1978:122) em que a promiscuidade sexual era regra.
Diante deste mal que deixa, certamente, cada um de nós profundamente abalado, há que se encontrar a melhor via de solução. Infelizmente, para muitos de nós paira no ar a pergunta seguinte: aonde buscar a solução, se o problema parece eterno? Onde encontrar o antídoto para este veneno social, se parte da própria sociedade finge que não existe, trata-se de algum mito? - Concluem. Mas na minha singela opinião, e recordando as poderosas ideias do saudoso Presidente Samora Machel, é que “...não existem problemas pequenos, nem problemas grandes, todos são problemas que devem merecer tratamento igual e sério...”.
É nesta perspectiva que avanço a proposta de solução seguinte: as Ciências Sociais e Humanas deveriam dar o máximo de si, no sentido de estudarem este fenómeno social de violação sexual de mulheres (menores e idosas) que já está a ganhar contornos preocupantes no país. A Antropologia, a Sociologia e a Psicologia seriam as três ciências a liderarem o processo de estudo, cada uma focalizando a sua atenção em função das suas especificidades. Estou em crer que poderiam dar um grande contributo nos esforços de busca de meios/instrumentos adequados modeladores de indivíduos moralmente sãos.
Dito isto doutra forma, os estudos a serem realizados/empreendidos pelas três ciências sociais teriam como finalidade compreender os aspectos ou mecanismos intrínsecos ao processo de socialização dos indivíduos nos seus meios socioculturais e que culminam sempre com a construção/modelação da pessoa moral (refiro-me ao indivíduo já carregado de valores morais permitindo-se, por isso, distinguir o mal do bem).
A “(re)socialização” dos indivíduos, como me refiro acima, pode ser considerada uma espécie de pressão social que visa incutir neles (nos indivíduos) os valores morais construtores da pessoa, enquanto ser cultural. E ela (pressão social) denota, quase sempre, a vigilância que a sociedade, por si ou seus órgãos, deveria exercer sobre os sentimentos, as ideias e as atitudes individuais. Presente a todo o momento do nosso dia-a-dia, presta atenção ao que é agradável ou desagradável, julga-nos de imediato e em função disso condena-nos.
Muitas vezes a condenação que merecemos vai desde a simples censura, passando pela crítica mordaz, indo desaguar no castigo moral (desprezo) pelo indivíduo em causa ou no castigo físico (prisão). É isto que cada um de nós, enquanto membro da sociedade inteira ou de parte dela devia saber.
O principal objectivo desta pressão social é o de uniformizar os comportamentos moldados e sancionados pela sociedade inteira em forma de código de conduta moral. E a par dela está a educação, enquanto conjunto de processos e normas, que visa objectivos distintos, mas profundamente complementares: ao invés de actuar de forma mecânica e por compressão, ela dirige-se à nossa mais íntima capacidade de compreensão, busca o enriquecimento moral da pessoa, estimulando e revelando os valores morais ou virtudes de que cada um de nós é portador. Infelizmente pode acontecer que nos dois processos modeladores do indivíduo a “matéria-prima” (diga-se de passagem), e neste caso concreto os indivíduos em socialização, não sirva ou não se adapte ao meio socializante/aculturante (vamos lá assim chamar) e quando isso acontece, o resultado salta à vista de todos nós, enquanto família, grupo, bairro e sociedade inteira: são os nossos compatriotas/concidadãos que passam a agir fora dos padrões socioculturais, portanto, incompatíveis com a convivência sã em sociedades modernas.
O que descrevo acima resulta de simples conclusão “imediatista”, portanto, sem alicerces objectivamente construídos. Daí a razão de ser da proposta para o estudo do fenómeno pelas três e outras ciências sociais, visando compreender o que até agora é obscuro, incompreensível, se preferirmos, para que se busquem os meios apropriados para este mal social que coabita connosco. Não se pode aceitar a coabitação com indivíduos que resistem ao processo de socialização/aculturação a bem da estabilidade moral da sociedade. Enquanto não houver, na minha opinião, um trabalho de fundo que consista em compreender o porquê disso e a partir dessa compreensão proporem-se as melhores vias de solução do problema, corremos o risco de caminhar para um “abismo social” de onde dificilmente poderemos sair, aliás, estaremos a construir, isso sim, no nosso presente activo, se assim se pode chamar, um mundo fictício e perigoso para as gerações vindoiras.
Um estudo multidisciplinar feito por estas ciências, estou em crer, seria benéfico do ponto de vista de explicação, por exemplo do peso que tem a tradição e/ou usos e costumes nas pessoas que violam sexualmente as mulheres, principalmente as crianças, dada pela Antropologia. Que tipo de estrutura a tradição montou ou a cultura, se assim quisermos chamar, e qual é na verdade o conjunto de princípios e regras que deveriam ser incorporados e não estão no “inconsciente colectivo” de Jung (na sua Psicologia Analítica) nestes violadores de mulheres?!
É esta a tarefa que deve caber às três ciências, aliás, eles têm a responsabilidade incontornável de trazer a explicação do porquê de parte de nós, enquanto sociedade, comporta-se da maneira como se comporta. O que faz com que parte nós, como sociedade, ache normal violar sexualmente crianças e idosas?! São estas ciências que devem estudar o ser psico-social destes indivíduos, pondo-os em situação de auto-avaliação, como base fundamental para se redimirem do mal que os corrói a alma.
É nisto que reside a importância da acção das ciências aqui em alusão. Toda e qualquer acção que seja empreendida contra este tipo de mal, não surtiria, na minha opinião, o efeito desejado sem o envolvimento destas ciências. Aliás, as universidades no nosso país “produzem” esses sábios para, justamente, ajudarem na acção de purificação da sociedade das impurezas sociais, propondo, permanentemente, vias de solução mais consentâneas com a dinâmica actual do desenvolvimento da sociedade, como um todo, e das partes que desempenham papel primacial para aquela (sociedade) se imunizar de males como o das violações sexuais, principalmente, de crianças.
Para terminar, apelar à Antropologia, à Sociologia e à Psicologia para a necessidade de se lançarem com vigor e rigor agora, porque amanhã poderá ser tarde demais, no caminho de busca inadiável dos meios/instrumentos para a “(re)socialização” da parte doentia da nossa sociedade – violadores de mulheres (crianças e idosas) em prol da nossa admirada sociedade. Notícias
 
Até breve!
 
Rogério Membawaze

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