segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Ser ou não ser Charlie

Carlos Fino
 
Se, depois do 11 de Setembro, se aceitou reduzir ou condicionar as liberdades em nome da segurança, porque não aceitar negociar com vista a um entendimento satisfatório para ambos os lados? Não seria essa solução a que traria maior segurança?
 
As vítimas choradas e incensadas, os assassinos liquidados, o mundo unido contra o terrorismo. De repente, na sequência do choque provocado pelo crime, e na onda alimentada pelos media, todos somos pela liberdade de expressão sem limites, todos condenamos a violência, todos somos Charlie!
A existência de uma vítima muçulmana – o polícia abatido a tiro quando se encontrava caído – e de um outro muçulmano que salvou vidas no supermercado judaico permite mesmo fazer a ponte entre nós e eles.
Afinal, não há guerra de civilizações, um mundo de diferenças culturais e religiosas a separar-nos, uma história secular de confrontos que vai das cruzadas aos dias de hoje: apenas um punhado de loucos que importa isolar e combater. Todos somos Charlie!
A unanimidade é tal que quase se não admite a dissidência. Em Portugal, um escritor, na sua página do FB, chegou mesmo a ironizar com os que ousam acrescentar um "mas" à expressão "Je suis Charlie". Daí ao "quem não está conosco está contra nós", lançado por Bush filho em 2001, pouco falta.
E no entanto... No entanto, não há como fugir à reflexão.
De onde surgiu o ódio assassino capaz de levar a um crime tão hediondo? Quem o alimenta e em que se baseia? Porque irrompe, pelo menos desde o derrube das torres gémeas, uma e outra vez, nos EUA, no Canadá, em Espanha, Inglaterra, e agora França?
Se toda a panóplia de medidas desencadeadas desde então para lhe pôr fim – incluindo tortura, guerras, tribunais militares - não deu resultado, não será chegada a hora de nos interrogarmos e rever de alto a baixo toda a estratégia?
Infelizmente, não parece ser essa a predisposição de quem nos governa. Bem pelo contrário. A julgar pelas caras que vimos na marcha de Paris, o que aí vem é mais do mesmo.
Lá estiveram, com efeito, lado a lado, os que mandaram bombardear o Iraque, a Líbia, a Síria, o Afeganistão... os que ensanguentaram a Chechênia, a Palestina e o Leste da Ucrânia...Como esperar que das suas cabeças saiam novas soluções?
A Espanha propõe já reintroduzir os controlos de fronteiras no espaço Shenguen; Marine Le Pen, da Frente Nacional, numa antecipação do que seria uma França por ela governada, avança com a reintrodução da pena de morte!
Mais do que expressar solidariedade com o Charlie Hebdo (que muitos dos presentes até há pouco não conheceriam e se conhecessem abominariam) e com a liberdade de expressão (que muitos deles limitam nos seus países respectivos), o que cada um estava a fazer ali era sobretudo cavalgar politicamente a onda de genuína indignação e pesar que percorreu a França em choque.
Isso talvez possa até trazer-lhes alguns dividendos imediatos. Mas não ajudará, certamente, a resolver o problema.
 
Questões de fundo
 
Não sem que antes sejam encaradas algumas questões de fundo.
A começar pela integração da comunidade muçulmana em França, que as revoltas dos subúrbios já se tinham encarregado de mostrar ser um problema grave, agora acentuado pela prolongada crise económica e o desemprego.
Depois, o inegável problema político gerado pela posição da França em relação ao mundo árabe, incluindo a questão sempre adiada do Estado palestino, que suscita permanente insatisfação e revolta entre os muçulmanos.
E – the last, but not the least - a questão religiosa, ou, melhor dizendo, de fundo cultural e religioso: a radical diferença em relação ao sagrado.
Enquanto a Europa se laicizou, dessacralizou e progressivamente despenalizou a blasfémia, os países muçulmanos vivem ainda no registo do sagrado, que dá sentido e organiza toda a sua ordem simbólica.
Ao trazerem para dentro do seu território, quando terminou a aventura colonial, ou por via da globalização, largas camadas populacionais de uma cultura diferente e até oposta, boa parte da Europa passou a ter no seu próprio seio duas visões radicalmente diferentes de estar, pensar, sentir e agir.
Visões opostas, antes separadas, passaram a estar juntas, num processo que os novos media vieram intensificar. Como explica o escritor e psicanalista francês Jacques-Alain Miller, "o gosto do riso, o direito de ridicularizar, o desrespeito iconoclasta são tão essenciais ao nosso modo de desfrutar como o é, na tradição islâmica, a submissão ao Uno."
Resultado – um monumental curto-circuito que ameaça a estabilidade social.
 
Então, que fazer?
 
Desde que o homem é homem nunca a liberdade de expressão foi tão completa que fosse permitido dizer tudo. Isso, que é verdade no interior de sociedades culturalmente homogéneas, é-o por maioria de razão em sociedades multiculturais como são hoje as nossas.
A alternativa que se coloca, portanto, é esta – queremos vencer e impor ao outro o modo particular de sentir e de ser do nosso grupo, ou, em nome da convivialidade e da aceitação do que é diferente, negociamos para chegar a um compromisso razoável?
Não é tarefa fácil. Exige mais inteligência e jogo de cintura do que simplesmente multiplicar as medidas repressivas. Provavelmente os políticos que temos não estão à altura de a resolver.
Mas a questão terá de ser encarada porque a alternativa é a guerra, como aliás já está a acontecer.
Se, depois do 11 de Setembro, se aceitou reduzir ou condicionar as liberdades em nome da segurança, porque não aceitar negociar com vista a um entendimento satisfatório para ambos os lados?
Não seria essa solução a que traria maior segurança?
Esse - ao contrário do que foi até hoje a resposta dos EUA - poderia ser o grande contributo europeu para responder ao seu "11/09: Diálogo, não confronto de civilizações.
Definitivamente: Não, não somos todos Charlie. Por isso o desafio é tão grande. África 21
 
* Carlos Fino, jornalista português, foi enviado especial e correspondente internacional da RTP - televisão pública portuguesa - em Moscou, Bruxelas e Washington, e correspondente de guerra em diversos conflitos armados na ex-URSS, Afeganistão,  Albânia, Oriente Médio e Iraque.  Foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília (2004/2012), cidade onde atualmente reside.

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