Carlos Fino
Se, depois do 11 de Setembro, se
aceitou reduzir ou condicionar as liberdades em nome da segurança,
porque não aceitar negociar com vista a um entendimento satisfatório
para ambos os lados? Não seria essa solução a que traria maior
segurança?
As vítimas choradas e incensadas, os assassinos liquidados, o mundo
unido contra o terrorismo. De repente, na sequência do choque provocado
pelo crime, e na onda alimentada pelos media, todos somos pela liberdade
de expressão sem limites, todos condenamos a violência, todos somos
Charlie!
A existência de uma vítima muçulmana – o polícia abatido a tiro
quando se encontrava caído – e de um outro muçulmano que salvou vidas no
supermercado judaico permite mesmo fazer a ponte entre nós e eles.
Afinal, não há guerra de civilizações, um mundo de diferenças
culturais e religiosas a separar-nos, uma história secular de confrontos
que vai das cruzadas aos dias de hoje: apenas um punhado de loucos que
importa isolar e combater. Todos somos Charlie!
A unanimidade é tal que quase se não admite a dissidência. Em
Portugal, um escritor, na sua página do FB, chegou mesmo a ironizar com
os que ousam acrescentar um "mas" à expressão "Je suis Charlie". Daí ao
"quem não está conosco está contra nós", lançado por Bush filho em 2001,
pouco falta.
E no entanto... No entanto, não há como fugir à reflexão.
De onde surgiu o ódio assassino capaz de levar a um crime tão
hediondo? Quem o alimenta e em que se baseia? Porque irrompe, pelo menos
desde o derrube das torres gémeas, uma e outra vez, nos EUA, no Canadá,
em Espanha, Inglaterra, e agora França?
Se toda a panóplia de medidas desencadeadas desde então para lhe pôr
fim – incluindo tortura, guerras, tribunais militares - não deu
resultado, não será chegada a hora de nos interrogarmos e rever de alto a
baixo toda a estratégia?
Infelizmente, não parece ser essa a predisposição de quem nos
governa. Bem pelo contrário. A julgar pelas caras que vimos na marcha de
Paris, o que aí vem é mais do mesmo.
Lá estiveram, com efeito, lado a lado, os que mandaram bombardear o
Iraque, a Líbia, a Síria, o Afeganistão... os que ensanguentaram a
Chechênia, a Palestina e o Leste da Ucrânia...Como esperar que das suas
cabeças saiam novas soluções?
A Espanha propõe já reintroduzir os controlos de fronteiras no espaço
Shenguen; Marine Le Pen, da Frente Nacional, numa antecipação do que
seria uma França por ela governada, avança com a reintrodução da pena de
morte!
Mais do que expressar solidariedade com o Charlie Hebdo (que muitos
dos presentes até há pouco não conheceriam e se conhecessem abominariam)
e com a liberdade de expressão (que muitos deles limitam nos seus
países respectivos), o que cada um estava a fazer ali era sobretudo
cavalgar politicamente a onda de genuína indignação e pesar que
percorreu a França em choque.
Isso talvez possa até trazer-lhes alguns dividendos imediatos. Mas não ajudará, certamente, a resolver o problema.
Questões de fundo
Não sem que antes sejam encaradas algumas questões de fundo.
A começar pela integração da comunidade muçulmana em França, que as
revoltas dos subúrbios já se tinham encarregado de mostrar ser um
problema grave, agora acentuado pela prolongada crise económica e o
desemprego.
Depois, o inegável problema político gerado pela posição da França em
relação ao mundo árabe, incluindo a questão sempre adiada do Estado
palestino, que suscita permanente insatisfação e revolta entre os
muçulmanos.
E – the last, but not the least - a questão religiosa, ou, melhor
dizendo, de fundo cultural e religioso: a radical diferença em relação
ao sagrado.
Enquanto a Europa se laicizou, dessacralizou e progressivamente
despenalizou a blasfémia, os países muçulmanos vivem ainda no registo do
sagrado, que dá sentido e organiza toda a sua ordem simbólica.
Ao trazerem para dentro do seu território, quando terminou a aventura
colonial, ou por via da globalização, largas camadas populacionais de
uma cultura diferente e até oposta, boa parte da Europa passou a ter no
seu próprio seio duas visões radicalmente diferentes de estar, pensar,
sentir e agir.
Visões opostas, antes separadas, passaram a estar juntas, num
processo que os novos media vieram intensificar. Como explica o escritor
e psicanalista francês Jacques-Alain Miller, "o gosto do riso, o
direito de ridicularizar, o desrespeito iconoclasta são tão essenciais
ao nosso modo de desfrutar como o é, na tradição islâmica, a submissão
ao Uno."
Resultado – um monumental curto-circuito que ameaça a estabilidade social.
Então, que fazer?
Desde que o homem é homem nunca a liberdade de expressão foi tão
completa que fosse permitido dizer tudo. Isso, que é verdade no interior
de sociedades culturalmente homogéneas, é-o por maioria de razão em
sociedades multiculturais como são hoje as nossas.
A alternativa que se coloca, portanto, é esta – queremos vencer e
impor ao outro o modo particular de sentir e de ser do nosso grupo, ou,
em nome da convivialidade e da aceitação do que é diferente, negociamos
para chegar a um compromisso razoável?
Não é tarefa fácil. Exige mais inteligência e jogo de cintura do que
simplesmente multiplicar as medidas repressivas. Provavelmente os
políticos que temos não estão à altura de a resolver.
Mas a questão terá de ser encarada porque a alternativa é a guerra, como aliás já está a acontecer.
Se, depois do 11 de Setembro, se aceitou reduzir ou condicionar as
liberdades em nome da segurança, porque não aceitar negociar com vista a
um entendimento satisfatório para ambos os lados?
Não seria essa solução a que traria maior segurança?
Esse - ao contrário do que foi até hoje a resposta dos EUA - poderia
ser o grande contributo europeu para responder ao seu "11/09: Diálogo,
não confronto de civilizações.
Definitivamente: Não, não somos todos Charlie. Por isso o desafio é tão grande. África 21
* Carlos Fino, jornalista português, foi enviado especial e
correspondente internacional da RTP - televisão pública portuguesa - em
Moscou, Bruxelas e Washington, e correspondente de guerra em diversos
conflitos armados na ex-URSS, Afeganistão, Albânia, Oriente Médio e
Iraque. Foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em
Brasília (2004/2012), cidade onde atualmente reside.
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