sábado, 31 de janeiro de 2015

Uma vida que termina na rua

LAURENTINA MUDLEUIA é uma idosa com deficiência visual, cuja idade desconhece. Perdeu o marido, oito filhos, sobrando-lhe apenas o mais novo. Para ganhar a vida, depende da esmola que pede na baixa da capital moçambicana, tal como outras mulheres da sua idade o fazem quando não têm quem as preste assistência na família.
O Notícias encontrou esta mulher na sexta-feira passada defronte do edifício do Banco Internacional de Moçambique, do lado da Avenida 25 de Setembro, cidade de Maputo.
Sentada em um papelão, Laurentina falou-nos dos momentos felizes que viveu ao lado do marido e dos filhos e da tristeza que a amargura actualmente, embora consolada por ter pelo menos um filho vivo.
Revelou-nos que não conheceu o rosto dos oito filhos por conta da cegueira que desenvolveu depois do nascimento do primogénito. O que há na mente desta mulher são os bons momentos vividos ao lado do marido e dos filhos já perecidos.
“Fiquei pobre quando perdi o meu marido e depois os filhos. Não me faltava nada. Tinha o que comer… Não me tinha ocorrido na cabeça que um dia teria de ir à rua pedir esmola. Não é fácil, mas quis Deus que fosse assim”, precisou Laurentina Mudleuia.
A idosa vive no bairro Intaka, Município da Matola, a cerca de 20 quilómetros da cidade de Maputo. Para se deslocar à zona urbana, Laurentina Mudleuia conta com a ajuda do seu único filho que tem como renda o trabalho de lavagem de viaturas nas ruas de Maputo.
“Saímos de casa muito cedo, caminhamos até ao terminal do Zimpeto para apanhar o carro no qual seguimos até a baixa. Ao chegar aqui, o meu filho deixa-me neste ponto e vai lavar os carros”, disse. Acrescento que, por volta das 12 horas, dependendo do que o filho tenha conseguido no trabalho compra-lhe o almoço, água para beber e lhe leva para a casa de banho. As 15 horas regressam à casa. “Faço esta rotina duas ou três vezes por semana, porque a distância de casa até ao terminal de Zimpeto é longa. Há dias que sinto dores dos pés, por isso, fico em casa para descansar”, explicou.
 
IGNORAR O IDOSO É UM ERRO
 
Laurentina Mudleuia é apenas um exemplo de muitas idosas que, por diversas razões, se vêm obrigadas a ir à rua pedir esmola. Algumas dessas mulheres perderam os familiares próximos, outras são vítimas de violência dos próprios filhos que as expulsam de suas casas ou não lhes garantem a assistência alimentar. Há aquelas que vão à rua somente para se ocupar e ter com quem conversar, entende Luís Ndlate, responsável adjunto do projecto mendicidade do Fórum da Terceira Idade. “Temos pessoas que praticam a mendicidade mas não são necessitadas materialmente. Algumas sentem-se ignoradas nas famílias porque as suas opiniões não são valorizadas. Diz-se que o que a pessoa idosa fala já está ultrapassado”, sustentou Ndlate.
Baseando-se em alguns estudos, Alka Singh, responsável do projecto mendicidade do Fórum da Terceira Idade, acrescentou que alguns idosos recorrem à prática da mendicidade porque, para além de se sentirem ignorados e inúteis nas famílias onde vivem, são vítimas de violência, sobretudo psicológica.
“As pessoas pensam que o idoso é inactivo, só dá trabalho e não pode fazer nada. Não se sentindo bem tratadas nas suas residências, as idosas acabam saindo à rua à busca de outros ambientes, onde possam ter com quem conversar e fazer algo que lhes ocupe”, referiu Alka Singh.
Em Moçambique, mais de metade da população idosa vive abaixo da linha da pobreza, apesar de ter trabalhado a vida inteira, segundo a organização internacional Help Age. A maioria dos idosos é do sexo feminino e muitos vivem sem poupança e pensões do Estado.
Quando ainda tinham forças, a maioria das idosas dedicava-se à machamba porque não tiveram oportunidade de ir à escola ou continuar com os estudos. Outras foram obrigadas a casarem-se cedo. Estudos realizados em 2011 e 2013 pela Organização Internacional Help Age, em seis comunidades do país, indicam uma redução de casos de abuso sexual assim como de insultos, abuso físico e abandono de 5.4 para 3 por cento; de 26.9 para 20 porcento; de 10.6 para 3 por cento e de 14.3% para 3%, respectivamente. Contudo, registou-se um aumento para casos de conflitos de terra e acusações de feitiçaria de 23.5% para 25% e 21,3% para 28%, respectivamente.
 
A LEI JÁ AJUDA COM
 
a aprovação da Lei para a promoção e protecção dos direitos da pessoa idosa, consciencialização das comunidades para a não-violência e do envolvimento de diversos actores sociais na causa, a vida de pessoas da terceira idade tem melhorado nos últimos tempos, segundo António Sitoe, Coordenador de Programas do Fórum da Terceira Idade.
Para Sitoe este avanço resulta do facto de aquele dispositivo legal avançar com proposta de sanções contra todos aqueles que violem os direitos da pessoa idosa, através de aplicação de penas de prisão que variam de três a oito anos, dependendo da gravidade da infracção, algumas pessoas já sabem que ao discriminarem, humilhar, abandonar ou acusar o idoso de feitiçaria podem ser sancionadas.
Para elucidar, Luís Ndlate, responsável adjunto do projecto mendicidade do Fórum da Terceira idade, contou o sucesso que o Fórum teve na resolução de casos de duas idosas. Uma estava a ser expulsa de sua casa pela nora, alegando que estava a mais. Outra era vítima de violência protagonizada pelos filhos acusada de feiticeira.
“Para o primeiro caso, o problema foi levado às estruturas locais que decidiram que a nora e o marido deveriam abandonar a casa da anciã… para o caso da idosa acusada de feitiçaria, dialogamos com os filhos e fizemos perceber que também vão atingir a idade da mãe e como é que se sentiriam indiciados de feitiçaria pelos filhos? Entenderam, a idosa continua a viver com eles e feliz”, comemorou Ndlate.
Contudo, o Fórum da Terceira Idade reconhece que ainda há muito por se fazer, sobretudo no que diz respeito à divulgação da Lei para a promoção e protecção dos direitos da pessoa idosa para que seja do conhecimento da maioria dos moçambicanos, sobretudo idosos.
 
PEDIR ESMOLA EM PORTUGUÊS
 
Conseguir algum valor na rua não tem sido fácil para muitas das idosas que diariamente, sobretudo às sextas-feiras, se deslocam à zona baixa da cidade de Maputo para pedir esmola. Algumas faltam-lhes forças para caminhar, optando por sentar-se próximo das igrejas, lojas ou semáforos. Outras que ainda conseguem caminhar palmilham de rua em rua contra todos os riscos de serem atropeladas ou violentadas, sexualmente.
Mas isto só não basta, diz Judite Macie que pede esmola na baixa da capital moçambicana há mais de três anos para cuidar dos três netos órfãos.
“No início não conseguia nada porque pedia ajuda na minha língua materna. As pessoas passavam. Até que um dia, uma amiga da rua disse-me: olha, tens que pedir em português. Aqui na cidade fala-se Português. Diga bom dia, estou a pedir, no período da manhã e boa tarde a partir das 12 horas”, fez saber Judite Macie.
Com o truque, a nossa fonte revelou-nos que consegue em média 100 meticais por dia. Com o valor compra comida, sabão entre outros produtos necessários para o sustento da família.
Judite Macie vive na Mafalala, arredores da cidade de Maputo, e teve dois filhos. Um faleceu. A filha está no lar e o pouco que oferece à mãe, segundo a idosa, não tem sido suficiente para alimentar os netos, por isso busca ajuda na rua.
 
OS MEUS NETOS NÃO ME DÃO COMIDA
 
Matilde Sitoe vive no bairro de Hulene, arredores da cidade de Maputo. O seu sustento depende da esmola. “Os meus netos têm as suas mulheres. Quando preparam as refeições não partilham comigo, embora tenham se aproveitado do meu quintal para fazer as suas casas”, lamentou a anciã, caminhando em direcção à avenida Alberto Luthuli à procura de um ponto para se sentar.
Segundo Matilde Sitoe, dos quatro filhos que teve, três perderam a vida. A única viva está no lar e lhe visita quando pode. “Ela também tem dificuldades para sustentar os filhos. No dia que me visita trás algo para mim. Enquanto isso não acontece vou-me aguentando na rua”, referiu.
Encontramos esta anciã por volta das 10 horas da sexta-feira passada, depois de ela ter saído de sua casa ao nascer do sol, isto é por volta das cinco horas da manhã.
“Não tenho dinheiro para apanhar chapa-100 (transporte semi-colectivo de passageiros, por isso caminho lentamente até chegar aqui. As outras amigas que conseguem andar um pouco mais rápido já chegaram ao destino”, disse. Ler + 

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