O Presidente José Eduardo dos Santos é cada vez mais criticado pela
“corrupção desenfreada, má governação e repressão política em Angola”,
revela o relatório anual da Human Rights Watch. Um cenário que tende a
piorar.
Segundo o Relatório Mundial de 2015 da Human Rights Watch (HRW), as
autoridades intensificaram as medidas que restringem a liberdade de
expressão e voltaram a adiar as eleições autárquicas.
De acordo com a organização, a polícia continua a recorrer a "força
excessiva" e detenções arbitrárias para impedir manifestações
antigovernamentais.
Jornalistas e ativistas também têm sido alvo de processos em tribunal, detenções arbitrárias, intimidação e perseguição.
O cenário em Angola tem vindo a piorar, contou em entrevista à DW África Iain Levine, da HRW.
DW África: O relatório de 2015 da HRW não apresenta melhorias sobre a situação em Angola. O cenário piorou?
Iain Levine (IL): Achamos que a situação piorou.
Infelizmente estamos a ver exatamente os mesmos problemas que temos
enfrentado nos últimos dez anos e que o povo angolano tem enfrentado
durante vários anos, como medidas repressivas, restrições da liberdade
de expressão e de associação, muita corrupção. Infelizmente não
registamos nenhum progresso em Angola.
DW África: A lista de denúncias da HRW continua a ser longa. São
sinais de que o cenário poderá piorar este ano em Angola? Poderemos
assistir a mais violações dos direitos humanos por parte das
autoridades?
IL: Sim. Concerteza há essa possibilidade da situação
piorar porque simplesmente não estamos a ver nenhum sinal por parte do
Governo de Luanda no sentido de reconhecer que há uma necessidade de ser
melhorada a situação e de começar a reconhecer o respeito pelos
direitos humanos. Não há nenhuma abertura em termos de diálogo com a
sociedade civil, não existe nenhuma abertura em termos de reconhecimento
da liberdade de imprensa e a importância de um jornalismo livre que
possa exigir a prestação de contas por parte do Governo.
Temos uma elite política em Angola que está a beneficiar da corrupção,
uma corrupção que se protege na restrição da liberdade de imprensa, ou
seja, não há possibilidade de se fazer qualquer investigação sobre actos
de corrupção devido a pressões e intimidação dos jornalistas.
DW Africa: Acha que a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) deveria exercer pressão para que haja reformas em Angola, um país cada vez mais influente em África e que tem um assento não permanente no Conselho de Segurança da ONU?
DW Africa: Acha que a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC) deveria exercer pressão para que haja reformas em Angola, um país cada vez mais influente em África e que tem um assento não permanente no Conselho de Segurança da ONU?
IL: Absolutamente. Angola é um país com um poder
emergente ao nível económico-político e achamos que tanto a União
Africana (UA) como as organizações regionais, neste caso a SADC, teem
que exigir que os seus países membros respeitem os princípios dessas
organizações.
A SADC tem um programa em termos de direitos humanos bastante bom mas
infelizmnente não usa a sua infuência nem para o Zimbabué, nem para
Angola e outros países que violam os direitos humanos.
E como Angola é atualmente membro não permanente do Conselho de
Segurança da ONU tem na nossa opinião uma responsabilidade redobrada de
refletir os princípios do sistema das Nações Unidas, cuja base são os
direitos humanos universais.
DW África: A HRW também lamenta que quem faz negócios em Luanda
tem em muito pouca consideração os atropelos aos direitos humanos e a má
governação em Angola. O que é preciso mudar?
IL: Achamos que a comunidade internacional e os
parceiros políticos e económicos de Angola têm que usar a influência que
gozam para insistir junto do Governo de Luanda para que respeite as
leis e os direitos humanos. Têm que reconhecer que o Governo angolano
não tem responsabilidades para com a sua população não só em termos de
liberdade, mas também uma obrigação de partilhar os benefícios do
desenvolvimento económico e os recursos naturais que tem o país. E isto
não está a acontecer.
Quando, por exemplo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) não exige
transparência em termos dos rendimentos das riquezas naturais está
implicado na repressão e na corrupção por parte do Governo angolano. Há
muito mais coisas que a comunidade internacional deverá e poderá fazer.
Um aspeto importantíssimo em termos da situação dos direitos humanos em
Angola é a necessidade de se manter a pressão e a cobertura por parte
dos jornalistas angolanos. Angola é um país onde não é fácil para os
jornalistas exercerem a sua profissão e também não é fácil convencer os
media internacionais a interessar-se pela situação em Angola. Isso faz
com que o Presidente José Eduardo dos Santos possa continuar com a má
governação e a repressão sem muitas críticas por parte da comunidade
internacional. E isso tem que mudar. Deutsche Welle
Sem comentários:
Enviar um comentário