Rafael Marques critica as mais recentes iniciativas diplomáticas de Lisboa junto de Luanda.
Portugal
tem responsabilidades na crise económica que Angola atravessa,
designadamente pelo apoio constante a um regime que não diversificou a
economia, disse à agência Lusa o jornalista e ativista angolano Rafael
Marques.
"É necessário que se comece a falar a verdade, sobretudo
em Portugal, para enfrentarmos a crise com realidade em vez de estarmos a
esconder o que realmente se está a passar e isto é um apelo sobretudo
ao Governo Português, que tem também muita responsabilidade na situação
em Angola", disse Rafael Marques, criticando as mais recentes
iniciativas diplomáticas de Lisboa junto de Luanda.
"Esteve aqui
(em Luanda) o ministro Rui Machete a dizer que agora estamos outra vez
de namoro com Angola mas não há namoro com Angola. Há namoro com o
Presidente (da República José Eduardo dos Santos) e é necessário que em
vez de haver um namoro haja um diálogo sobre o que realmente se está a
passar no país", defendeu.
A crise angolana resulta do Orçamento
Geral do Estado (OGE) para 2015 ter sido elaborado a partir de uma
previsão de recursos provenientes da exportação de petróleo ao preço de
81 dólares por barril, mas que a acentuada quebra desta matéria-prima
nos mercados internacionais - cerca de 40 dólares por barril -, vai
produzir efeitos, por exemplo, na suspensão de importantes investimentos
públicos.
Daí que as autoridades estejam a trabalhar na revisão
do OGE, que deverá estar concluída em fevereiro, sabendo-se desde já que
implicará menos 12,3 mil milhões de euros em receitas petrolíferas.
Neste
momento, segundo Rafael Marques, países como Portugal têm uma grande
responsabilidade na situação atual porque "são cúmplices" e ajudaram a
criar circunstâncias que não permitiram, entre outros aspetos,
diversificar a economia angolana, dependente do petróleo.
"A
maioria dos gestores em Angola são portugueses e estão envolvidos nesta
sangria e é altura de começarem a falar a verdade sobre o que se está a
passar em Angola para chegarmos a encontrar soluções conjuntas e não
chegar um dia e estarmos perante uma situação de total desastre: com
aqueles que têm outras nacionalidades a tentarem fugir de Angola porque
não querem ter responsabilidades e lidar com o descontentamento popular.
Isso é preciso evitar", disse o também investigador angolano.
Rafael
Marques recorda que há vários anos que defende que os investimentos
estrangeiros em Angola, e sobretudo os portugueses, não seriam
sustentáveis a longo prazo.
"Como é que as empresas portuguesas
vão conseguir, por exemplo expatriar capital? Há restrições já no
pagamento em dólares. Como é que vão continuar a apoiar este regime?
Porque a classe empresarial portuguesa é uma das principais alavancas
económicas deste regime com quem tem relações de negócios. Agora sem o
dinheiro do petróleo como é que isto se vai manter", questiona Rafael
Marques.
Para o ativista angolano, "por causa da forma como o
Presidente (José Eduardo dos Santos) foi alocando os vários recursos do
país, há vários interesses estrangeiros envolvidos, sobretudo de
Portugal. O mundo ajudou a engendrar mentiras sobre Angola porque havia
muito dinheiro para ser feito. Abriram-se lojas na Avenida da Liberdade,
em Lisboa, porque havia muito dinheiro angolano que foi sendo saqueado
dos cofres do Estado. Agora aquelas pessoas que vêm fazer negócios
honestos vão ser pagas como", questiona.
Rafael Marques é o autor
do livro "Diamantes de Sangue: Tortura e Corrupção em Angola", em que
sete generais angolanos o acusam de denúncia caluniosa por ter exposto
estes alegados abusos na província diamantífera angolana da Lunda Norte,
e pela qual deverá começar a ser julgado no próximo dia 24 de março.
O
jornalista e ativista considera que, neste momento, tudo tem que ver
com a forma "fictícia" como o OGE está a ser preparado e o facto,
afirma, de José Eduardo dos Santos "não estar a encarar a crise de forma
séria", fazendo os cortes necessários para que Angola aguente o choque
da queda do preço do petróleo.
A breve-prazo, acrescenta, o que
pode acontecer é a incapacidade de o governo angolano honrar os
compromissos, entre os quais os pagamentos dos salários da função
pública porque, afirmou, os bancos estão sem dinheiro.
"Há bancos
como o antigo BESA, agora Banco Económico que não permite às pessoas
levantarem mais de mil dólares porque não têm liquidez e isso vai
agravar a situação socioeconómica", salientou.
"Existe uma crise e
o chefe de Estado tem de dizer como vamos sair da crise. Não é
continuar com o discurso de que conseguiu a paz. Isso foi há 13 anos.
Não é dizer que trouxe a China para a construção de edifícios. Isso
agora não tem relevância nenhuma. O que tem relevância é o que pode ser
feito para garantir que a sociedade não entre em descalabro por causa da
crise económica", concluiu. Diário de Notícias
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