O partido no poder em Moçambique pauta por um comportamento
contraditório quanto à ideia de governação autónoma da RENAMO. Analista
defende que se trata de uma estratégia da FRELIMO para suplantar o
partido de Dhlakama.
Por um lado, o Presidente da República, Filipe Nyusi, que também é
membro da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), partido no
poder, mostra-se aberto ao diálogo com o líder da Resistência Nacional
Moçambicana (RENAMO), Afonso Dhlakama, sobre uma governação autónoma das
províncias.
Por outro lado, membros seniores da FRELIMO fazem campanha contra a
ideia de governação autónoma nas províncias promovida pela RENAMO, o
principal partido da oposição.
A situação parece legitimar as previsões de analistas de que Filipe
Nyusi não teria, realmente, voz de comando na condução dos destinos do
país.
Porém, o analista político Calton Cadeado discorda, justificando que é
uma estratégia da FRELIMO para suplantar a RENAMO. Em entrevista à DW
África, o especialista explica este "comportamento paradoxal" da
FRELIMO.
DW África: Que interpretação faz deste comportamento paradoxal no seio da FRELIMO?
Calton Cadeado (CC): Acredito que é uma estratégia do partido,
que aos olhos da comunidade mostra uma dissonância. Mas, no fundo, há
uma consonância entre o partido e o presidente. A meu ver, a FRELIMO
confia na RENAMO, mas com muitas reservas. É a teoria de "confiar
desconfiando". Principalmente porque a RENAMO já deu mostras de que tem
um discurso incoerente.
A FRELIMO está a usar cautela e pragmatismo para não ser surpreendida
com as mudanças repentinas de posicionamento da RENAMO. Acho também que
estamos perante uma situação em que a FRELIMO quer coordenar duas
estratégias: a estratégia de "stick and carrot" [bastão e cenoura] e a
estratégia de promessas e ameaças também, para se posicionar firmemente
em relação ao ponto que a FRELIMO acredita não passar de um pretexto
para chegar à divisão do país.
DW África: Muitos analistas acreditavam que o novo Presidente de
Moçambique seria apenas uma espécie de símbolo, pois na verdade outras
figuras do partido iriam dirigir o país nos bastidores. O atual caso é
prova disso?
CC: Eu acho que não. A FRELIMO e o Presidente, parece-me, estão
numa consonância de estratégias para colocar o Presidente na ideia do
"softpower". Esta ideia de "softpower" é entregue ao Presidente, que tem
de ser cogitado com uma boa imagem, e a ideia do "hardpower" tem que
ser entregue ao partido, que é onde reside a figura de Filipe Nyusi como
Presidente neste momento.
Parece-me que esta é uma estratégia pensada, que tem que ver com a
teoria da utilização de diferentes componentes de poder, como forma de
proteger o Presidente até de qualquer eventual estratégia de ameaça que a
RENAMO vai usar.
É bom não perdermos de vista que a RENAMO e a sociedade estão a pedir
que a FRELIMO use uma política muito idealista, mas ao mesmo tempo a
RENAMO não abandona a política realista. Isso funciona muito com acções
subterrâneas, até de maquiavelismo político. Acho que é um assunto de
proteção do chefe de Estado, para que este não tome posições populistas,
precipitadas e até com teor de ingenuidade.
Permita-me que use este exemplo: se um ladrão me engana duas vezes da
mesma forma, se ele me conseguir enganar uma terceira vez da mesma
forma, está visto que ele me vai considerar ingénuo e vai abusar sempre
dessa prorrogativa de poder para me enganar. Parece-me que a FRELIMO já
aprendeu esta lição nas várias vezes que a RENAMO a enganou. Enquanto
dizia algumas coisas por cima do pano, ao mesmo tempo, por baixo do
pano, ia fazendo as suas críticas e tentativas de ameaça, ameaças
concretas e até alguma má fé.
DW África: Esta dualidade de comportamentos põe em causa a figura do
Presidente de Moçambique. Acha que está na hora de Filipe Nyusi tomar a
cadeira do partido FRELIMO?
CC: Estou à espera de ver na FRELIMO aquilo que já estamos a
conseguir ver. Pode ser que neste momento esteja a ser ensaiado um
modelo de governação na FRELIMO. É uma percepção, uma especulação que
ainda está a ser testada. Se sim, tem que assumir o poder dentro do
partido. A tradição mostra que tem de ser assim.
Mas como estamos habituados a isto, se calhar está a ser ensaiada uma
mudança agora. Estamos todos à espera de ver a rotina, não queremos
assumir a mudança. No seu discurso, o chefe de Estado diz que temos de
estar preparados para a mudança. Não sei se essa mudança não inclui
também esta questão que está a ser vivida agora. Deutsche Welle
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