Angola e Alemanha reforçam cada vez mais a cooperação militar. Para o
especialista Ramos Buta, essa parceria deveria abranger outras áreas.
"Não faz sentido adquirir barcos sofisticados quando há gente a morrer
de fome."
Desde a passada sexta-feira (20.02), encontra-se em Luanda uma missão da
Marinha alemã no contexto do combate à pirataria. A visita da missão,
que termina esta terça-feira (24.02), tem por objetivo formar militares
angolanos e dar apoio técnico.
Esta terça-feira, as marinhas dos dois países realizaram, ao largo de
Luanda, um exercício naval conjunto. "A visita desta força [da Alemanha]
pode ser vista como o primeiro passo visível na intensificação da
cooperação militar entre as nossas duas nações", sublinhou o
capitão-de-mar-e-guerra Andreas Seidl, que lidera esta força.
"Angola é um parceiro muito poderoso e influente em África e que tem uma
bela história para contar", afirmou também o embaixador alemão em
Angola, Rainer Müller, na apresentação dos meios navais na capital
angolana. Acrescentou que é um "orgulho" para a Alemanha ter o país
africano como "parceiro na área da Defesa".
Este exercício segue-se à visita à Alemanha,
em novembro do ano passado, do ministro da Defesa angolano, João
Lourenço, que terminou com a assinatura de um acordo de cooperação na
área da Defesa entre os dois países.
Sobre a intensificação da cooperação entre Angola e Alemanha, a DW
África entrevistou Ramos Buta. O especialista angolano em questões
militares defende que a cooperação entre Angola e Alemanha deveria ser
"mais abrangente" e estender-se a áreas como a economia e a saúde,
passando até pela cidadania e os direitos humanos.
DW África: A necessidade de combate à pirataria e proteção das águas
angolanas justifica a forte militarização que Angola está a viver?
Ramos Buta (RB): As relações e a cooperação entre Estados são
sempre salutares. Mas há também a questão de determinados investimentos
que podem ser tidos em conta e em função do contexto do país. Claro está
que existe o perigo da pirataria e a questão da soberania na protecção
das águas territoriais. Acho que essa cooperação militar não devia ficar
só por aqui. Há áreas onde a cooperação entre os dois Estados poderia
trazer maiores benefícios para o país.
Não é má de todo essa cooperação. Contudo, seria bom que, já que não
pode ser da iniciativa do Governo angolano, deveria ser iniciativa do
Governo alemão que essa cooperação fosse mais abrangente, de forma a
incluir outros sectores, como a economia, a saúde e até mesmo a
cidadania e os direitos humanos. Não faz muito sentido às vezes fazer
uma cooperação ou adquirir barcos sofisticados quando ainda há muita
gente a morrer de fome no país. E este ano vai ser um ano muito mais
difícil.
DW África: Que avaliação faz do interesse que a Alemanha demonstra em
vender barcos de guerra e equipamento a Angola? É realmente uma
preocupação pela sua protecção ou não passa de um negócio lucrativo para
este país europeu?
RB: Já sabemos que quem quer vender faz todos os possíveis para
vender. Ainda que saiba que o país não tenha essa necessidade no
imediato – essa necessidade não é premente –, quem quer vender, vende e
tenta convencer as pessoas a comprar.
DW África: Quer com isso dizer que não é realmente uma necessidade, é mais uma vontade de fazer negócio?
RB: Exatamente. Por exemplo, nós podemos proteger as nossas
fronteiras com menos equipamento, com aparelhos menos sofisticados. O
fortalecimento de um Estado militarmente pode ser visto sob dois
ângulos. Um deles é realmente a defesa da sua soberania.
DW África: Sendo Angola um país considerado pouco democrático e até
repressivo, este aprimoramento em termos de formação e aquisição de
equipamento militar não será algo intimidatório?
RB: No nosso contexto sociopolítico, em que Angola não é
realmente uma democracia e existem ainda focos de repressão à oposição,
aos dissidentes e às vozes discordantes, esse fortalecimento militar
também pode significar uma maior repressão em terra. E isso pode não ser
bem visto pelas outras pessoas. Angola está a querer projetar-se
internacionalmente, não só no aspecto económico, mas acima de tudo no
aspecto militar.
É praticamente do conhecimento de todos que Angola pretende tornar-se
uma potência em África. E se não é economicamente, porque a África do
Sul, a Nigéria e outros países estão à frente de Angola, militarmente
está a tentar fazer isso. Prova disso é a intervenção de Angola no
conflito na região dos Grandes Lagos. Mas isso pode também fazer com que
se calem mais vozes dentro do país.
DW África: A Alemanha é um país que critica a violação dos direitos
humanos, a falta de liberdade de expressão e que, por outro lado,
fomenta a militarização de um país como Angola, repressivo e
antidemocrático. Como é que vê este paradoxo?
RB: Respondo-lhe quase com uma resposta do meu pai, que há uns
anos me foi visitar quando estudei na Alemanha. Em colóquios com
estudantes, fizeram-lhe perguntas sobre as causas da guerra em Angola e
quando iria acabar. E o meu pai disse: "Quando vocês fecharem as vossas
fábricas, então a guerra em Angola poderá acabar." Deutsche Welle
Sem comentários:
Enviar um comentário